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História da Igreja


Aleijadinho: dois séculos de arte e fé
 
AUTOR: IR. CARMELA WERNER FEREIRA, EP
 
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Ao celebrar a memória e a obra de um dos seus mais notáveis artistas, o Brasil evoca também as raízes católicas que marcam a sua história.

O Brasil comemora neste mês de novembro o segundo centenário da morte de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Ele é considerado o principal expoente do barroco mineiro e, para muitos, o maior artista pátrio.

A ocasião é propícia para recordarmos o legado deste gênio do cinzel, fruto da sua dedicação à arte, da fortaleza face ao Aleijadinho - retrato do Museu Ouro Preto.jpginfortúnio e de um talento incomparável posto a serviço da Igreja.

Dentre os aspectos surpreendentes de Aleijadinho, desperta admiração o contraste entre a discreta instrução artística que recebeu e a perfeição das obras realizadas. Toda a sua vida transcorreu em Vila Rica, a capital das Minas Gerais, sem ter conhecido nenhum dos afamados mestres da época nem sequer visitado os grandes monumentos europeus.

Contando apenas com a formação convencional que a cidade podia oferecer, Antônio Francisco Lisboa encontrou na inspiração religiosa o estímulo que deu asas à sua aptidão criadora e o fez atingir um grau de excelência pouco frequente mesmo entre os renomados homens de seu ofício.

No parecer dos críticos de arte a herança por ele deixada não só é digna de figurar entre as conquistas do barroco, mas lhe confere um posto meritório junto aos nomes mais brilhantes da iconografia sacra do Ocidente cristão.

Vila Rica e o ciclo do ouro

Quando os bandeirantes liderados por Antônio Dias de Oliveira conseguiram alcançar após jornadas causticantes o altaneiro pico do Itacolomi, puderam notar nos rios da região a presença de pepitas escuras trazidas pela correnteza. Deslumbrados, comprovaram tratar-se do “ouro preto” do qual tinham ouvido falar, e que os levara a empreender a incursão.

Corriam os últimos anos do século XVII e a centúria seguinte abriu uma nova página na história do Brasil. Com razão os paulistas festejavam a descoberta, pois a alegria inicial foi sucedida pelo assombro: a abundância aurífera do lugar era muito maior do que se pensava, a ponto de em algumas áreas ser possível extrair qualquer planta da terra e encontrar, trazidos pelas raízes, fragmentos do rútilo metal…

As localidades desbravadas por Antônio Dias e outros pioneiros tornaram-se em pouco tempo o centro das atenções do mundo luso. A metrópole portuguesa, ciosa de seu achado, estabeleceu rígidas normas em torno da mineração e acompanhou muito de perto tudo quanto dizia respeito aos eventos na zona das Gerais, logo elevada à categoria de capitania.

Este zelo é justificável se nos detivermos nas cifras: calcula-se que o solo desta pequena faixa de território ofereceu mais da metade de toda a riqueza aurífera extraída das Américas, e que nos setenta anos do ciclo do ouro reuniu-se maior quantidade do minério que ao longo de dois séculos no mundo inteiro.

Os diversos arraiais ali fundados deram origem em 1711 à cidade que recebeu o nome de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Albuquerque, instituída pouco depois como centro administrativo da capitania. A partir de Vila Rica forjou-se da noite para o dia um núcleo urbano possante, empenhado em extrair das profundezas fabulosos tesouros.

Junto com a corrida do ouro prosperou uma população católica, ciosa de seus preceitos, de suas tradições e de seu cerimonial litúrgico, em torno dos quais o Estado também firmou bases. Adeptos fervorosos da Igreja de Jesus Cristo, os habitantes se empenharam em ornar as vilas com templos à altura das riquezas que Deus lhes prodigalizara.

Para surpresa do visitante que hoje se dirige às cidades históricas de Minas Gerais, pululam pelas ruelas igrejas faustosas, edificadas no melhor estilo barroco e rococó.

O despontar de uma vocação artística

Atraído pelas notícias de além-mar, o arquiteto português Manuel Francisco Lisboa decidiu estabelecer-se em Vila Rica no ano de 1724, onde ao cabo de algum tempo já era conhecido como competente mestre de obras.

Igreja São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo.jpg
Igreja de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo – Ouro Preto – MG

Da união com sua escrava Isabel nasceu em 1738 o filho Antônio Francisco, agraciado pelo pai com a condição de homem livre no ato do Batismo.

O menino mestiço, de olhar inteligente, cresceu sob a benéfica influência da arte e da fé. Os registros documentais sobre ele são escassos, e o campo das conjecturas em torno de sua figura, imenso.

Mas isso não nos impede de traçar um perfil seguro com base nas esculturas: Aleijadinho possuía um espírito arrojado, afeito a grandes empreendimentos; era um observador arguto da realidade e profundo conhecedor da alma humana.

Os anos da juventude transcorreram serenos entre a aprendizagem da profissão e a execução das primeiras obras, já reveladoras de seu estro. Acredita-se que os mestres de Aleijadinho foram, além do pai, alguns dos melhores artistas de então, propagadores das técnicas em voga no Rio de Janeiro e em Portugal. Nomes como os dos entalhadores José Coelho de Noronha e Francisco Xavier de Brito, e do abridor de cunhos João Gomes Batista aparecem ligados à instrução de Antônio Francisco, embora a sua capacidade autodidata seja, de longe, o elemento decisivo.

Mesmo assim, “não se pode negar a existência de um meio propício ao desabrochamento de uma indomável vocação artística”.1

Como fruto dessa primeira fase, situada entre 1760 e 1774, podemos contemplar o projeto arquitetônico da Igreja de São Francisco de Assis, feito em concomitância com o de Nossa Senhora do Carmo, cujo risco é da autoria de seu pai. Mas a participação de Aleijadinho nas obras do templo dedicado ao Poverello não se limitou ao desenho: nela empunhou o cinzel para esculpir a fachada, o teto da capela-mor, os púlpitos e o lavabo da sacristia, obtendo como resultado o mais categorizado dos nossos edifícios barrocos.

Ainda nesse período ele inovou ao utilizar pela primeira vez a pedra-sabão como matéria-prima para as esculturas, e foi solicitado para realizar a louvação da Igreja do Carmo, tarefa hoje equivalente a uma vistoria, no que podemos comprovar um reconhecimento de suas aptidões por parte das autoridades.

Em 5 de agosto de 1772 Aleijadinho se alistou na irmandade da Igreja de São José dos Homens Pardos, à qual ofereceu como cortesia o projeto do altar-mor.

Técnica barroca, traços de alma medieval

No campo da arte, como talvez em nenhum outro, a obra constitui o reflexo da alma de quem a realiza.

Germain Bazin, um conservador do Museu do Louvre que se dedicou ao estudo de Antônio Francisco Lisboa, ressaltou este importante matiz:

“Dois homens disputam a alma do Aleijadinho […]. O arquiteto-ornamentista pertence ao mundo do século XVIII; mas, no momento em que ele pega um cinzel para modelar uma estátua, sua visão das formas é a de um homem da Idade Média”.2

Com efeito, sabe-se que Antônio Francisco procurou idealizar as imagens servindo-se de gravuras antigas, algumas delas, é certo, de características ou reminiscências medievais.

Crucifixo talhado por Aleijadinho na Igreja do Carmo.jpg
Crucifico talhado por Aleijadinho, Igreja do Carmo – Ouro Preto, MG

Ao lado desta afirmação de sentido estético, o autor francês captou uma faceta da alma de Aleijadinho, o qual, assim como os artesãos do medievo, concebia o métier como um dever religioso, ciente de que suas peças serviriam para abrir caminho ao sobrenatural. Nesse intuito ele procurou destilar o melhor das cenas, refletiu sobre elas e atribuiu a cada protagonista uma atitude altamente espiritual face às diversas passagens da História da salvação.

O pendor gótico de Aleijadinho pode ser intuído em algumas imagens esparsas, mas aparece com inteira nitidez no adro do Santuário Bom Jesus de Matosinhos. Ali, observou Bazin, “o arrebatamento da inspiração barroca domina os profetas de Congonhas, fazendo sobressair os seus gestos na tela azul do céu impassível de Minas Gerais. Um sopro mais profundo anima-os, porém, um instinto que dá ao estilo oratório do barroco uma força de convicção retirada da fé das velhas idades”.3

Os anos de maturidade e o flagelo da lepra

Devido à crescente fama do escultor e entalhador, as irmandades esparsas pela capitania passaram a solicitar com maior frequência a sua colaboração. Nos anos de maturidade (1774-1790), encontramo-lo trabalhando sem descanso em obras diversas nas igrejas de Mariana, Sabará e São João del Rei, além das de Vila Rica.

Em alguns casos deram-se pitorescas disputas entre a Ordem Terceira Franciscana e a Carmelita pelos serviços do ateliê, pois ambas desejavam ostentar os mais belos templos. Um documento da Igreja do Carmo de Sabará atesta o apreço que tinham por Aleijadinho: “O melhor meio para que estes trabalhos sejam feitos com perfeição, e sem alteração, segundo os desenhos, é assinar contrato com o mestre e os trabalhadores mais capacitados para executá-los na dita forma, e por esta razão o reverendíssimo comissário sub-prior e os irmãos membros do comitê ficaram de comum acordo por unanimidade, que só o mestre Antônio Francisco Lisboa e seus trabalhadores poderiam realizá-la, com toda a satisfação desejada”.4

Nessa fase de prosperidade podemos imaginar o mestiço como a sua mais antiga biografia o apresenta: robusto, alegre e jovial, amigo da boa mesa e dos festejos populares. Gastava as suas economias em generosas esmolas e possuía três escravos, aos quais tratava com bondade.5

Mas a adversidade logo se aproximou dele, para imprimir em sua alma as nobres marcas da dor.

Em 1777 a doença que o levaria à morte deu os primeiros sinais, transformando- o nos anos seguintes num homem sóbrio e retirado. Não sabemos com toda certeza qual terá sido a enfermidade, entretanto, se admite tratar-se da lepra nervosa.

O mal progrediu lentamente, com estigmas irreversíveis: Aleijadinho perdeu os dedos das mãos, os artelhos dos pés, a flacidez e o bom aspecto da face e, mais tarde, a capacidade de locomoção e a vista. Para esculpir ou entalhar, amarrava os instrumentos nos membros mutilados, suportando incômodos não pequenos. Calcula-se que ele viveu nesse estado por trinta e sete anos, tendo recebido dos contemporâneos o apelativo com que até hoje é conhecido.

Congonhas: a cidade dos passos…

Já num estágio avançado da hanseníase, Antônio Francisco Lisboa nos deixou aquela que seria a sua melhor obra: o monumental conjunto escultórico dos passos e profetas. A julgar pelo porte deste trabalho e do esforço que exigiu, podemos crer que o sofrimento aumentou nele o fervor religioso, convidando-o a prestar a Cristo uma suprema homenagem antes de partir deste mundo.

Do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, erigido num monte situado a mil metros de altitude no arraial de Congonhas do Campo, chegou-lhe a encomenda. É interessante conhecer a origem desse local: certo imigrante português chamado Feliciano Mendes foi acometido por uma grave moléstia em decorrência dos trabalhos na mineração, situação que o levou a prometer ao Bom Jesus de Matosinhos que construiria uma igreja em sua honra caso lhe fosse restituída a saúde. Ele se propôs a erigir no Brasil um centro de peregrinação parecido com o Santuário do Bom Jesus do Monte, localizado na cidade de Braga, da qual era oriundo.

Obtida a cura milagrosa, Feliciano pôs-se a campo para cumprir o propósito: doou toda a sua fortuna para a construção e, pela necessidade de angariar novos fundos, comprou um negrinho com quem saía pelas ruas em veste de penitência pedindo esmolas. O empenho deste homem e daqueles que o sucederam à frente do projeto tornou possível financiar a chegada de Aleijadinho em 1795 para a execução das imagens, quando o prédio se encontrava pronto para ser decorado.

Esta obra se situa na terceira fase das atividades do mestre (1790-1812) e durou apenas nove anos, um tempo recorde. Auxiliado por alguns oficiais, Aleijadinho lançou-se com ânimo no feitio dos passos, tradicionalmente concebidos para proporcionar ao peregrino a meditação das mesmas passagens que ele contemplaria in loco, caso viajasse à Terra Santa.

Assim, 62 grandes peças de cedro foram entalhadas e distribuídas em capelinhas ao longo do trajeto, que culmina no adro. As cenas da Santa Ceia, da oração no Horto, da flagelação, da coroação de espinhos e da subida ao Calvário com a Cruz às costas favorecem a oração dos fiéis, até o término do ciclo, com a comovedora cena da Crucifixão.

Estas esculturas apresentam não somente domínio técnico, mas também muita força expressiva, da qual não se exclui a Profeta Abdias..jpgdramaticidade própria ao barroco. As atitudes dos personagens, bastante fiéis aos relatos evangélicos, são realçadas por fisionomias cheias de verve e presença de espírito. Mas é a beleza das imagens de Cristo padecente que conquistam o devoto, pela piedade que inspiram: denotam grande nobreza, suma bondade, e atestam a perfeição moral do Cordeiro imolado, em contraste com os algozes.

…e dos profetas

Contudo, não é às imagens dos passos que Congonhas deve a sua glória, e sim aos mundialmente célebres profetas esculpidos em pedra-sabão. Diante do edifício figuram reunidos doze enviados de Deus, como que saídos das páginas do Antigo Testamento, a proclamar vaticínios ao povo eleito e prepará-lo para a chegada do Redentor. Essas esculturas são fruto de uma inspiração tão magnífica, encarnam com tal esplendor a missão conferida pelo Senhor aos seus escolhidos, que ocupam um lugar ímpar no gênero.

Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, os profetas maiores, contam-se entre os mais belos. Vestidos ao gosto do Quatroccento, com adornos e inclusive traços fisionômicos orientais, eles apresentam-se em idades diversas – apenas Isaías é um ancião, enquanto Daniel, um formoso jovem – e posições opostas, para assim dominarem o panorama, conclamando os pecadores a se converterem aos caminhos da justiça.

Os demais profetas, Baruc, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Naum e Habacuc, seguem o cortejo dos ilustres pares com seus pergaminhos nas mãos, onde podem ser lidos trechos como este que acompanha Baruc: “Eu predigo a vinda de Cristo na carne e os últimos tempos do mundo, e previno os piedosos”. Todos são imponentes, intrépidos no anúncio dos oráculos e encontram-se imersos em cogitações superiores.

Abdias e Habacuc apontam para o céu, enquanto Oseias sustenta a pluma, para legar à posteridade as sagradas admoestações. Jonas, recém-saído do interior do animal marinho, comprime os olhos ao ver pela primeira vez a luz natural.

Concluído o trabalho, Aleijadinho regressou em 1805 a Vila Rica. Restavam-lhe ainda nove anos de vida dedicados a funções de menor responsabilidade, como o acompanhamento dos antigos ajudantes e pequenos entalhes. Durante os últimos dois anos, já cego, ele permaneceu recluso no leito, confiado-se à misericórdia de Jesus crucificado. No dia 14 deProfeta Oséias..jpgnovembro de 1814, alquebrado pela enfermidade e assistido por todos os Sacramentos, entregou sua alma a Deus.

Conhecer pelas obras a grandeza de seu autor

Sobre a personalidade de Antônio Francisco Lisboa pairam muitas incógnitas, que a espessa sombra do tempo nos impede de desvendar. Hoje, graças às pesquisas levadas a cabo sobre ele, podemos ter uma noção de vários acontecimentos de sua existência. Sem embargo, é possível que algumas perguntas nunca venham a ser respondidas.

Apesar disso, há uma maneira simples para termos um “encontro” com o escultor, dois séculos após a sua morte. Cheguemos a Congonhas no final da tarde, quando o Sol estiver deitando seus últimos fulgores nas montanhas alterosas da região. Aos poucos o ruído da vida cotidiana irá diminuindo, e a algazarra das crianças buliçosas começará a se acalmar.

Então o peregrino poderá aproximar-se das imagens, não sem uma ponta de emoção. Ali, junto delas, terá uma perspectiva de grandeza bíblica, que permite compreender a escolha deste como que mirante profético para situar as obras-primas.

Uma misteriosa eloquência faz ecoar no horizonte a pregação dos gigantes da Fé, conclamando à mudança de vida: “Eu choro o desastre da Judeia e a ruína de Jerusalém e rogo ao meu povo que queira voltar ao Senhor”.

Ao nosso lado notaremos a presença silenciosa do interlocutor desses varões, que nos brindou este espetáculo. Sua alma católica embebeu-se do espírito dos embaixadores do Altíssimo e, tomado de maravilhamento, deixou-nos uma lembrança dos flashes recebidos em fecundas horas de contemplação.

Saímos dali com uma suave impressão sugerida pelas esculturas, tão autêntica que não deixa lugar a dúvidas: “Este é Aleijadinho!”.(Revista Arautos do Evangelho, Novembro/2014, n; 155, p. 34 a 39)