O Coração que nos amou até o fim
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O Coração que nos amou até o fim
Mons. João Clá Dias, EP - 2012/06/11

31 "Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. 32 Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. 33 Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas; 34mas um soldado abriu-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35 Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. 36 Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: ‘Não quebrarão nenhum de seus ossos'. 37 E outra Escritura ainda diz: ‘Olharão para Aquele que transpassaram'" (Jo 19, 31-37).

Único e inesgotável, o amor do Sagrado Coração a cada um de nós foi levado até extremos inimagináveis. Como não ter, em consequência, uma confiança absoluta na misericórdia divina, apesar de nossas misérias? Ou, talvez, até por causa delas?

Monsenhor João Clá Dias, EP.jpgMons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I - Filhos únicos e muito queridos

Ao considerar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, corremos o risco de ficar muito aquém do tesouro de bondade e misericórdia que essa forma de piedade coloca à disposição dos fiéis. Porque o Coração de Jesus é o tabernáculo mais autêntico e substancial das três Pessoas da Santíssima Trindade e, em consequência, não há melhor meio de adorar o Pai, o Filho e o Espírito Santo do que através d'Ele.

Com efeito, o Sagrado Coração de Jesus, invocado na ladainha que Lhe é dedicada como "unido substancialmente ao Verbo de Deus", abarca de maneira insondável ambas as naturezas de Cristo: a humana e a divina. Assim, com toda propriedade, é por seu intermédio que Deus entra em contato conosco, respeitando as nossas proporções e apresentando-Se ao nosso alcance de maneira a nos inspirar confiança. E reciprocamente, adorando a Deus através do Sagrado Coração, utilizamo-nos do altar mais privilegiado, supremo até, para nossas orações ascenderem ao Céu de maneira a serem aí recebidas com absoluta complacência.

Símbolo por excelência do amor infinito de Deus pelos pecadores e a mais comovente manifestação de sua capacidade de perdoar, abrir- -se à misericórdia que d'Ele dimana constitui uma segura fonte de salvação, porque, como acentua o Papa Pio XII: "Só Aquele que é o Unigênito do Pai e o Verbo feito Carne ‘cheio de graça e de verdade' (Jo 1,14), tendo descido até os homens oprimidos de inúmeros pecados e misérias, podia fazer brotar de sua natureza humana, unida hipostaticamente à sua Pessoa Divina, um manancial de água viva que regasse copiosamente a terra árida da humanidade, transformando-a em florido e fértil jardim".1

Deus nos amou desde toda a eternidade

Para melhor avaliarmos a extensão e o valor desta caridade consideremos ser ela eterna e não circunscrita no tempo. O homem pode sentir afeto ou repulsa apenas por objetos cuja existência conhece. Com Deus, entretanto, o fenômeno dá-se de forma diversa. Ele, afirma São Tomás, "conhece todas as coisas, não apenas as que existem em ato, como também aquelas que estão em sua potência ou na potência das criaturas. [...] Seu olhar recai desde toda eternidade sobre todas as coisas, como estão em sua presença".2

Assim, o Criador nos amou de modo incalculável muito antes de dar-nos a existência. Considerando o mundo dos possíveis divinos, escolheu- nos a cada um em particular, tendo-nos presente em sua Redenção. Pois, acrescenta o Doutor Angélico, "embora as criaturas não tenham existido desde toda a eternidade, senão em Deus, entretanto, por terem existido em Deus desde toda a eternidade, Ele as conheceu desde toda a eternidade em suas próprias naturezas; e por isso mesmo as amou".3

Uma luz primordial para cada criatura humana

Ora, sendo Deus o Supremo Bem, ao amar um ser projeta sobre ele algo de sua Suma Bondade, pois "o amor de Deus infunde e cria a bondade nas coisas".4 Assim, foi dado a cada criatura humana o dom de refletir algumas das infinitas perfeições d'Ele de um modo irrepetível, inconfundível e próprio. E toda a vida espiritual da pessoa vai se ordenar com base nessa dádiva concedida por Deus para capacitá-la a, de alguma maneira, contemplá-Lo e espelhá-Lo já nesta Terra. É o que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira chamava de "luz primordial", isto é, "o conjunto de perfeições de Deus correspondente ao mais ardente ponto de aplicação da inteligência e da vontade de cada homem".5

Por esse prisma, não há nenhum indivíduo igual a outro, porque através dessa participação exclusiva nos atributos divinos estabelece-se um relacionamento do Criador conosco, e nosso com Ele, extraordinário, pessoal e único, que é a melhor das preparações para a eterna bem- -aventurança. Porque Deus não nos ama apenas segundo o bem posto por Ele em nossa natureza humana ao nos criar, mas de acordo com o estado de perfeição que teremos na Visão Beatífica - se até lá chegarmos -, purificados pelo Preciosíssimo Sangue da Redenção.

Em síntese, para o Sagrado Coração de Jesus cada um de nós é filho, e filho único, amado de forma inimaginável desde muito antes de nascer! É nessa perspectiva que devemos analisar o episódio narrado pelo Evangelho desta Solenidade.

II - O Coração que nos amou até o fim

Consideremos que para operar a Redenção teria bastado Jesus oferecer a Deus Pai um simples gesto, um só olhar, ou até mesmo uma curta palavra, por terem seus atos méritos infinitos. Entretanto, por seu ilimitado amor à humanidade manchada pelo pecado de Adão, quis sofrer as ignomínias da flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via Sacra, os tormentos da Crucifixão até a Morte.

Tendo o Redentor entregado o espírito (cf. Mt 27, 50), pareceria tudo encerrado, quando o Evangelista introduz em seu relato esta passagem relativamente longa, composta de sete versículos, mas omitida, entretanto, pelos Sinópticos, talvez por ter sido São João o único dos Apóstolos presente junto à Cruz, sendo, portanto, dos evangelistas a única testemunha ocular.

Morte lenta e muito dolorosa

31 "Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. 32 Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus".

A crucifixão produzia uma terrível falta de ar, em razão de todos os músculos do condenado, suspenso pelos dois braços, irem aos poucos se contraindo em terríveis cãibras, e seus pulmões acabarem comprimidos pelas musculaturas intercostais, interrompendo a respiração. A isso se unia a perda de sangue, motivada pela flagelação e outros maus-tratos recebidos antes de chegar ao patíbulo. Era uma morte lenta e muito dolorosa, que podia se prolongar durante vários dias.

Por vezes, entretanto, para que a agonia não fosse por demais longa, havia entre os romanos o costume, chamado crurifragium, de acelerar o desenlace, quebrando com um violento golpe as pernas do crucificado. Assim fizeram os soldados com os dois ladrões e se dispunham a fazer o mesmo com Nosso Senhor.

A essa brutal medida, não foram movidos por razões humanitárias, mas pela pressa de tirar o quanto antes do cadafalso os corpos dos condenados. Para os romanos, não havia inconveniente em deixá-los ali expostos durante dias, servindo de pasto às aves de rapina, mas a lei mosaica proibia qLONGÍNUS, ue os cadáveres dos supliciados passassem a noite no local da execução.

Sendo, sobretudo, a véspera da festa da Páscoa, os judeus não queriam que naquele sábado tão solene a maldição ligada "ao que foi suspenso" manchasse a terra (cf. Dt 21, 23). Foi esse o motivo do pedido feito a Pilatos, sobre o qual comenta São João Crisóstomo: "Os judeus, que engoliram o camelo e filtraram o mosquito, encontrando-se embora prestes a executar um ato tão descarado, tinham não obstante escrúpulos com relação ao dia".6

"Logo saiu sangue e água"

33"Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas; 34mas um soldado abriu-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água".

Perceberam os soldados que o Divino Crucificado estava morto, mas, como a lei romana não permitia liberar o corpo do supliciado sem certificar-se do seu falecimento, um deles transpassou-Lhe com sua lança o lado, do qual "logo saiu sangue e água". Numa derradeira manifestação de sua misericórdia infinita e como se não bastasse o sacrifício feito até este momento, desejou o Redentor derramar as últimas gotas de sangue e água de seu Coração.

Acurados estudos médicos demonstram que jorrarem sangue e água do lado de Cristo morto é algo fisiologicamente plausível nos condenados ao suplício da cruz.7 Ora, esta impressionante cena deve ser contemplada a partir de uma óptica de fé, e não apenas por um prisma meramente humano. A respeito dela, comenta o padre Ignace de la Potterie que "foi provavelmente acrescentada como uma interpretação teológica e espiritual da morte na Cruz. Os frutos da vida e da morte de Cristo são aqui indicados por dois fatos simbólicos na perspectiva do tempo escatológico que se inicia naquele momento: aqui começa o tempo do Espírito, o tempo da Igreja".8

A mais sublime fonte que os séculos conheceram

Efetivamente, o golpe de lança do soldado romano abriu a mais sublime fonte que os séculos conheceram. Com ele realizava-se o ideal concebido por Deus para a criatura água tão claramente esboçado por Nosso Senhor ao longo de seu ministério: "Aos bordos da água Jesus inaugura sua vida pública; as águas de Caná servem de matéria para seu primeiro milagre; o poço de Jacó é o lugar escolhido para a vocação da Samaritana; com a água Jesus começa, e com a água conclui, a água sai juntamente com o sangue de seu lado perfurado por uma lança. A água e o sangue, eis o duplo sacramento do Batismo e do martírio. Deixai, pois, vosso pensamento se elevar do reino da natureza ao da graça, à vista dessa água que purifica e fecunda tudo nas duas ordens".9

Saíram sangue e água do Coração traspassado de Jesus, e com eles nasceu a Santa Igreja "De seu flanco formou Cristo a Igreja, como do de Adão formara Eva", afirma São João Crisóstomo. 10 E Santo Ambrósio assevera: "Já que ‘o primeiro Adão foi feito alma vivente, e o novo é alma vivificante' (I Cor 15, 45), o novo Adão é Cristo, o flanco de Cristo é a vida da Igreja".11 Ao longo de sua vida apostólica, comenta o padre Monsabré, Cristo manifestou seu desígnio de estabelecer sobre fundamentos inabaláveis essa sociedade perfeita de almas, "e quando Ele Se entrega à morte, é para sua Igreja amada, é sua gloriosa Igreja que Ele quer fazer sair pura e imaculada de suas chagas que sangram". 12

Como afirma o Apóstolo, "Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do Batismo com a palavra, para apresentá-la a Si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível" (Ef 5, 25-27). É do conúbio místico entre Jesus e a Igreja - arquétipo do matrimônio sacramental - que nascem todos os filhos de Deus, gerados pela água do Batismo e pelo sangue da Eucaristia.

O testemunho do Evangelista

35 "Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis".

Não por mera coincidência, quem nos dá a conhecer esta passagem do Evangelho é o Discípulo Amado, que na Santa Ceia recostou-se sobre o Sagrado Coração e pôde sondar suas divinas maravilhas e segredos, pois "nenhum compreendeu como ele o sentido e a importância do episódio da transfixação do Coração de Jesus morto, no Calvário".13

Visando dissipar qualquer dúvida sobre a veracidade do fato, do qual era testemunha qualificada, São João incluiu de modo solene esta circunstância no Evangelho. A perfuração do Sacratíssimo Coração de Jesus tornava patente a todos a morte de Cristo, e, segundo São João Crisóstomo, o Santo Evangelista fez seu detalhado relato "para frear as línguas mentirosas dos hereges, para predizer os futuros mistérios e em consideração ao tesouro que neles albergavam".14

A morte do Cordeiro

36 "Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: ‘Não quebrarão nenhum de seus ossos'. 37 E outra Escritura ainda diz: ‘Olharão para Aquele que transpassaram'".

As referências finais à Sagrada Escritura reforçam ainda mais o solene testemunho do Apóstolo. Na primeira, tirada do Livro do Êxodo (Ex 12, 46), identifica Nosso Senhor com o cordeiro pascal, cujos ossos a lei mosaica proibia quebrar. Na segunda, evoca a profecia de Zacarias a respeito da libertação de Jerusalém (Zc 12, 10).

Explica Bento XVI: "É a hora em que são degolados os cordeiros pascais; para estes, vigora a prescrição segundo a qual não se lhes deve quebrar nenhum osso (cf. Ex 12, 46). Jesus aparece aqui como o verdadeiro Cordeiro pascal, que é puro e perfeito. Por conseguinte, nessa palavra podemos vislumbrar também uma recordação tácita dos inícios da história de Jesus, daquela hora em que o Batista dissera: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo' (Jo 1, 29). Aquilo que então devia permanecer ainda incompreensível - era apenas uma misteriosa alusão a algo futuro - agora é realidade. Jesus é o cordeiro escolhido pelo próprio Deus. Na cruz, Ele carrega o pecado do mundo e ‘tira-o fora'".15

III - Confiança e reciprocidade

Querendo resgatar o gênero humano transviado pelo pecado de nossos primeiros pais, Nosso Senhor Jesus Cristo derramou até sua última gota de sangue na Cruz. E, se necessário fosse, teria feito esse supremo sacrifício para salvar individualmente cada um de nós.

Desse holocausto nasceu a Santa Igreja, erigida por Nosso Senhor para restaurar e aperfeiçoar o estado de graça perdido pelo homem por causa do pecado dos nossos primeiros pais. Sociedade perfeita e visível, ela purifica as almas pelo Batismo, administra- lhes os Sacramentos e as faz participar da vida divina, em vista da eterna bem-aventurança.

Diante de tão insondável manifestação de benquerença, impossível é deixarmos de nos sentir amados por Deus apesar das nossas misérias. Mesmo após termos rolado na lama do pecado, podemos contar com os infinitos méritos obtidos pelo Sacratíssimo Coração de Jesus durante sua Paixão, certos de que Ele tudo fará para nos resgatar.

Inclusive nossas misérias oferecem ao Coração de Jesus oportunidade de manifestar sua infinita bondade e seu incomensurável desejo de perdoar, redundando tudo em maior glória para Deus.

Devemos, pois, nos encher de confiança e afastar a menor incerteza em relação ao amor do Criador por nós. Mas precisamos, sobretudo, ter um desejo ardoroso de nos entregar totalissimamente nas mãos da Divina Providência, sem jamais pensar em obter qualquer benefício pessoal desligado da glória do Altíssimo. Pois qualquer bem que possamos excogitar para nós nada será em relação àquela participação nas perfeições divinas que Ele nos reservou desde todo sempre.

Assim, quando fecharmos os olhos para este tempo e nascermos para a eternidade, teremos uma glória essencial e acidental inimaginável, participação da própria glória de Deus. Por quê? Porque, como ensina Santo Agostinho, quando Deus nos recompensa, Ele coroa seus próprios dons.16

Cientes desta maravilha, confiemos nesse Sacratíssimo Coração que nos amou até o fim, e se inclina tanto mais sobre as criaturas quanto mais necessitam elas de perdão.

* * *

Complemento indispensável para estas considerações é uma referência Àquela cujo Imaculado Coração, no dizer de São João Eudes, é tão unido ao do seu divino Filho a ponto de ambos formarem um só: o Sagrado Coração de Jesus e Maria.17

E, assim como Nosso Senhor considerou todos os homens no Horto das Oliveiras, assim a Mãe da Igreja deve ter vislumbrado naquele instante todos os que haveriam de fazer parte do Corpo Místico de Cristo.

A grandeza do Imaculado Coração de Maria é um mistério que nossa inteligência não alcança. Sem dúvida, Ela rezou
no Calvário por todos. E hoje, Ela acompanha do Céu as dificuldades e alegrias de cada um dos seus filhos, disposta a nos atender com indizível afeto, ternura e carinho.

(Revista Arautos do Evangelho, Junho/2012, n. 126, p. 10 à 17)

 

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