Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. 17Quando O viram, adoraram-nO; entretanto, alguns hesitavam ainda. 18Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: Toda autoridade me foi dada no Céu e na Terra. 19Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 20Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo (São Mateus, cap. 28).
Até que ponto o escândalo produzido pelo Filho do Homem em sua vida pública está na raiz da honra, poder e glória recebidas em sua Ressurreição?
Mons. João Clá Dias, EP
Os poucos versículos do Evangelho do 11º domingo do Tempo Comum são de fácil compreensão e tornam dispensáveis longas digressões para aprofundar seu significado.
Mas é de capital importância, para melhor degustar o relato de São Mateus no final de seu Evangelho, conhecer bem exatamente as causas que levaram Jesus a afirmar aos Apóstolos: "Toda autoridade me foi dada no Céu e na Terra". Ou seja, o porquê coube a Ele, enquanto Filho do Homem, conferir aos Apóstolos o poder oficial de ensinar a todas as nações e batizá-las em nome da Santíssima Trindade.
Para isso, antes de entrarmos nas considerações sobre esse trecho de São Mateus, discorramos sobre importantes premissas do Evangelho de hoje.
I - AS PREMISSAS
A transformação das mentalidades
Com a acentuada e crescente decadência moral dos últimos tempos, paulatinamente vão se transformando as mentalidades, e passam a vigorar novas normas, insurgindo-se contra as eternas estabelecidas por Deus. Dando largas às suas paixões e vícios, numa progressiva via de deterioração dos princípios morais mais profundos, os homens contemporâneos chegam a dizer "em seus corações: o Senhor não faz bem, nem mal"(1).; e acabam por eleger para si máximas relaxadas de vida: Tudo é permitido... É proibido proibir..
Ora, se nós abrirmos os Evangelhos, constataremos que não foi essa a conduta de Jesus e nem sequer por aí rumaram seus conselhos. Muito pelo contrário, o Divino Mestre afirmou: Seja a vossa linguagem .sim, sim, não, não.(2).
Jesus foi pedra de escândalo
| Cristo coroado de espinhos, o rejeitado ... |
Já ao ser o Menino Deus apresentado no Templo, Maria ouviu de Simeão estas palavras: Eis que ele está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição(4).
O fato de Jesus ter sido pedra de escândalo é uma das causas de O terem odiado e de O tratarem como o Homem mais rejeitado da História. Esse escândalo deu-se, sinteticamente, por três razões.
1. Por sua humildade e grandeza.
A Pessoa Divina de Jesus une em si dois extremos opostos: a humildade e a grandeza.
Que o Messias nascesse em uma gruta, talvez ainda fosse aceitável para o orgulho humano, mas morrer na cruz... Era levar esta virtude até limites inconcebíveis.
De outro lado, Cristo, de dentro de sua inferior condição humana, demonstrou seu domínio sobre as enfermidades e a própria morte, sobre os mares, os ventos e as tempestades, causando espanto até aos seus mais íntimos.
É-nos fácil compreender a humildade, mas vê-la harmonicamente subsistir com a grandeza, num mesmo ser, choca nossa débil inteligência. Entretanto, Jesus nos chama à prática dessas virtudes opostas: por um lado, estarmos convictos de nossa conting ência; por outro, vivermos na plena compenetração de sermos, pelo Batismo, filhos de Deus.
2. Jesus, ademais, escandalizou por sua doutrina.
Não só por expô-la com clareza e integridade totais, mas por ser Ele a própria Verdade em substância: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim"(5).Não é difícil compreender o espanto de muitos ao ouvir o filho do carpinteiro dizer isto!
Como afirma Donoso Cortés, célebre escritor do século XIX, o homem aceita verdades, mas tem dificuldade em admitir a Verdade. A acirrada polêmica de Jesus com os fariseus tinha em seu cerne essa problemática: apontava o Divino Mestre para o grave dever moral de adequar a vida e os costumes à lei de Deus. Mas, sobretudo, convidava seus ouvintes a aceitá-Lo como fonte e substância de tudo aquilo que pregava.
Os fariseus eram hipócritas, condutores cegos, serpentes, raça de víboras, etc.(6), e em seu orgulho estavam resolvidos a nunca aceitar a Verdade. Daí a perseguição até a morte, movida por eles contra o Verbo Encarnado.
3. Por fim, Jesus escandalizou por sua santidade:
"A condenação está nisto: A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras são más. Porque todo aquele que faz o mal, aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de que não sejam reprovadas as suas obras(7)".
Ainda hoje . e assim será até o dia do Juízo . o pecador, em sua concupiscência, tem horror ao justo pois, à luz da vida deste, dá-se conta da maldade e feiúra do vício que abraçou, e não querendo abandoná-lo, procura destruir, ou denegrir o símbolo que o censura.
A verdadeira santidade consiste em conhecer a Verdade, amá-la e praticá-la, ainda que isto possa levantar incompreensões e até rejeição. Disto Ele nos deu pungente exemplo no consummatum est, do alto da Cruz: de sinal de escárnio e de ignomínia, ela foi transformada pelo Redentor em trono de honra, poder e glória.
Na rejeição está a origem de seu poder
Terminadas estas considerações, voltamos a nos perguntar: onde encontrar a base dessa onipotência dada ao Filho do Homem?
| ... Cristo, o Rei do Universo:o Onipotente |
Enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Cristo é onipotente desde toda a eternidade. E enquanto homem, participa desse poder na sua plenitude, devido à união hipostática entre a natureza humana e a divina na pessoa do Verbo(8).
Não é a essa origem de seu poder régio e universal que Jesus faz referência no trecho do Evangelho de hoje, pois afirma claramente: "Toda autoridade me foi dada no Céu e na Terra". Este versículo tem estreita relação com a Realeza de Cristo por direito de conquista. Ou seja, pelo fato de ter redimido o mundo pela sua Paixão e Morte de cruz. Trata-se de um domínio que Lhe foi dado no tempo, e não daquele seu eterno, como tão claramente transparece em Daniel(9), Lucas(10) e muito mais na encíclica Quas Primas, de Pio XI: Há realidade mais doce e consoladora para o homem que o pensamento de que Cristo reina sobre nós, não só por direito de natureza, senão, ademais, por direito de conquista, isto é, o direito da redenção?
Eis o fundamento de .toda autoridade . entregue a Cristo-Homem: sua Paixão e Morte, a Redenção do mundo.
Ora, foi pelo escândalo produzido por Jesus, sem a menor fímbria de respeito humano, que Ele foi rejeitado e crucificado. Pela aceitação humilde dessa total rejeição, fez-se objeto de tão grande mérito: de rejeitado, tornou-se onipotente(11). Por isso pergunta São Lucas: "Porventura não era necessário que o Cristo sofresse tais coisas e assim entrasse na sua Gló ria"?. (12)
II - NÓS E O ESCÂNDALO
O homem tem verdadeira ânsia de poder, mas procura-o por vias equivocadas.
A Redenção nos elevou, do estado de meras criaturas, à categoria de filhos de Deus e co-herdeiros de Cristo, e fez de nós verdadeiros templos de Deus(13). Esta qualidade adquirida no Batismo exige uma alta compenetração a respeito da dignidade e grandeza de nossa participação na vida divina.
Mas, de outro lado, somos concebidos no pecado original. Nossa natureza é débil, e por isso somos obrigados a reconhecer nossa contingência, aprendendo de Jesus a sermos mansos e humildes de coração(14).
Falsa noção de humildade
Muito se tem insistido ao longo dos séculos sobre esta virtude, da qual Nosso Senhor é o modelo perfeito.As Escrituras estão repletas de conselhos a este propósito(15), e o próprio Divino Mestre recrimina a soberba arrogante do fariseu, estigmatizando- a em parábola, ao final da qual afirma: "quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado"( 16).
Porém, devido a uma compreensão errônea do que seja a verdadeira humildade, alguns desvios se tornaram freqüentes em nossos tempos, influenciando os gestos, as atitudes e até as vestimentas.
Para exemplificar, tratemos sobre o modo de vestir-se adotado nestas últimas décadas. Parece ser orgulhoso quem usa roupas de acordo com sua categoria, sobretudo quando muito limpas e bem passadas. A despretensão consistiria, então, em ser desalinhado, trajar-se com grande descuido, ter os cabelos desgrenhados, etc.
Ora, São Tomás de Aquino afirma que, muitas vezes, não é por virtude que as pessoas se vestem mal, mas sim por desleixo. Segundo ele, devemos aplicar cuidado e diligência em nossa apresentação pessoal. E cita, a este propósito, uma frase de Santo Agostinho: "Não somente no esplendor e na pompa das coisas materiais pode haver jactância, mas também na sordície lamurienta, e tanto mais perigosamente quanto se apresenta, para nos enganar, com o pretexto de servir a Deus"(17)..
O grande escândalo: denunciar o mal
| "Consummatum est". Perseguidos por seus inimigos até a morte na cruz, Nosso Senhor a transfor- mou de sinal de ignomia em seu trono de honra, poder e glória |
Mais uma vez, o erro é desmentido pelo próprio Jesus. Ele não deixou de ser humilde quando acusou os fariseus: "Vós tendes por pai o demônio e quereis satisfazer o desejo de vosso pai., nem quando .dirigindo-se à multidão e a seus discípulos", vituperou- os com os apodos de hipócritas, insensatos e cegos, sepulcros caiados, raça de víboras18.
Com essa forma de proceder, poderia Jesus não escandalizar?
Eis a grande lição que nos dão as premissas do Evangelho de hoje: sejamos humildes de verdade, sem deixar a santidade de vida e de costumes, ainda que esta atitude produza escândalo nos outros. Jamais devemos nos esquecer de nossa condição de filhos de Deus.
III. O EVANGELHO
Analisemos agora, um a um, os versículos do Evangelho.
16Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado
Foram convocados os "onze", pois o traidor já havia se suicidado. Jesus lhes dissera que os reencontraria na Galiléia(19), porém, a referencia à montanha surge aqui por primeira vez e não se sabe ao certo qual terá sido ela. Alguns autores pensaram tratar-se do Tabor.
17Quando O viram, adoraram-nO; entretanto, alguns hesitavam ainda
O Espírito Santo ainda não havia descido sobre os discípulos conforme estava prometido, pois Jesus não tinha ido ao Pai até aquele momento( 20). Por isso, "alguns hesitavam ainda".. Faltava-lhes libertarem-se de uma compreensão muito humana do Messias, que lhes toldou a verdadeira visão até a hora da Ascensão de Jesus ao Céu, levando-os a perguntar-Lhe nessa ocasião: "Senhor, porventura chegou o tempo em que vais restabelecer o Reino de Israel"(21)?
Quantos de nós não sofremos deste mesmo mal? O fixarmos o melhor de nossa atenção exclusivamente nos aspectos comuns e aparentes de nossa existência nos conduz a não discernir Jesus que nos acompanha a cada passo. Hesitamos! A todo momento, Jesus nos chama para d.Ele mais nos acercarmos. Mas se nos deixarmos, por assim dizer, hipnotizar por nossos afazeres, amizades, pertences.enfim, por tudo que nos rodeia, não daremos ouvido à sua voz.
18Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: Toda autoridade me foi dada no Céu e na Terra.
Evidentemente, não se refere Jesus neste trecho à sua natureza divina, pois, por esta tem poder absoluto desde todo sempre, sendo coeterno com o Pai. Trata-se, aqui, de uma comunicação da divindade à carne, do Filho de Deus ao Filho da Virgem: a autoridade suprema, absoluta e infinita é conferida à humanidade santíssima de Jesus.
São Paulo, escrevendo aos Colossenses, tornou clara a essência desse poder: "Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação. N.Ele foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, Dominações, Principados, Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem n.Ele. Ele é a Cabeça do corpo, da Igreja. Ele é o Princípio, o primogênito dentre os mortos e por isso tem o primeiro lugar em todas as coisas. Porque aprouve a Deus fazer habitar n.Ele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na Cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na Terra e nos Céus"(22).
Ainda nesta passagem do Evangelho, é digna de nota a insuperável didática e senso de cerimônia do Ressuscitado.
Vendo a hesitação de alguns e, ao mesmo tempo, para tornar mais solenes suas palavras, resolveu por bem pronunciá-las .aproximando-se..
19 Ide, pois, e ensinai a todas as nações
Revestido de todo poder, Jesus não pede, mas ordena: "Ide". Assim procede não só para exercer sua autoridade, mas para conferir aos enviados (os onze e seus legítimos sucessores) um caráter de oficialidade. Os Apóstolos, por extensão e participação do poder do Redentor, após essa determinação, passaram a agir em nome do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.
E qual será o raio de ação desse poder conferido à Igreja em seu nascedouro? Universal! Sim, Jesus deseja expandir seu Reino sobre todos os povos e nações.
A Sabedoria Eterna e Encarnada havia educado com esmero seus Apóstolos antes de lançá-los a mares mais agitados, começando por adestrá-los dentro dos limites da própria nação: "A estes doze enviou Jesus, depois de lhes ter dado as instruções seguintes: Não vades para entre os gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos, ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel"(23). Após a Ressurreição, já se encontram aptos a ensinar .a todas as nações., cumprindo a ordem do Salvador.
Batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
Pela Teologia, sabemos ser a conversão fruto de uma graça eficaz, de iniciativa do próprio Deus. Entretanto, por razões de altíssimo conteúdo ontológico, ligadas ao instinto de sociabilidade, Deus quer servir-se de instrumentos humanos para converter as almas. Daí ter criado um método e, sobretudo, uma organização que se sintetizam neste versículo, ao proferir Jesus, de forma solene, a determinação de que uns ensinem os outros, sem acepção de pessoas ou de raças, conduzindo todos para a recepção do Batismo.
| O modelo perfeito. Em Nosso Senhor, a humildade subsistia harmonicamente com a grandeza do Deus que dominava as doenças e a morte ("A cura dos 10 leprosos" - Catedral de Sevilha) |
O Evangelho, enquanto mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, deve ser o caminho preparativo com vista à acolhida do neo-convertido no seio da Igreja.
20Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi
Depois de batizado, o neófito dever á observar tudo o que foi prescrito pelo Divino Mestre. "A fé sem obras é morta", diz São Tiago(24). Assim, é indispensável ele tornar sua vida e costumes de acordo com o Evangelho que ouviu e aceitou no seu coração.
Não basta, portanto, ter fé e ser batizado; para salvar-se é obrigatório cumprir os mandamentos divinos. Essa prática virá sobretudo do amor, conforme diz São João: "Se me amais, observareis os meus mandamentos".....(25)
Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo
Antes da Paixão, Jesus prometera: "Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós" (26). Mas agora, além de categórico, seu compromisso é permanente e mais substancial: "Estou convosco todos os dias, até o fim do mundo".
Jesus certamente não se refere à presença eucarística com exclusividade, pois já afirmara: "Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles". (27). Ou seja, trata-se de uma presença misteriosa e atraente. Ele vivificará sua obra, a Igreja, animando-a e fortificando- a sem cessar. É a proclamação, segundo São Jerônimo, do triunfo da Igreja, pois Ele nunca se afastará dos fieis que n.Ele crêem.
(Revista Arautos do Evangelho, Junho/2003, n. 18, p. 6 à 11)
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