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Plinio Corrêa de Oliveira


Sublime lição de conformidade com a dor
 
AUTOR: PLINIO CORREA DE OLIVEIRA
 
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As inenarráveis dores de Jesus na Paixão nos ensinam a carregar nossa própria cruz. Elas nos convidam a ver o sofrimento como caminho necessário para chegar ao Céu e mais elevada forma de dar glória a Deus.

É uma velha tradição não interrompida entre nós fazermos nestes dias da Semana Santa uma palestra sobre algum trecho do Evangelho referente à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, sendo hoje Quinta-Feira Santa, pareceu-me conveniente ler e comentar alguns trechos da Concordância dos Santos Evangelhos composta por Dom Duarte Leopoldo e Silva,1 a fim de nos prepararmos para a grande comemoração que amanhã se dará: a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo no alto da Cruz e a Redenção do gênero humano.

Começaremos a leitura no momento em que acaba a Santa Ceia e Nosso Senhor e os Apóstolos saem para o Horto das Oliveiras.

Perspectiva de trágicos acontecimentos

Escreve Dom Duarte: “Depois dessas palavras, tendo recitado o hino de ação de graças, saiu Jesus com os discípulos para além da torrente do Cedron. Dirigindo-Se para o Monte das Oliveiras segundo costumava, chegara a um lugar chamado Getsêmani, onde havia um jardim em que entrou com seus discípulos.

“Chegando a esse lugar, disse-lhes Jesus: ‘Sentai-vos aqui, enquanto vou ali fazer oração. Orai também para que não entreis em tentação’”.

Vemos aqui uma delimitação clara entre a festa de instituição da Eucaristia, da primeira Missa, e a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Santa Ceia tem um caráter festivo, sobre o qual já se projetam as sombras e as tristezas dos acontecimentos trágicos que virão depois. Concluída a ação de graças, a festa cessou, e Ele começa então a enfrentar a dor, o drama, a grande luta. Sua vida já fora de lutas, mas nesse momento elas atingem o auge, o apogeu.

Para bem saborear os acontecimentos que o Evangelho narra, nessa linguagem tão simples, devemos imaginar o estado de alma de Nosso Senhor Jesus Cristo, as disposições do seu Sagrado Coração ao longo desses fatos.

Nosso Senhor Jesus
Cristo flagelado
Basílica de Nossa
Senhora do Rosário,
Caieiras (SP)

Sombras que baixam, clarões que se acendem

A Santa Ceia para Ele foi triste por dois motivos: em primeiro lugar porque o Redentor via a Paixão que se iniciaria logo depois, pois, evidentemente, Ele tinha o conhecimento de tudo.

E também por causa da situação tristíssima dos Apóstolos. Na narração da Santa Ceia aparecem manifestações da insuficiência e da mediocridade deles. E o que deveria cortar o Sagrado Coração de Jesus, transpassá-Lo mais do que a lança de Longinos, era a infidelidade dos Apóstolos, o insucesso da obra que Nosso Senhor havia começado com eles.

O Redentor, dando-lhes a maior manifestação de seu amor até aquele momento, instituindo a Sagrada a Eucaristia e oferecendo-Se a Si próprio em comunhão a eles, vê aquelas almas receberem esse dom incomparável com frieza: São Pedro, grandiloquente; Judas, nas condições abomináveis que não vale a pena referir; os outros Apóstolos, preparando-se para a fuga.

Há aquele episódio tão bonito de São João Evangelista, Discípulo Amado, que reclina a cabeça sobre o peito de Jesus e pergunta-Lhe quem seria o traidor; e Nosso Senhor, então, diz quem era. Ora, esse discípulo “a quem Jesus amava”, ia fugir como os outros.

Quer dizer, as sombras vão baixando ao mesmo tempo que os clarões da Missa se vão acendendo. E Nosso Senhor Jesus Cristo, que conhecia todos os tempos e tudo quanto haveria de acontecer, se deleitava com a ideia da glória que a Sagrada Eucaristia e a Missa dariam ao Padre Eterno, com as adorações que Ele receberia dos Santos e das almas eleitas, até o fim do mundo.

Uma luta travada na solidão

Todos esses sentimentos penetraram no Coração d’Ele e constituíram um claro-obscuro de tristeza e alegria. Em certo momento o clarão se retira e Nosso Senhor vai entrando cada vez mais nas sombras de sua dor e de sua morte. Cada passo é mais trágico que o outro.

Ele caminha, mas caminha com segurança, sem um minuto de distensão, de alívio – a não ser quando recebe o Anjo que O consolou, e na hora em que vê Nossa Senhora e é confortado pela presença d’Ela ao longo da Via-Sacra –, chegando a exclamar no alto do Calvário, no auge da dor: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mt 27, 46).

E até o consummatum est, ou seja, até dizer “tudo quanto era para sofrer está sofrido”, as sombras vão se tornando mais densas para Ele.

Então, podemos imaginá-Lo triste após a Ceia, andando pelas ruas de Jerusalém com os Apóstolos, rumo ao Getsêmani, onde começa sua agonia – agonia, em grego, quer dizer luta; os atletas eram chamados agonistas, porque lutavam na arena –, ou seja, a grande luta que Ele vai travar sozinho. E a solidão é uma das tragédias d’Ele durante a Paixão, até o momento em que Maria Santíssima aparece.

Nosso Senhor Se isola, porque sente que ninguém é digno de estar perto d’Ele nesta hora, e diz aos Apóstolos sonolentos e indiferentes: “Sentai-vos aqui, enquanto vou ali fazer oração. Orai também para que não entreis em tentação”.

Quando Ele Se afasta, em vez de algum Apóstolo perguntar-Lhe “Senhor, por que Vos isolais?” ou “Senhor, não precisais de mim?”, eles começam a vacilar, e a tragédia de alma de Jesus já se faz sentir.

Acabrunhado por uma tristeza mortal

Continua Dom Duarte: “Depois, tomando consigo a Pedro e os dois filhos de Zebedeu, Tiago e João, começou a sentir pavor e angústia, e caiu em tristeza e abatimento. ‘Minha Alma está triste até a morte’, lhes disse Ele. ‘Ficai aqui e velai comigo’”.

Nosso Senhor quis manter esses Apóstolos junto a Si, enquanto deixava os outros para trás, e numa maior intimidade lhes explicou: “Minha Alma está triste até a morte”. Em seguida pediu-lhes: “Velai”, ou seja, “Ficai acordados comigo. Eu quero ter o reconforto de vossa presença e de vossa compaixão, enquanto estiver passando por esta dor tão grande”.

E a concordância acrescenta: “Adiantando-Se um pouco, afastou-Se deles à distância de um tiro de pedra, prostrou-Se com a face no chão e começou a orar para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele aquela hora”.

A Última Ceia, por Fra Angélico –
Museu de São Marcos, Florença (Itália)

Pensemos no Santo Sudário de Turim: aquele olhar, aquela majestade de Nosso Senhor. O que significaria, para quem tivesse um pouco de alma, ver aquela fronte na qual estava resumida toda a glória do universo, aquele olhar que sintetizava, em grau excelso, de superação inimaginável, a santidade possível em todas as almas de todos os tempos, a inteligência, a força, a bondade, enfim, todas as qualidades; contemplar aquela face, o mais perfeito espelho de Deus, que jamais havia sido criado!

Podemos imaginar Nosso Senhor – que era um varão alto –, com uma túnica branca, numa noite que talvez tivesse a claridade da lua, com as sombras do arvoredo produzindo um claro-obscuro. Como seria pungente ver esse varão majestoso inteiramente só… De repente, uma grande forma branca que se inclina e põe sua face em terra! Então, o Rei de toda glória rezava prostrado, acabrunhado por uma tristeza que O tomava até a morte.

“Faça-se a vossa vontade e não a minha”

E Ele dizia na sua oração, que os Apóstolos ouviram para depois poder contar e assim deixar consignado para todo o sempre, estas palavras memoriais: “Meu Pai, se é possível, afaste-se de Mim este cálice. Todavia, faça-se a vossa vontade e não a minha”.

É a oração mais doce e, ao mesmo tempo, mais forte que talvez se tenha feito em toda a terra.

Mais doce porque, vendo que o Padre Eterno quer o tormento, o martírio d’Ele, e que vai tomá-Lo como vítima, Jesus Se apresenta cheio de amor e O trata de “Meu Pai”, as palavras mais suaves com que uma pessoa possa se dirigir a outra.

“Meu Pai”, diz Ele como quem geme! Sabe que vai sofrer aquele tormento, necessário segundo os desígnios de Deus, para sua glória. E Jesus, na sua humildade santíssima, como que abandonado, seccionado de sua divindade, fica naquelas trevas. Sua natureza humana pede: “Se for possível evitar esse tormento, afastai-o”. Como quem diz: “É tão grande o peso da dor, que sou levado a Vos perguntar: por misericórdia, não existe um modo de afastá-lo?”

Mas logo depois Nosso Senhor acrescenta: “Se não for possível, faça-se a vossa vontade e não a minha”. Vemos, então, além do afeto, a força: “Não sendo possível, embora não aguente, não tenha recursos, Eu começarei; porque nada existe que Eu não esteja disposto a empreender para fazer a vossa vontade. Sou o Varão forte por excelência, esmagado, quebrado, aniquilado. Estou, entretanto, disposto a lutar até o fim. Mandai-Me a vossa força, que farei a vossa vontade”.

É, portanto, uma submissão completa, uma obediência total, um ato amoroso sem nenhuma revolta, nem a sensação de que Deus não vai ser misericordioso para com Ele; vê a misericórdia até no momento em que ela pareceria impossível.

Há aqui um mistério. Deus Pai não poderia ter aceitado uma gota de Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e assim redimir os homens?

Realmente, uma gota do Sangue de Cristo tem valor infinito. E os teólogos dizem que simplesmente o Sangue que Ele derramou na circuncisão seria não só suficiente, mas superabundante, para resgatar o gênero humano. Porém, havia um desígnio de Deus, para nós misterioso, segundo o qual era preciso aquela enormidade de tormentos.

O colóquio do Homem-Deus com o Padre Eterno, tão trágico, mas ao mesmo tempo tão íntimo, nos desvenda algo das relações entre os dois. Vê-se que, por algum motivo, o Pai e Ele mesmo, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não quiseram tornar isso possível. Foi nos dado assim conhecer um pouco desse convívio, e esse pouco é de uma sublimidade extraordinária.

Nosso Senhor Jesus Cristo
no Horto das Oliveiras –
Igreja do Sagrado Coração
de Jesus, Nova Orleans
(Estados Unidos)

Cada homem deve carregar sua cruz

Jesus quis que os homens vissem todo o sofrimento d’Ele, para que cada um de nós tivesse a coragem de carregar o seu próprio sofrimento. Se o Homem-Deus passasse pela terra e sofresse um pouquinho, derramando uma gotinha de sangue, remidos estávamos. Mas faltaria a lição de conformidade com a dor, de aceitação do sofrimento como ápice da existência. A dor não poder ser considerada como um desastre, um trambolho, algo que não se compreende e não deveria suceder. Ao contrário, ela é o caminho necessário para que o homem chegue até onde deve chegar, a estrada que o conduz a seu destino último.

Cada um de nós nasceu para carregar uma cruz, passar por um Horto das Oliveiras, beber um cálice e ter as suas horas de agonia, nas quais diz a Deus Nosso Senhor: “Meu Pai, se possível, afastai de mim este cálice, mas faça-se a vossa vontade e não a minha”.

A ideia de que o homem nasceu para dar glória a Deus, antes de tudo sofrendo, esta ideia retriz, fundamental na formação do verdadeiro católico, não a teríamos se ela não fosse apresentada pelo mais sublime e arrebatador dos exemplos, que é Nosso Senhor Jesus Cristo morrendo na Cruz.

Vemos aqui um contraste com o espírito moderno, segundo o qual a finalidade do homem na terra é ter êxito, saúde, enriquecer, gozar a vida e morrer bem tarde, quando não mais houver remédio. E, durante toda a existência, garantir a maior quota possível de segurança, de tal modo que, não digo o sofrimento, mas o medo do sofrimento não o assalte. Essa visualização é pagã por essência. Calcular a vida assim é calculá-la à maneira de um pagão. A formação católica prepara as pessoas para o sofrimento, pois está fundamentada em Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja vida foi centrada nesta hora suprema da dor.

Como consideramos os sofrimentos de nossa vida?

Isso nos leva a perguntar como consideramos os sofrimentos de nossa vida, dos quais o maior, sem dúvida nenhuma, é a nossa própria santificação. Toda santificação séria faz sofrer, e sofrer muito. E se alguém me disser que não sofre, eu teria vontade de perguntar-lhe, de imediato: “Então tu não te santificas?” Porque não há santificação que não venha acompanhada de dor.

Visando nossa santificação, devemos fazer perguntas como as seguintes:

Combatemos os impulsos que, em consequência do pecado original e das nossas más ações, existem dentro de nós? Como fazemos, não só para reprimir esses maus impulsos, mas para praticar as virtudes que lhes são opostas?

Aceitamos as nossas limitações de inteligência, de ordem física ou social, tais como: falta de posição, de fortuna, de atrativos? Há pessoas sem graça, com as quais os outros não gostam de ter relações; passam diante delas e, quando muito, as cumprimentam. Existem também as muito engraçadas, procuradas por todo o mundo para se divertirem com elas, e que nos solicitam à palhaçada. Como aceitamos a necessidade de resistir a essa solicitação?

Religiosas na Via-Sacra Museu de
Arte Religiosa, Puebla (México)

Só é verdadeiramente sério quem quer carregar sua cruz

Para tudo isso, cada um possui a sua cruz. E Nosso Senhor Jesus Cristo nos mostra o papel fundamental do sofrimento. Uma das razões pelas quais não foi possível ao Padre Eterno atender à oração de Jesus foi para que os homens tivessem esse exemplo.

Quando Napoleão estava na fase ascensional de sua carreira, antes ainda de se tornar imperador, um bajulador disse-lhe: “General Bonaparte, por que vós não vos fazeis proclamar deus?”

Os antigos heróis romanos, e os da Antiguidade em geral, quando atingiam o extremo de seu triunfo e de sua vanglória, acabavam por ser divinizados. Ele olhou para o sujeito de frente e deu esta resposta esmagadora: “Depois de Jesus Cristo, só há um jeito de alguém ser tomado a sério como deus: subir ao alto do Calvário e fazer-se crucificar. Eu não estou disposto a isto”.

O exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo calou tão fundo que nunca mais nenhum candidato à divindade foi tomado a sério, porque só a cruz é séria, e apenas são verdadeiramente sérios os homens que a querem carregar. Portanto, devemos amar a nossa cruz e meditar sobre os pontos acima referidos. (Revista Arautos do Evangelho, Abril/2019, n. 208, p. 26-30)

Extraído, com pequenas adaptações, da revista “Dr. Plinio”. São Paulo. Ano XIII. N.145 (Abr., 2010); p.14-19

1 Cf. LEOPOLDO E SILVA, Duarte. Concordância dos Santos Evangelhos. 3.ed. São Paulo: Ave-Maria, 1940, p.365-368.

 
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