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Contos Infantis


O último santinho
 
AUTOR: IRMÃ MICHELLE VICCOLA, EP
 
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Por um momento as crianças pensaram em regressar, pois a chuva começou a apertar e o vento gelado penetrava até os ossos. Desistiriam faltando tão pouco?

O grupo de coroinhas da Paróquia de Nossa Senhora do Amparo era bem numeroso e entusiasmado. Todos os sábados tinham reunião com o padre Romualdo e este lhes contava histórias da vida dos santos, milagres eucarísticos, bem como intervenções prodigiosas de Nossa Senhora em favor dos seus filhos.

Mateus era um desses meninos. Nascido em uma família muito unida e católica, desde pequenino aprendera a rezar com fervor. E logo depois da Primeira Comunhão tornara-se um dedicado coroinha, sempre acolitando as Missas com seriedade e compenetração.

Em casa, o menino ouvia não poucas vezes as murmurações dos pais e da avó por verem pessoas de sua cidade afastadas da Igreja por pura indolência, sem que o pároco tivesse meios de impedi-lo. E pensava: “Quando crescer, quero ser missionário. Irei visitar todas essas pessoas e lhes direi que não podem se comportar assim. A Missa é tão linda e vale tanto!”.

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Todos os sábados, os coroinhas tinham
reunião com o padre Romualdo

Com o tempo, aquele desejo crescia em seu coração inocente, levantando-lhe uma grande inquietação: tendo tão somente nove anos, ainda ia demorar muito para ser grande… Por que não começar de uma vez?

Manifestando seu desejo ao padre Romualdo, este teve a ideia de formar com os coroinhas um grupo infantil de missionários. Aos sábados, iriam de casa em casa levando santinhos, medalhas e algum consolo aos mais necessitados. Rezariam junto com todos os membros da família, e aproveitariam a ocasião para convidá-los à Missa dominical.

Mateus não cabia em si de contentamento! Os outros meninos se animaram também, e a cada semana saíam em conjuntos de três ou quatro, cantando e levando alegria aos lares. Aqueles pequenos e valentes evangelizadores logo se tornaram conhecidos e amados por todos na cidade.

Alguns meses se passaram sem que o entusiasmo das crianças diminuísse. Contudo, chegou o inverno, com suas garoas, neblinas e baixas temperaturas. Depois do almoço de sábado, as camas quentinhas e aconchegantes preparadas com carinho pelas mães convidavam a um merecido repouso… O grupo de pequenos missionários foi se reduzindo paulatinamente.

Num sábado especialmente cinzento, apenas Mateus e seu amiguinho Tiago acorreram à paróquia. Chovia e estava frio. O padre Romualdo admirou-se pela sua bravura e o zelo pelas almas, mas recebeu-os normalmente, como em qualquer outro sábado.

Mateus se adiantou e disse:

Padre, se os outros não aparecerem, não há problema. Nós dois podemos perfeitamente formar uma dupla. O senhor tem santinhos e medalhas para levarmos? E Tiago acrescentou:

Isso mesmo! Não temos medo da chuva e do frio.

O sacerdote disfarçou sua emoção e despediu as crianças com uma bênção toda especial.

Os dois saíram contentes, cantando e bem abrigados, sem desanimar diante das portas que não se abriam ou até mesmo das janelas que se fechavam estrondosamente, precedidas por vozes mal-humoradas que se queixavam do tempo…

No fim da tarde, após percorrer muitos lares, restava-lhes ainda um último santinho, justamente de Nossa Senhora do Amparo… Por um momento pensaram em regressar, pois a chuva começou a apertar e o vento gelado penetrava até os ossos.

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“Boa tarde! Estamos aqui para trazer-lhe um sorriso
de Nossa Senhora”

Desistiriam faltando tão pouco?

Mateus disse, então, a Tiago:

Falta só um… Quem sabe Nossa Senhora o guardou para alguém muito necessitado? Vamos tocar à porta daquela casa tão triste…

Entrando no jardim, os meninos bateram palmas e gritaram fortemente, mas ninguém apareceu… Já iam dar meia volta, quando a porta se entreabriu e um homem com os cabelos encanecidos e a fisionomia abatida lhes disse, hesitante:

Boa tarde… – Uma alegria inundou o rosto das crianças:

Boa tarde! Estamos aqui para trazer-lhe um sorriso de Nossa Senhora! Tome, é nosso último santinho!

O pobre homem arregalou os olhos e nada disse. Pegou a estampa oferecida pelos meninos e logo grossas lágrimas rolaram por sua face gasta pelos anos. As crianças procuraram consolá-lo contando alguns belos exemplos de bondade de Maria e disseram-lhe palavras de ânimo. Depois, regressaram para a paróquia com o coração exultante.

No domingo, bem cedo, muito antes da primeira Missa, o padre Romualdo foi surpreendido pela visita de um senhor bem vestido, pedindo- lhe a confissão. O sacerdote atendeu-o com muita bondade e ajudou-o a reconciliar-se com Deus, depois de estar longos anos afastado dos Sacramentos.

Era o morador daquela casa lúgubre. Quando tocaram à sua porta, estava horrivelmente transtornado pelos seus problemas. Achava-se na iminência de cometer uma loucura. Porém, a insistência de quem chamava obrigou-o a interromper seus nefastos pensamentos para ir abrir a porta.

Ao fazê-lo, deparou-se com a fisionomia angelical de duas crianças que, sorrindo, começaram a falar- lhe das misericórdias e do amparo de Nossa Senhora. E sentiu estar ali a solução para suas dificuldades!

Ora, ele sabia que sua atual situação era consequência de certas desonestidades que há alguns anos cometera. E certamente não poderia esperar a indispensável ajuda de Nossa Senhora sem antes reconhecer sua culpa e procurar reconciliar-se com Deus… Uma boa confissão dar-lhe-ia a oportunidade de deixar tudo para trás e começar uma vida nova!

No sábado seguinte, o padre Romualdo narrou ao seu grupo de pequenos evangelizadores o acontecido. As crianças ficaram impressionadas! E firmaram o propósito de nunca mais desistir de fazer apostolado, quaisquer que fossem os obstáculos. Porque quando menos se espera, Deus nos chama a sermos instrumentos de salvação para aqueles que estão ao nosso redor.

(Revista Arautos do Evangelho, Nov/2011, n. 119, p. 46-47)

 
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