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Comentários ao Evangelho


O Batismo que conquistou nosso Batismo
 
AUTOR: MONS. JOÃO SCOGNAMIGLIO CLÁ DIAS, EP
 
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Um milagre invisível ocorre em cada celebração batismal: em suas águas é submerso um ser humano e delas emerge um filho de Deus.

I – Estímulo à prática da virtude da fé

A comemoração do Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo encerra com chave de ouro o Tempo do Natal. Grande festa para os católicos, porque é neste Batismo, como veremos, que está incluído o nosso e, portanto, o início da participação de cada um na vida sobrenatural, na vida de Deus. Adão fechou a seus descendentes as portas do Paraíso Celeste, mas Nosso Senhor Jesus Cristo, com a Encarnação, abriu-as outra vez, tornando possível aos homens, graças a seu divino auxílio e proteção, gozar do convívio com Ele, com o Pai e o Espírito Santo, com os Anjos e os Bem-aventurados por toda a eternidade. Tendo comentado em outras ocasiões os aspectos teológicos do Batismo do Senhor, analisemos agora este admirável mistério por uma perspectiva diversa, útil para nosso progresso espiritual.

Um ponto de interrogação

Terminado o Tempo do Natal, pode ser que fique um ponto de interrogação no espírito de muitos. Consideramos a 25 de dezembro o nascimento de Jesus Menino, uma frágil criança que é Deus, numa gruta, ao lado de um boi e de um burro, numa cidadezinha minúscula chamada Belém. Ele, para nascer, escolheu a cidade mais insignificante, como observa São Bernardo, enquanto para morrer preferiu a mais importante, Jerusalém. Nasce na obscuridade, pouco depois é obrigado a fugir para o Egito, regressa e passa trinta anos como auxiliar de seu pai, um artesão, a ponto de mais tarde dizerem: “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13, 55). Sem estudos, não se conhecem fatos brilhantes de sua juventude. Começa a vida pública e não habita em nenhum palácio; desloca-Se continuamente, de tal modo que afirma: “As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9, 58).

Local do batismo de Jesus Bethabara (Jordânia)

Ora, se Lhe cabia uma missão tão importante quanto a de operar a Redenção para reparar o pecado cometido pelo homem e de convidar a humanidade para uma união extraordinária com Deus, não podia vir com mais pompa e majestade? Não podia rodear-Se de príncipes e reis, viver em luxuosos palácios e cercado de glória? Por que tanta humilhação? A esse propósito, São João de Ávila se pergunta: “Se é rei, onde estão os palácios reais? Onde estão os cavaleiros? Onde está a seda e os tecidos de brocado? Que rei é visto em estalagens e estábulos, rodeado de animais? […] Como anda perdido quem procura Cristo sem a estrela da fé!”.

Explica-nos a doutrina católica que se Ele viesse ao mundo revestido de esplendor e de glória, já ao nascer ficaria patente sua divindade e, dessa forma, nossa fé perderia o mérito, porque não se trataria de crer, mas sim de constatar uma realidade perante a imposição de fatos impossíveis de objetar. A adesão a Jesus Cristo não proviria da fé, mas da mera inteligência. Que mérito há, por exemplo, em acreditar na existência do Sol se o vemos todos os dias e experimentamos fisicamente seus efeitos? 

Este princípio aplica-se também ao Batismo de Jesus. Por que não se realizou de maneira mais solene e não foi anunciado a todo Israel? Pelo contrário, passou quase despercebido, e na História só os Evangelistas o registram. Nosso pendor, contudo, seria o de querer uma cerimônia magnífica para o Batismo, um nascimento glorioso, uma vida se desenvolvendo, espetacular e brilhante. Analisemos o relato de São Mateus  para melhor compreendermos a razão do modo de proceder divino.

O Jordão: rio altamente simbólico

Naquele tempo, Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a fim de Se encontrar com João e ser batizado por ele. 

Qual teria sido a intenção de Nosso Senhor Jesus Cristo ao escolher o rio Jordão para seu Batismo? Não haveria outro melhor do que este? O Jordão, que se nos afigura como um rio mítico, é na verdade pequeno em comparação com os caudalosos cursos fluviais da América. Entretanto, mais uma vez, apesar da aparência de normalidade, algo de grandioso acontece no plano da fé. Tratava-se de um rio emblemático na história de Israel, revestido de um enorme simbolismo teológico e criado por Deus com vistas ao Batismo de Nosso Senhor. Quando os judeus saíram da escravidão do Egito e entraram na Terra Prometida, onde viveriam em liberdade, Josué abriu as águas do Jordão para que o povo eleito o atravessasse (cf. Js 3, 15-17). O Jordão representava a linha divisória entre a terra do tormento, da penitência, da dor, e a terra onde corria leite e mel. Assim, o Batismo de Nosso Senhor abre ao povo eleito do Novo Testamento, os chamados a pertencer à Igreja, a possibilidade de deixarem para trás a escravidão do pecado e de serem introduzidos no Reino de Deus, onde corre o leite e o mel das consolações, das alegrias espirituais. 

“Ecce Agnus Dei”, por Giovanni di Paolo Art Institute of Chicago (EUA)

Um choque vocacional

Mas João protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por Ti, e Tu vens a mim?” 

São João preparava os caminhos do Senhor na mais completa submissão a Ele. Certamente tinha o discernimento dos espíritos e estava tomado pelo Espírito Santo, que lhe revelara quem era Jesus (cf. Jo 1, 33). Por isso, quando ele O vê aproximar-Se a fim de receber o batismo de penitência de suas mãos, em seguida reconhece n’Ele o Messias. Era para sua chegada que o Precursor preparava as pessoas com o batismo, pelo que, sem hesitação alguma, O aponta aos outros: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). Aquele era o Redentor, Aquele era Deus, pois existia antes dele (cf. Jo 1, 15), embora fosse seis meses mais velho. 

Nessas circunstâncias, criava-se nele um choque psicológico, psicoteológico e, inclusive, vocacional: como haveria ele de batizar quem não precisava de Batismo? Perfeita atitude daquele que possuía uma fé em grau heroico, conforme o testemunho de sua ímpar santidade dado por Nosso Senhor: “entre os nascidos de mulher não há maior que João” (Lc 7, 28). Ele foi o maior homem que a História conhecera até aquele momento, excluído, é claro, o próprio Jesus Cristo, o Homem-Deus. Por este motivo, manifesta sua fé declarando ser ele quem devia ser batizado pelo Messias, e se sente constrangido diante da possibilidade de batizá-Lo.

São os paradoxos com que se depara, não raras vezes, quem é chamado a uma grande missão e se sente inferior a ela. São João preferia não batizar seu Deus, nessa hora, e ser batizado por Ele. Não podia compreender um ato de subordinação d’Aquele cujos caminhos vinha aplainando, mas Jesus o tranquiliza. 

Ele veio cumprir a justiça

Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!” 

Se bem que Nosso Senhor não negasse que São João deveria ser batizado por Ele, ainda que não houvesse pecado, deu a razão suprema pela qual desejou o Batismo. A justiça a que Ele se referia na resposta ao Precursor consistia no seguinte: era preciso cumprir a Lei e as profecias. A divina Justiça exigia uma reparação por nossos pecados. Por isso, tendo Se encarnado, quis Ele, a Inocência, como primogênito do gênero humano, assumir sobre Si os crimes e misérias de toda a humanidade e entrar no Jordão a fim de submergi-los nas águas. Assim, tirava esse pesado fardo de nossas costas e destruía a “maldição que se fundava na transgressão da Lei”.

A submissão completa do Precursor

E João concordou.

Expressa a suprema vontade do Divino Mestre, João concorda e, fiel à ordem recebida, obedece, ignorando todas as aparências. Não se preocupa com a desproporção entre a estreiteza e simplicidade do rio Jordão e a grandeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, que mereceria ser acolhido com mais dignidade, transportado quiçá numa sede gestatória. Ele só considera o que a fé lhe mostra: que ali está o Messias prometido, o Salvador de Israel, o Redentor do gênero humano, que ali está o Filho de Deus feito Homem (cf. Jo 1, 34).

beija-flor-de-pescoço-magenta (Calliphlox bryantae) fotografado na floresta de Monteverde (Costa Rica)

As portas do Céu foram abertas

Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o Céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre Ele. 

Ao mesmo tempo que a vida de Nosso Senhor transcorre no apagamento, há situações de marcante esplendor, formando um belíssimo contraste. Porque se, de um lado, Ele nasce
numa pobre gruta, por outro, do Oriente vêm os Reis Magos para visitá-Lo, trazendo ricos presentes. Algo parecido ocorre no episódio contemplado hoje. Jesus, após um curto diálogo com o Precursor, entra no Jordão, é batizado como os outros e sai das águas. É então que se dá um acontecimento grandioso: o Céu se abriu, significando que o acesso à bem-aventurança, antes fechado à humanidade decaída em virtude do pecado de Adão, fora aberto pelo poder e pela Redenção de Cristo. Ademais, era apropriado, como afirma São Tomás, que o Céu se tivesse aberto quando o Filho de Deus recebeu o Batismo, para indicar “que o caminho do Céu está aberto para os batizados”.

Também era conveniente que se visse o Espírito Santo, porque sendo a Redenção obra da Santíssima Trindade, devia tornar-se patente, em certo momento, que as três Pessoas Divinas estavam unidas para conceder o perdão dos pecados e franquear o Céu aos homens. E apareceu sob a forma de pomba porque era preciso um elemento concreto que exprimisse inequivocamente a descida do Espírito Santo sobre Nosso Senhor e sobre todos os batizados. Estava o Filho, manifestou-Se o Espírito Santo e se ouviu a voz do Pai. 

 O primeiro entre muitos filhos

E do Céu veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual Eu pus o meu agrado”. 

A conclusão da cena nos abre os olhos para um dos ensinamentos mais importantes desta Liturgia. Ao constituir o universo, Deus teve como modelo Nosso Senhor Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade Encarnada, em quem está representado, numa síntese perfeitíssima, o conjunto das criaturas. Ele é, no dizer de São Paulo, “o primogênito de toda a criação. N’Ele foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, Dominações, Principados, Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele” (Col 1, 15-16). Ele é, pois, a causa efetiva e exemplar de tudo quanto foi feito. 

Desde toda a eternidade, Deus concebeu a criação – os minerais, os astros, a vegetação, os animais, segundo as suas espécies, os homens, na sua variedade de inteligência e temperamento, os Anjos, na sua incalculável diversidade – com o projeto, por assim dizer, de engendrar filhos para Si. No entanto, que meio encontrou Ele para fazer com que simples criaturas contingentes transpusessem o abismo que separa a natureza divina das demais naturezas, o infinito do finito, e participassem de sua natureza, adquirindo a filiação divina? Isso se fez possível com a maravilha sobrenatural da graça – sexto plano da criação –, pela qual as criaturas racionais participam da própria vida de Deus e se tornam seus filhos. Uma só “gota” de graça vale mais do que todo o universo, já que – explica São Tomás – pertence ela à ordem divina, infinitamente superior a qualquer natureza criada. Ora, o supremo arquétipo desta filiação divina autêntica é Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho por excelência, inimaginável, insuperável, conforme o Pai revela na teofania posterior ao Batismo: “Este é o meu Filho amado, no qual Eu pus o meu agrado”.

Tanto amou Deus esta filiação realizada por Jesus com a maior perfeição, que colocou bem junto a Ele sua Mãe Virginal, com quem o Espírito Santo gera sobrenaturalmente uma multidão inumerável de filhos, que Deus “predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos” (Rm 8, 29). São as águas do Batismo que nos elevam da condição de simples criatura, amaldiçoada pelo pecado, para fazer parte da família divina.

Pedras da Praia de Broulee (Austrália)

O Batismo de Jesus, que a Igreja comemora neste dia, abre as portas para a instituição do Batismo sacramental, pelo qual se reproduzem os filhos adotivos de Deus através do Filho Unigênito “muito amado”, conforme comenta São Tomás: “Para que algo seja aquecido, deve sê-lo pelo fogo, pois só se obtém a participação em algo através daquilo que tem a mesma natureza; assim também a adoção filial deve ser feita por meio do Filho, que o é por natureza”.

II – Somos verdadeiros filhos de Deus!

Toda a pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Igreja tem como núcleo o convite para sermos filhos de Deus pelo Batismo. Este é um dos maiores milagres que é possível fazer. Se alguém transformasse um pedregulho em colibri, faria um milagre muito menor do que o operado no Batismo. Entre a pedra e o colibri há certa proporção, pois ambos pertencem à natureza material. Mas, tornar uma criatura humana partícipe da natureza divina é um salto infinito, que Nosso Senhor nos concede com o Batismo.

Filhos, realmente filhos?

Poder-se-ia objetar que Filho, de fato, é só Jesus Cristo, o Unigênito de Deus, e que nós somos apenas filhos por adoção, filiação cujo alcance não passaria de uma mera formalidade jurídica, um título honorífico desprovido de valor intrínseco. Não obstante, a Escritura afirma com clareza que essa filiação adotiva é muito mais substanciosa do que a adoção concebida em termos humanos. 

Um dos maiores empenhos de Nosso Senhor durante sua permanência entre os homens foi o de vincar em nosso interior a convicção de que somos autênticos filhos de Deus. Por isso, ao encontrar-se com Jesus, Nicodemos ouve de seus divinos lábios: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3). Nascer de novo significa ter Deus como Pai, verdadeiramente… É um outro nascimento! Quando nos ensina a oração perfeita, diz o Mestre: “Pai Nosso” (Mt 6, 9); e, depois da Ressurreição, prepara seus discípulos para a Ascensão, anunciando: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17). Demonstra com estas palavras que somos irmãos d’Ele, filhos do mesmo Pai. Esta fundamental doutrina é ainda frisada por São João, no prólogo de seu Evangelho: “a todos aqueles que O receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (1, 12); e na sua Primeira Epístola: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato” (3, 1). O Apóstolo não é menos incisivo ao insistir com os gálatas: “já não és escravo, mas filho. E se és filho, então também herdeiro por Deus” (Gal 4, 7); ou, com os romanos: “somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo” (Rm 8, 16-17).

Fonte batismal da Paróquia Santa Cecília, São Paulo

Refutando os erros de certos teólogos heterodoxos que defendiam ser o Batismo apenas uma capa, uma cobertura posta por cima da nossa corrupção, o Concílio de Trento definiu que os batizados “se tornaram inocentes, imaculados, puros, sem mancha, filhos diletos de Deus”; e explica que, pela justificação, o pecador passa “do estado no qual o homem nasce filho do primeiro Adão, ao estado de graça e ‘de adoção dos filhos de Deus’ (Rm 8, 15)”.

A alma é divinizada

Sim, filiação real, porque por meio deste Sacramento Deus enxerta em nós sua própria vida. Não, portanto, à maneira de um reboco extrínseco a uma parede e que de si não a modifica interiormente, mas como se alguém, por milagre, injetasse ouro nessa mesma parede, a ponto de quase não mais se ver areia ou reboco, mas tão só o precioso metal. Esta figura é ainda inadequada e pobre para exprimir o que se opera na alma quando lhe é infundida uma qualidade sobrenatural que a torna deiforme, ou seja, semelhante a Deus em sua própria divindade. E com a graça santificante a alma recebe, por ação divina, as virtudes – fé, esperança, caridade, prudência, justiça, fortaleza, temperança – e os dons do Espírito Santo – sabedoria, entendimento, ciência, conselho, piedade, fortaleza, temor –, pelos quais passa a agir como Deus.

Neste mundo, quantas vezes as pessoas anseiam por conseguir uma vaga num colégio, num emprego, num clube, ou em outros lugares que as possam prestigiar. Ora, no Céu temos reservada uma vaga eterna, um trono extraordinário, uma coroa de glória, a partir do momento em que as águas batismais nos caem sobre a cabeça, constituindo-nos herdeiros de Deus e garantindo-nos o convívio com Ele na felicidade sem fim. 

E o grande problema de nossos dias é ter sido esquecida esta verdade. Vivemos numa civilização – se assim a podemos chamar – feita de pecado, especialmente a impureza, a revolta contra Deus e o igualitarismo. Nela, a humanidade ignora o que há de principal na existência: o chamado para essa filiação divina. Quanto precisaríamos crescer na devoção ao nosso Batismo pessoal, ao Batismo dos outros com quem nos relacionamos! Que veneração deveríamos conservar pela pia batismal onde fomos batizados! Como teríamos de celebrar com fervor o dia do nosso Batismo, considerando-o muito mais importante do que o próprio dia do nascimento, porque nele nascemos para a vida sobrenatural, nascemos para o Céu! Eis a maravilha que nos lembra a festa do Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 
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