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Catecismo


Uma difícil missão…
 
AUTOR: PE. FERNANDO NÉSTOR GIOIA OTERO, EP
 
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Para educar os filhos é preciso ensinar-lhes, com bondade e ternura, a prática da virtude da fortaleza. Sem ela ser-lhes-á impossível enfrentar as inúmeras dificuldades da vida.

Quando o calendário litúrgico inclui a exortação que São Paulo faz aos filhos em sua Carta aos Efésios – “obedecei a vossos pais segundo o Senhor; porque isto é justo” (6, 1) –, costuma-se sentir um singular movimento em muitas famílias presentes na assembleia: pais e mães cutucam discretamente o filho ou a filha, olhares dissimulados percorrem o ambiente, um ou outro sussurro se espalha pelas naves do templo. Do presbitério, o sacerdote celebrante é testemunha privilegiada desta cena.

  Mas, logo a seguir, São Paulo exorta os pais dizendo: “não exaspereis vossos filhos. Pelo contrário, criai-os na educação e doutrina do Senhor” (6, 4). Os papéis se invertem…

  Toda esta movimentação não é para menos, pois as palavras do Apóstolo apontam para uma problemática muito delicada e atual: a difícil missão dos pais na educação dos filhos e a atitude respeitosa que os filhos devem ter em relação a seus pais. A uns cabe obedecer, aos outros, corrigir sem exasperar.

  Como conseguir este equilíbrio? Complexa tarefa nos dias convulsionados de hoje, com a libertinagem que nos rodeia.1

Harmonia entre afeto e firmeza

  Muitos santos educadores nos dão valiosas orientações para procedermos com sabedoria em circunstâncias que tanto cuidado exigem. São João Bosco, por exemplo, destaca que sem afeto não há confiança, e sem confiança não se consegue educar. Por isso, empenha- -se em conquistar o coração das crianças, e por meio dele as sendas da alma,2 usando um método de educação que bem poderia ser compendiado nesta frase: “fazer- -se amar, para melhor fazer amar a Deus”.3

  Já São Marcelino Champagnat, fundador dos irmãos maristas, afirma que é preciso advertir com simplicidade, castigar sem aterrorizar, para ir modelando a vontade das crianças. Deve-se formá-las na obediência, nunca mandando o que não seja justo e razoável, proibindo muitas coisas de uma vez ou ordenando coisas difíceis de realizar. Porém, tendo sido dada uma ordem, deve-se exigir o seu cumprimento.4

  Cabe ressaltar que, por tais motivos, não há instituição mais adequada para a formação humana e religiosa dos filhos do que a própria família. A dedicação e o afeto dos pais tornam suave a disciplina e a educação; o carinho, a confiança e admiração dos filhos permitem educá-los com seriedade.

Falso conceito de liberdade

  Muitos ambientes que nos rodeiam parecem guiar-se pelo lema: tudo deve ser permitido. Brada-se por todas as partes exigindo uma “liberdade” muito diferente da ensinada pela Igreja, que tem por fim o bem moral e preceitua seguir os ditames da razão iluminada e amparada pela fé.

  Ora, dar rédeas soltas aos sentidos, à imaginação e à vontade, fazendo apenas aquilo que apetece no momento, equivale a claudicar no autodomínio que todo homem deve possuir como parte do seu livre-arbítrio. Tal atitude despersonaliza o homem mais do que qualquer tirania exterior.5

  Ainda que ecoe forte aos nossos ouvidos, pode-se afirmar que a palavra não é essencial para a formação dos meninos e meninas. Esta é a realidade.

“Decálogo da má educação”

  O diretor de um dos colégios dos Arautos do Evangelho me passou um inusitado Decálogo da má educação, difundido há algum tempo pela revista católica Magnificat, de Braga, Portugal. Esta o publicava como de autoria da Direção Geral de Polícia de Seattle, Estados Unidos, que, alarmada pelo nível de delinquência e mau comportamento dos jovens, decidiu ironicamente recomendar:

  1º – Dê a seu filho, desde a infância, tudo o que ele quiser. Assim ele crescerá convencido de que o mundo inteiro lhe deve tudo.

  2º – Ria-se se ele disser palavras vulgares e de baixo calão. Assim ele acreditará que é muito engraçado.

  3º – Não lhe dê nenhuma formação religiosa. Deixe que ele escolha quando for grande.

  4º – Não lhe diga: isto que você fez está mal. Pois ele poderia adquirir complexos de culpabilidade e, mais tarde, se for detido por roubar um carro, estará convencido de que é a sociedade que o persegue.

  5º – Apanhe tudo o que ele jogar no chão. Assim ele acreditará que todos estão a seu serviço.

  6º – Deixe-o ler e ver de tudo. Limpe o prato em que ele come com detergente, que desinfeta, mas deixe que seu espírito se recreie com qualquer “porcaria”.

  7º – Discutam os pais sempre diante dele. Assim irá se acostumando e não se dará conta quando a família já estiver destroçada.

  8º – Dê-lhe todo o dinheiro que quiser, de modo que ele nem sequer conclua que para ter dinheiro é preciso trabalhar.

  9º – Satisfaça todos os seus desejos: comer, beber, dançar, passear, divertir-se. Caso contrário, tornar- -se-á um frustrado.

  10º – Dê-lhe sempre razão quando ele se desentender com os outros, pois são os professores, as pessoas, a polícia, as leis, as autoridades, etc. que não compreendem o pobre jovem.

  E este curioso Decálogo termina dizendo: quando chegar à conclusão de que seu filho é um desastre, proclame aos quatro ventos que nunca pôde fazer nada por ele.

Lar cristão: berço da verdadeira educação

  A formação católica se rege por princípios inteiramente opostos. Ela põe em realce que uma criança tende a fazer o que ouve e vê, e suas primeiras atitudes serão as de imitar o exemplo dos pais. Quando um filho não recebe deles a devida atenção percebe- se com clareza e sente-se que lhe falta algo…

  O Estado também tem seu papel na educação das crianças, contudo não pode substituir a família, à qual cabe, por natureza, esta sagrada missão. Quando ela não a realiza, os prejuízos, em muitos casos irreparáveis, são os que testemunhamos nos dias em que vivemos.

  Toda criança boa corre perigo de perder-se e, ao mesmo tempo, toda criança má pode corrigir-se de suas atitudes. E isso não depende tanto dos meninos ou meninas, muitas vezes vítimas de sua própria debilidade, mas da falta de zelo de seus pais ou do uso de métodos inadequados, seguindo a “moda” de sistemas pedagógicos ou psicológicos ditos modernos, como nos adverte o Decálogo citado.

  Reafirmemos o princípio de que o fim da família é a procriação e a formação dos filhos. Não façamos de nossos lares lugares com aparência cristã e com uma educação que poderíamos qualificar de pagã. É preciso sempre, com bondade e ternura, ensinar aos filhos, desde pequenos, que a vida é dura, que é preciso amar a fortaleza como virtude cristã e a enfrentar as coisas difíceis.

  Não podemos deixar de falar de Cristo Jesus, Nosso Senhor, e de seus ensinamentos; de Maria Santíssima, como nossa Mãe, advogada e protetora; da Santa Igreja como mestra da verdade, que nos leva ao Céu, pois a Igreja é a educadora por excelência. (Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/2016, n. 182, p. 20-21)

 
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