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História da Igreja


Seguro refúgio dos pecadores
 
AUTOR: DIÁC. THIAGO DE OLIVEIRA GERALDO, EP
 
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Agora não é mais necessário postar-se diante das muralhas para alcançar asilo na cidade, basta um espírito contrito e humilhado para refugiar-se num coração de Mãe!

Diante do Monte Sinai, o grande profeta e legislador de Israel preparava-se para o encontro com o Senhor Deus dos exércitos. Havia três meses que o povo eleito saíra do Egito, adentrando-se no deserto, e agora encontrava-se reunido ao sopé do local escolhido por Deus para revelar o código da Aliança.

Ouvia-se o estrondo de trombetas e relâmpagos. Uma espessa nuvem cobria a montanha sagrada. “Moisés falava, e os trovões divinos respondiam-lhe” (Ex 19, 19) quando Deus o chamou para o cume do monte, proibindo que ninguém mais se aproximasse. “Diante dos trovões, das chamas, da voz da trombeta e do monte que fumegava, o povo tremia e conservava-se à distância” (Ex 20, 18).

Além do Decálogo, muitas outras foram as leis dadas a Moisés naquela circunstância. Entre elas encontramos este decreto: “Aquele que ferir mortalmente um homem, será morto. Porém, se nada premeditou, e Deus o fez cair em suas mãos, Eu lhe fixarei um lugar onde possa refugiar-se” (Ex 21, 12-13).

Na ocasião, Deus não manifestou qual seria o local onde poderia se retirar quem tivesse cometido homicídio involuntário. Tal revelação veio somente anos depois, quando a morte de Moisés foi anunciada pelo Criador e seu espírito transmitido a Josué.

Trata-se das cidades refúgio. Sua origem é narrada no Livro dos Números, num longo e circunstanciado relato. Acompanhemo-lo com especial atenção, a fim de nos deleitarmos com seu belo simbolismo e aplicação aos dias atuais.

Cidades de refúgio contra o vingador de sangue

Ao finalizar sua peregrinação pelo deserto, cada uma das tribos de Israel recebeu uma porção da terra prometida pelo Senhor a Abraão. A divisão foi feita de modo desigual, acompanhando as necessidades de cada uma. A tribo de Levi, porém, não obteve um território determinado: por ser a encarregada do culto divino, seu quinhão era o próprio Deus. 

Isto não impediu que houvesse 48 cidades levíticas espalhadas na área das demais tribos, santificando com sua influência o território do país. Foram seis dessas cidades as que, por ordem do Senhor, foram declaradas “cidades de refúgio”: era nelas que podiam se retirar “os homicidas que tiverem involuntariamente matado” (Nm 35, 11). 

O cume do Monte Sinai visto do Mosteiro
de Santa Catarina (Egito)

Segundo a lei israelita, ainda que uma pessoa tivesse matado outra acidentalmente, o parente mais próximo do morto tinha o direito de se vingar, tirando-lhe a vida. Grande era, portanto, a utilidade das seis cidades de refúgio, conforme Deus revelou a Moisés: “Elas vos servirão de asilo contra o vingador de sangue, de sorte que o homicida não seja morto antes de haver comparecido em juízo diante da assembleia” (Nm 35, 12). 

Para se beneficiar desse desígnio divino, o assassino involuntário deveria correr para alguma dessas cidades e se postar diante da porta de entrada. Os anciãos levitas ouviriam do alto das muralhas o relato do ocorrido e jugariam se deviam ou não dar asilo ao criminoso. Caso chegassem à conclusão de que ele era, de fato, culpado, os mesmos anciãos deveriam entregá-lo ao vingador de sangue, segundo a lei: “Mas, se um homem, tendo ódio do seu próximo, armar-lhe ciladas, levantar-se contra ele e feri-lo mortalmente, indo em seguida refugiar-se numa dessas cidades, os anciãos de sua cidade mandarão tirá-lo do lugar de seu refúgio, e o entregarão nas mãos do vingador do sangue, para ser morto” (Dt 19, 11-12). 

A morte do sumo sacerdote: pré-figura de Cristo 

Se o veredito dos anciãos fosse favorável, o acusado era acolhido na cidade de refúgio onde o vingador de sangue não podia deitar a mão sobre ele. Mais tarde seria conduzido a juízo e, uma vez declarado inocente, “a assembleia livrará o homicida da mão do vingador de sangue e o reconduzirá à cidade de refúgio onde se tinha abrigado” (Nm 35, 25). 

Mesmo após ter sido declarado inocente, ele não podia mais sair daquela cidade. Ela seria seu abrigo e sua defesa segura. Se algum dia o vingador de sangue o encontrasse fora dela, poderia matá-lo sem ser penalizado pela lei.

Entretanto, por quanto tempo deveria ele permanecer na cidade de refúgio? A resposta nos é dada pelo Livro de Josué: até a morte do sumo sacerdote que tinha sido ungido com o santo óleo. “Habitará nessa cidade até que compareça em juízo diante da assembleia, e até que morra o sumo sacerdote que estiver em exercício naquele tempo. Então voltará o homicida para sua casa, na cidade de onde tinha fugido” (Js 20, 6). A partir de então, estaria ele protegido novamente pela lei comum e ninguém poderia feri-lo sem ser punido.

São Patério, notário de São Gregório Magno e compilador de sua obra, encontrou um belo simbolismo de Cristo neste retorno do asilado, após a morte do sumo sacerdote: “O que quer dizer que o homicida, depois da morte do sumo sacerdote, retorna ao perdão, senão que o gênero humano, tendo pecado, conduziu a si mesmo à morte, recebeu o perdão de seu pecado depois da morte do verdadeiro sacerdote, sem dúvida, nosso Redentor?”.

Exemplos de homicídio involuntário

As Sagradas Escrituras dão alguns exemplos do que pode constituir um homicídio involuntário, como atingir alguém com uma pedrada por descuido. 

Talvez o mais elucidativo deles seja o contido no chamado Código Deuteronômico (capítulos 12–26 do Deuteronômio), que apresenta um conjunto de leis atualizadas em relação aos livros anteriores: “Eis a regra a seguir para o homicida que ali se refugiar, procurando salvar sua vida. Se matou o seu próximo por inadvertência, sem ódio prévio, como, por exemplo, se ele tiver ido à floresta com outro cortar lenha e, no momento de brandir o machado para abater a árvore, o ferro se tenha deslocado do cabo e ferido mortalmente o seu companheiro, esse homem se refugiará em uma dessas cidades para salvar sua vida” (Dt 19, 4-5). 

Dependendo do lugar onde o caso ocorresse, bem poderia acontecer que a cidade de refúgio ficasse distante e o vingador de sangue o alcançasse antes de conseguir asilo. Foi por isso que Josué, nesta época um venerável ancião, espalhou as seis cidades de refúgio por toda a Terra Prometida, de acordo com a seguinte ordem: de cada lado do rio Jordão havia três cidades, sendo que duas ficavam mais ao sul, outras duas no centro e as últimas na parte setentrional do país.

Os nomes e a localização dessas cidades estão consignados também no Livro de Josué: “Designaram Cedes na Galileia, na montanha de Neftali, Siquém, na montanha de Efraim, e Cariat-Arbe, que é Hebron, na montanha de Judá. Além do Jordão de Jericó, ao oriente, designaram Bosor, da tribo de Rubem, na planície do deserto; Ramot em Galaad, da tribo de Gad, e Gaulon em Basã, da tribo de Manassés” (20, 7-8). 

O refúgio do Novo Testamento 

Cerca de três milênios depois desta promulgação de Josué, o que resta das cidades de refúgio? Por que Deus incentivou esta instituição apenas no Antigo Testamento? Hoje nem sequer sabemos bem como localizá-las.

Ensina-nos Santo Afonso Maria de Ligório que aquelas antigas cidades foram substituídas por apenas uma: Maria Santíssima. Longe de dificultar o acesso à misericórdia, Nosso Senhor aboliu os limites territoriais. Não é mais necessário correr para alcançar asilo numa determinada região, pois é Nossa Senhora que vem ao encontro de nossas misérias. 

No Novo Testamento, nem sequer é preciso postar-se diante das muralhas para dar explicações aos anciãos da cidade. Para uma mãe – e que Mãe! – basta um coração contrito e humilhado para encontrarmos refúgio. O Imaculado Coração de Maria é nosso asilo seguro. 

No Antigo Testamento, apenas os homicidas involuntários conseguiam ingressar nas cidades de refúgio. Com Nossa Senhora tudo muda! Por mais pecadora que seja uma pessoa, merecedora do justo castigo divino, basta recorrer a Ela com sincero arrependimento de seus pecados, que até o próprio Deus sente-Se como que “barrado” diante das muralhas misericordiosas de sua Mãe: “Fugi, ó Adão, ó Eva, fugi, ó filhos seus que tendes ofendido a Deus, fugi e refugiai-vos no seio desta boa Mãe. Não sabeis que é Ela a única cidade de refúgio e a única esperança dos pecadores?”.

Sinal de predestinação 

Uma comparação ainda pode ser feita: por vezes nós podemos nos tornar assassinos, não de outro ser humano, mas de nossa alma. Morremos por causa do pecado e logo nos persegue o vingador de sangue, o demônio. O pai das trevas não quer senão causar-nos aflição e desespero. Quer acorrentar-nos aos vícios e pecados, e persegue os cristãos de todos os modos. 

Nossa Senhora da Misericórdia, pelo Mestre de Montesión
– Catedral de Palma de Maiorca (Espanha)

Nessas ocasiões de perigo, seja porque o demônio tenta de desespero aquele que já teve a desgraça de cometer um pecado, seja porque ronda como leão buscando ocasião de nos fazer cair, devemos nos lembrar d’Aquela que foi concebida sem mácula original. Nossa Senhora já esmagou a cabeça da serpente infernal e continuará a esmagá-la por todos os séculos. 

Em Maria Santíssima temos a plena certeza de encontrar um seguro refúgio contra o demônio e penhor do perdão de seu Divino Filho: “É impossível que um pecador sincera e confiantemente recorra a Maria, para reaver a Jesus, sem ser atendido. Isto é inaudito, e soa como blasfêmia! A Virgem Maria é realmente o seguro refúgio dos pecadores, e a devoção a Ela é o melhor sinal e plena garantia de salvação e predestinação”.

 
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