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História da Igreja


Procissões de penitência
 
AUTOR: CARLOS WERNER BENJUMEA
 
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Impossível não se sentir maravilhado, vendo essas esplendorosas manifestações da religiosidade popular que atraem multidões de fiéis nas ruas e praças das cidades andaluzas.

Se alguma vez, leitor, você puder ir à Andaluzia, vá na Semana Santa e assistirá então a uma das manifestações mais vistosas e multitudinárias que se possa imaginar. Lá você verá Jesus e Maria, representados em belíssimas imagens estilo barroco, peregrinando pelas ruas centrais de Sevilha, Granada, Málaga… enfim, de toda cidade e povoado andaluz.

Desde o Domingo de Ramos até o da Ressurreição, as cidades serão preciosas telas – cada qual com seus próprios encantos – nas quais confrades, nazarenos, penitentes, carregadores, capatazes e músicos traçarão uma maravilhosa obra de arte nascida da mais sincera piedade popular.

O assistente, maravilhado, pergunta: aonde vai Jesus com sua cruz, no alto de um monumental altar móvel, pisando sobre tapetes de flores, envolto numa atmosfera sagrada de perfume de incenso e de vela queimada? Aonde vai a Mãe Dolorosa, com lágrimas nos olhos e uma espada no coração, entre mil círios acesos e sob um dossel belo como o manto de estrelas do céu? Parece que as imagens andam deveras, que têm vida!

Uma força irresistível arrasta para as ruas andaluzas milhares de pessoas que se aglomeram, se emocionam, rezam, seguem os monumentais andores – denominados “Passos” em algumas cidades e “Tronos” em outras – muitas delas descalças e com vela na mão.

Como nasceram essas procissões?

Como nasceu esse espetáculo sagrado que tem como centro a fé na Redenção do gênero humano, no enorme holocausto e na gloriosa Ressurreição de Cristo?

As procissões da Semana Santa na Andaluzia encontram sua origem nas estações da Via-Sacra que o Sumo Pontífice realiza em Roma na Sexta- Feira Santa.

Seguindo esse augusto exemplo, as confrarias – algumas das quais se constituíram no séc. XIV e são, portanto, mais antigas que a própria nação espanhola – foram formando, em torno do culto de algumas piedosas imagens, grupos de fiéis cuja finalidade eram obras de misericórdia tais como custear o sepultamento dos confrades, conceder dotes para o casamento de moças pobres, sepultar os presos. Além disso, organizar as procissões sagradas, com um matiz penitencial próprio do tempo da Paixão.

Nessas ocasiões, os confrades ou irmãos seguiam atrás de suas veneradas imagens, vestidos de penitentes e com o rosto coberto. Muitos deles se flagelavam, outros carregavam uma cruz, costume que subsiste ainda hoje.

Eram chamados de penitentes ou nazarenos. O nome de “nazareno” nasceu em Sevilha, de onde se espalhou por toda a Espanha. A Irmandade do Silêncio – fundada em 1340 e considerada a mãe e mestra de todas as corporações penitenciais andaluzas – sai às ruas portando a imagem de Jesus Nazareno. Daí o nome de “nazarenos” dado a seus penitentes.

Um desfile imponente, com bandeiras, cornetas e tambores

Hoje ainda, milhares de jovens acompanham suas imagens de Cristo e da Virgem Maria durante longas horas, por vezes descalços, vestidos com trajes de penitente, cobertos por alto capuz e portando um grande círio. A cor dos trajes varia de acordo com a irmandade; predominam o branco, o verde, o vermelho e o roxo. Vão precedidos pelas insígnias das confrarias, algumas das quais arvoram a bandeira do Papa, por terem a categoria de “irmandade pontifícia”.

O cortejo avança, assim, ordenado e solene. Atrás da Cruz de Guia segue o “Senatus”, estandarte com a sigla latina SPQR (Senatus Populusque Romanus – o Senado e o Povo Romano), que os soldados romanos levaram certamente no cortejo infame que conduziu o Divino Redentor até o Calvário. Em seguida, as Bandeiras de Passos e a irmandade ou confraria com seu escudo característico. Cada uma leva também um estandarte mariano, o Sem-pecado, em geral com uma imagem da Imaculada Conceição.

O desfile, porém, perderia em imponência se faltasse o incenso levado por jovens acólitos engalanados com dalmáticas de veludo ou de seda, bordadas em ouro e prata.

Mais atrás vem o Passo ou Trono, ondeando-se numa cadência tão delicada e natural que, ao vê-lo entre a multidão, tem-se a forte impressão de que Jesus caminha sobre as cabeças como outrora sobre as águas…

Sob o magnífico andor estão os “costaleros”, carregadores que, como dizem os andaluzes, “são os pés de Jesus e de Maria”. Carregam um peso considerável, com a alegria de dividir com Cristo Jesus um pouco da carga que Ele suportou por nós na Via-Crucis.

Os “costaleros” são dirigidos por um capataz. Com seu martelinho, ele faz soar o sino, dando um sinal de aviso. Todos se preparam e, a um segundo sinal, levantam o andor e põem-se em movimento.

A banda de cornetas e tamboresfecha esse magnífico conjunto. Sua penetrante música corta os ares com pungentes queixumes de metal, acompanhando o ritmo cadenciado e sério dos bumbos e tambores.

Em algumas cidades, como Málaga, alguns corpos do exército acompanham a procissão, ornando com a gala militar a cerimônia religiosa.

“Até o Rio Guadalquivir pára e reza”

Essa tão patente manifestação da dor, aliada a uma beleza e esplendor deslumbrantes, continua em nossos dias a enlevar as almas das pessoas de fé e caridade.

Há imagens famosíssimas, nas quais a devoção popular crê encontrar a própria expressão do sofrimento de Nosso Senhor e da Mãe Dolorosa.

Por exemplo, o Cristo do Gran Poder, em Sevilha, arranca frêmitos de entusiasmo dos corações mais duros. Dizem os poetas que até o Rio Guadalquivir pára e reza, contemplando em seu límpido reflexo a fisionomia de dor e ternura do Cristo do Gran Poder, quando seu magnífico andor cruza a ponte.

As “saetas” (curtas composições poéticas), cânticos típicos dessas procissões, ressoam nas sacadas enquanto passam os andores. São profundos gemidos de condolência, ou exclamações de admiração, por tanta misericórdia e bondade, por tanta beleza. No final, o povo exclama, aplaude, reza.

Cada irmandade ou confraria faz seu percurso rumo à catedral da cidade. Em Sevilha é um privilégio encontrar- se com os Passos dentro desse edifício gótico, o maior deste gênero na Europa, vendo as irmandades passarem em silêncio absoluto, pois a catedral, símbolo da Casa do Pai, é considerada a “estação” de penitência de maior rigor. Inclusive as bandas de música se abstêm de entrar no recinto sagrado.

Autêntica religiosidade popular

Esta tradição de Semana Santa foi vítima da perseguição anticristã por ocasião da Guerra Civil, e muitas irmandades tiveram suas imagens mutiladas ou incendiadas. Das cinzas, porém, refloresceu com mais força e vigor a tradição: não só renasceram antigas confrarias, mas foram criadas algumas novas.

Pode-se dizer que as confrarias, como eixos articuladores da religiosidade popular, podem se converter na Espanha em peças importantes para o processo de reevangelização que a Igreja empreende em toda a Europa neste terceiro milênio do nascimento de Cristo.

Consciente do autêntico e espontâneo caráter religioso das confrarias, bem como de seu poder de atração, a Hierarquia eclesiástica procura revalorizar seu papel pastoral.

Esperamos que esse trabalho produza cada vez mais frutos e que a piedade autêntica, o arrependimento, a compunção e a verdadeira devoção à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo sejam cada vez mais intensamente a “alma mater” da Semana Santa andaluza.

Deste modo, a esplêndida tradição vivificada pelo verdadeiro espírito cristão durará e prosperará, fazendo enorme bem às almas e proclamando bem alto e sem temor que Jesus e Maria reinam em todos os corações.

Leitor amigo, quando quiser visitar a Andaluzia, vá na Semana Santa: você nunca se esquecerá! (Revista Arautos do Evangelho, Abril/2006, n. 52, p. 20 à 22)

 
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