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Virgem Maria


O caráter cristológico da devoção mariana
 
AUTOR: PE. JUAN CARLOS CASTÉ, EP
 
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A natureza cristocêntrica enfática da espiritualidade de Montfort é sua maior glória. E é irrefutável a essência das verdades teológicas contidas em seus escritos.

São Luís Maria Grignion de Montfort dedicou sua curta vida – faleceu aos 43 anos – a pregar missões à população rural do oeste da França.

Essa grande nação, que outrora brilhara pela piedade mariana, encontrava-se então devastada pela heresia jansenista, a qual se empenhava em diminuir o fervor na vida religiosa, sobretudo a devoção à Mãe de Deus.

Nosso Santo percebeu o perigo que isso representava para as almas e, com o coração cheio de ardor verdadeiramente profético, começou a pregar uma terna e fervorosa devoção a Nossa Senhora, como perfeito antídoto a todos os males espalhados pela heresia. E quase ao fim de sua vida pôs por escrito a substância do que havia ensinado: o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Apesar de o autor ser, sobretudo, um missionário popular, esta obra – como as outras por ele escritas nos seus poucos tempos livres – tem um altíssimo valor teológico, enraizado a fundo nas Sagradas Escrituras, na Tradição da Igreja, nosVirgen con el Nino_.jpg Santos Padres e nos grandes teólogos medievais e contemporâneos dele.

É de fato um livro com notas proféticas. “São Luís Grignion de Montfort foi, neste processus histórico, um verdadeiro profeta. No momento em que tantos espíritos ilustres se sentiam inteiramente tranquilos quanto à situação da Igreja, embalados num otimismo displicente, tíbio, sistemático, ele sondou com olhar de águia as profundezas do presente, e predisse uma crise religiosa futura, em termos que fazem pensar nas desgraças que a Igreja sofreu durante a Revolução [Francesa], isto é, a implantação do laicismo de Estado, o estabelecimento da ‘Igreja Constitucional’, a proscrição do culto católico, a adoração da deusa razão, o cativeiro e morte do Papa Pio VI, os massacres ou deportações de Sacerdotes e Religiosas, a introdução do divórcio, o confisco dos bens eclesiásticos, etc. Mais ainda. Para alento e alegria nossa, o Santo profetizou uma grande e universal vitória da Religião Católica em dias vindouros”.1

A voz dos Papas

A obra de São Luís Grignion contou com o aval e o apoio do Magistério da Igreja, sendo recomendada por diversos Papas.

Cingindo-se apenas aos Sumos Pontífices que aprovaram expressamente a doutrina desse grande santo, o padre Nazario Pérez, SJ, menciona o Bem-aventurado Pio IX, o qual em 1853 declarou “imunes de todo erro”2 a totalidade dos seus escritos. E continua:

“Leão XIII, que o beatificou em 1888, concedeu indulgência plenária a quem, segundo a fórmula do Beato Montfort, fizesse ou renovasse a sua consagração a Jesus por Maria no dia da Imaculada Conceição e no dia 28 de abril, festa do Santo; concedeu também indulgências à primeira Confraria de Maria, Rainha dos Corações, que se fundou em Otawa, em 1899.

“São Pio X teve muita estima pelo Tratado da Verdadeira Devoção e confessou duas vezes […] que se inspirara nele para escrever a Encíclica mariana Ad diem Illum. Concedeu também ‘muito de coração e com vivo afeto a bênção apostólica a quem lesse o Tratado tão admiravelmente composto pelo Beato Montfort'”.3 No discurso pronunciado ao conceder o decreto para a canonização do então Beato Montfort, Pio XII o compara ao seu compatriota São Bernardo, “aludindo sem dúvida, nessa comparação, à doutrina mariana”.4

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Mesa de trabalho de São Luís Maria
Grignion de Montfort – Saint-Laurent-sur-Sèvre (França)

Mais recentemente, o Beato João Paulo II manifestou-se diversas vezes sobre a excelência da espiritualidade desse grande santo. Narra, por exemplo, como lhe foi valioso o encontro com o Tratado num momento de hesitações: “Foi então que veio em minha ajuda o livro de São Luís Maria Grignion de Montfort, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Nele encontrei a resposta às minhas perplexidades. Sim, Maria aproxima- nos de Cristo, conduz- -nos a Ele, com a condição de que se viva o seu mistério em Cristo. […] A essência das verdades teológicas nele contidas é irrefutável. O autor é um teólogo de classe. Seu pensamento mariológico está enraizado no mistério trinitário e na verdade da Encarnação do Verbo de Deus. […]

Assim, graças a São Luís, comecei a descobrir todos os tesouros da devoção mariana, a partir de um ângulo, de certa forma, novo”.5

Uma profecia realizada

Porém, como toda obra de Deus, esse livro encontrou a oposição do demônio. O próprio Santo o havia previsto.

São Luís Grignion escreveu o Tratado na fase final de sua vida. Pouco antes de morrer, entregou o manuscrito ao padre Mulot, a quem escolhera como sucessor e executor testamentário. Este conhecia o tesouro que recebera. Os padres da Companhia de Maria se inspiraram nele para suas missões e pregações, mas “não se sentiram com ânimo de publicá-lo, por ser-lhes necessário solicitar o Privilégio do Rei, indispensável para a publicação de qualquer obra”, 6 e havia na Corte de Versalhes personagens de alto poder político, relacionados com os jansenistas e jansenizantes, portanto, hostis à Congregação fundada pelo padre Montfort.

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Beato Pio IX

Sobreveio a tormenta da Revolução Francesa, que se manifestou claramente anticristã. Começaram as perseguições e assassinatos de sacerdotes e religiosas. À vista disso, os padres Montfortianos entregaram os objetos de valor existentes em suas casas, entre os quais o manuscrito de São Luís, a uns camponeses, para serem escondidos. Estes os devolveram quando amainou a tempestade revolucionária, em fins do século XVIII.

No dia 22 de abril de 1842 – 126 anos após a morte do Santo -, o padre Rautureau, montfortiano, procurando material para preparar uma homilia, encontrou um manuscrito numa caixa cheia de livros velhos. Ao lê-lo, percebeu o espírito do padre Montfort e o mostrou ao superior, padre Dalin, o qual reconheceu perfeitamente a letra do fundador da Congregação.7

Em princípios de 1843 saiu a lume a primeira publicação do Tratado. Cumpria-se assim uma profecia nele escrita: “Prevejo que animais furiosos se precipitarão para despedaçar com seus dentes diabólicos este pequeno livro e aquele de quem serviu-Se o Espírito Santo para escrevê-lo, ou ao menos para envolvê-lo nas trevas e no silêncio de uma arca, a fim de evitar sua publicação. Inclusive, atacarão e perseguirão aqueles e aquelas que o lerem e procurarem pôr em prática”.8

O manuscrito não está completo. Os editores que o estudaram a fundo para publicar as obras completas de São Luís Grignion calcularam que faltam de 84 a 96 páginas no início, as quais versariam sobre o tema da “Preparação para o Reino de Cristo”. Julgam faltar também algumas páginas no fim, onde o Autor teria escrito uma “fórmula de consagração” e a “bênção das correntes”.9

Devoção cristológica e trinitária

Os primeiros tópicos do Tratado são já um verdadeiro programa que ele desenvolverá ao longo da obra. Parece-nos interessante ressaltar com o padre Alphonse Bossard, SMM, algumas analogias entre esses pontos, o discurso de Paulo VI no encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II e a Constituição Dogmática Lumen Gentium.

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Leão XIII

Escreve o padre Bossard: “Montfort primeiro vai fundamentar e explicar uma convicção que ele tem como central: já que Deus quis que Maria nos fosse necessária (cf. Tratado, n.1-59), impõe-se a todos uma verdadeira devoção a Ela”.10

“Para Montfort, não se pode tratar de pôr em primeiro lugar o mistério de Maria, mas simplesmente de sublinhar que, sem uma referência à sua Mãe, não é possível ter pleno acesso ao mistério de Jesus e vivê-lo. Isso afirmou Paulo VI no discurso de encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II, ampliando- o ao mistério da Igreja: ‘O conhecimento da verdadeira doutrina católica sobre Maria constituirá sempre uma chave para a exata compreensão do mistério de Cristo e da Igreja'”.11

Pouco antes, no mesmo discurso acima citado pelo padre Bossard, ressaltara Paulo VI que a Lumen Gentium “tem como vértice e coroamento um capítulo inteiro dedicado a Nossa Senhora”, acrescentando logo a seguir: “Com efeito, é a primeira vez – e dizê-lo enche-nos a alma de profunda emoção – é a primeira vez que um Concílio Ecumênico apresenta síntese tão vasta da Doutrina Católica acerca do lugar que Maria Santíssima ocupa no mistério de Cristo e da Igreja”.12

Nesse sentido, afirma o padre Alberto Rum, SMM: “Com o famoso Capítulo VIII sobre Nossa Senhora, o Concílio Vaticano II parece ter confirmado o valor teológico e ascético da espiritualidade mariana de Montfort”.13

Ao contrário do que pensam alguns, Nossa Senhora é tema vivo e atuante para o Concílio, como o é também para São Luís Grignion. Observa com acerto o padre Rum: “Para o Concílio, a doutrina mariana não é uma massa errática no mundo da divina Revelação, nem um sistema fechado em si mesmo na ordem da teologia católica, nem um valor à parte na vida do espírito. A presença de Maria é, ao contrário, uma presença viva no Credo, no pensamento e na vida do Povo de Deus […]. Tratado e Concílio oferecem assim uma mesma e idêntica mensagem mariana”. 14 Continua o mesmo autor: “Poder-se-ia dizer que o Concílio retoma em linguagem moderna o pensamento mariano do santo missionário”.15

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Beato Pio IX,Leão XIII,São Pio X, Pio XII e, muito especialmente, o Beato João
Paulo II deram o aval pontifício à obra de São Luís Maria Grignion de Montfort

No trecho acima, o padre Alberto Rum parece ecoar estas palavras da Lumen Gentium: “A Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando-A à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo. Pois Maria, que entrou intimamente na História da Salvação, e, por assim dizer, reúne em Si e reflete os imperativos mais altos da nossa Fé, ao ser exaltada e venerada, atrai os fiéis ao Filho, ao seu sacrifício e ao amor do Pai”.16

A Jesus por Maria

Segundo a Cristologia ensinada por Grignion de Montfort, é sempre através da Virgem que chegamos a Jesus. Quanto mais se conhecer Maria, mais conhecido será Jesus. Não pode, pois, haver receio de desagradar ao Filho, amando verdadeiramente sua Mãe. Pelo contrário!

‘”Jesus Cristo veio ao mundo por meio da Santíssima Virgem Maria, e é também por intermédio d’Ela que Ele deve reinar no mundo’ (Tratado, n.1). Aí se encontram a finalidade cristológica, essencial para Montfort; a dimensão missionária, pois trata-se de estabelecer o Reino de Cristo; e a referência à Encarnação: Aquela por quem Jesus veio ao mundo deve continuar cooperando em seu triunfo permanente. É, portanto, necessário concentrar- se em conhecer Maria em verdade, para melhor conhecer a Jesus Cristo, e reconhecer-Lhe todo o espaço que Deus mesmo quis que Ela tivesse, para chegar o Reino de seu Filho”.17

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“São Luís Maria Grignion de Montfort”
Nave principal da Basílica
de São Pedro

No fiat de Maria Santíssima se revela todo o desejo de Deus de salvar a humanidade por meio d’Ela. Afirma a Constituição Dogmática Lumen Gentium: “Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-Se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-Se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus onipotente o mistério da Redenção”.18

Pouco adiante, acrescenta o mesmo documento conciliar: “Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na Anunciação e que manteve inabalável junto à cruz, até a consumação eterna de todos os eleitos”.19

Convém ter em vista que a Lumen Gentium é um dos mais importantes documentos emanados do Concílio Vaticano II, a ponto de ter ser sido qualificada de “o coração do Concílio”.20

E São Luís escreve em seu Tratado: “A conduta das Três Pessoas da Santíssima Trindade por ocasião da Encarnação e primeira vinda de Jesus Cristo, Elas a mantêm todos os dias na Santa Igreja, de modo invisível, e a manterão até a consumação dos séculos, na última vinda de Cristo”.21

Por isso, conclui o padre Alberto Rum no citado artigo: “Nesta teologia mariana da salvação, o Concílio encontra um motivo para convidar os fiéis a uma devoção mariana cristocêntrica, que se conjuga mais intimamente com o Mediador e Salvador, Cristo Jesus. Por sua parte, a espiritualidade mariana de São Luís de Montfort está centrada no mesmo mistério da Encarnação e de nossa pertença a Jesus Cristo Senhor e Redentor”.22

Devoção cristológica e trinitária

Devemos ressaltar, sobretudo, o caráter eminentemente cristológico e trinitário dessa importante obra de São Luís. “A natureza cristocêntrica explícita e enfática da espiritualidade de Montfort é sua maior glória. O missionário apostólico se esforça muito por mostrar que só Jesus é o fim, pois Maria é ‘infinitamente inferior a seu Filho’ (Tratado, n.27). A primeira verdade sólida da devoção a Maria deve ser que apenas Cristo é o fim último de todas as devoções (Tratado, n.60-62)”.23

Ele nos ensina que a finalidade da devoção por ele pregada, ou seja, a escravidão de amor a Jesus pelas mãos de Maria Santíssima, é a instauração do Reino de Cristo, que não é outra coisa senão a renovação das promessas do Batismo. E Ela, a Virgem, é o melhor meio para chegar a nosso último fim: a união com Jesus.

“Para conhecer Maria tal como Deus A fez e tal como no-La dá, Montfort nos leva a contemplar a missão que o Senhor Lhe confiou na realização do mistério da Encarnação Redentora, com todas as suas consequências. Montfort descreve primeiro a relação íntima de cada uma das Pessoas divinas com Maria para realizar a vinda do Verbo na carne, pela Encarnação (Tratado, n.16). Depois, seguindo sempre este esquema trinitário, mostra como o Pai, o Filho e o Espírito Santo estendem a sua ação com Maria, para que a Encarnação produza seus efeitos em nós”.24

Para Jesus ser conhecido, precisa ser conhecida Maria

Encontramos no tópico 13 do Tratado o fundo do pensamento contido em sua introdução: “Meu coração ditou-me tudo quanto acabo de escrever, com particular alegria, para demonstrar que a divina Maria tem sido desconhecida até agora, e que esta é uma das razões pelas quais Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Se pois, como é certo, o conhecimento e o Reino de Cristo hão de chegar ao mundo, isso não acontecerá senão por uma consequência necessária do conhecimento e do Reino da Santíssima Virgem Maria. Ela O trouxe ao mundo na primeira vez e O fará resplandecer na segunda”.25

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“Cristo Rei” – Igreja de Nossa Senhora da
Assunção, New Orleans
(Estados Unidos)

O livro se destina, pois, a propagar a devoção a Nossa Senhora para que venha o Reino de Cristo. A razão teológica pela qual o Reino de Cristo será precedido pelo reinado de Maria, São Luís a coloca no tópico 1 do Tratado: “Jesus Cristo veio ao mundo por meio da Santíssima Virgem Maria, e é também por seu intermédio que Ele deve reinar no mundo”.26 Ou seja, se Maria Santíssima não tivesse vindo ao mundo, Cristo também não teria vindo, e a devoção a Ele deve vir ao mundo por intermédio d’Ela. Difundir a devoção à Mãe de Deus é, pois, nesta perspectiva, a maior obra a que um homem pode se dedicar.

A perfeita devoção a Maria é fundamental para a instauração do Reino de Cristo

Este objetivo de São Luís se presta desde logo a um comentário. “O santo missionário se propõe preparar o futuro Reino de Cristo, fazendo o que lhe parece mais essencial, mais importante, mais urgente, que na ordem concreta dos fatos produzirá quase que automaticamente o resto: difundir a perfeita devoção a Maria”.27 A restauração da civilização sobre os princípios da Igreja Católica não será, portanto, resultado de uma ação política, de obras sociais, de talento, de ciência. “O começo da restauração de todas as coisas está na piedade, no fervor da vida interior, está propriamente nos fundamentos religiosos da vida de um povo. O apostolado essencial é de caráter estritamente religioso, afervorar, formar na piedade, formar caracteres; o restante é consequência; são complementos importantes – é verdade – mas complementos. E a grande lição que São Luís fixa já no início do Tratado e desenvolve extensamente depois, é a de que na formação dos caracteres a condição básica e indispensável é a devoção a Nossa Senhora.

“Possuindo-a [esta devoção] verdadeiramente, os caracteres terão todos os meios sobrenaturais necessários para que, com a correspondência da vontade, floresçam. Se não se forma esta devoção, o próprio regime da expansão da graça na alma fica comprometido, e nada será possível conseguir. Portanto, a devoção a Nossa Senhora é condição necessária para tudo quanto
diga respeito à salvação individual, à salvação da civilização e a salvação eterna de todos quantos constituem, em dado momento, a Igreja militante”.28

São Luís tinha, pois, em mente, uma obra da mais alta importância para a renovação dos séculos futuros. A nós cabe ter um desejo ardente de possuir essa perfeita devoção a Nossa Senhora. Atrevo-me a dizer mais: ela é indispensável aos sacerdotes que desejam trabalhar seriamente pela glória de Deus e salvação das almas. O Tratado não é um livro qualquer de piedade, é uma obra monumental do ponto de vista teológico e mariológico que prega uma devoção absolutamente essencial, sobretudo para os nossos tempos.

Ninguém pode compreender por inteiro a excelsitude da Mãe de Deus

Como dissemos acima, São Luís afirma que Maria Santíssima é desconhecida. Ou seja, Ela é muito menos conhecida do que suas excelências e seus admiráveis predicados exigem. Em sua obra, ele explicará o motivo pelo qual Ela quase não é mencionada nos Evangelhos.

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“São Luís Maria Grignion de Montfort”
Basílica de Saint-Laurent-sur-Sèvre
(França)

“Para atender aos pedidos que Ela Lhe fez de escondê-La, empobrecê-La e humilhá-La, aprouve a Deus mantê-La oculta aos olhares de quase todas as criaturas humanas, em seu nascimento, em sua vida, em seus mistérios, em sua ressurreição e assunção. Seus próprios parentes não A conheciam; e com frequência os anjos perguntavam-se uns aos outros: ‘Quæ est ista? – Quem é esta? (Ct 3, 6; 8, 5), pois o Altíssimo A escondia; ou, se algo lhes revelava, ocultava-lhes infinitamente mais”.29 Os Santos Evangelhos quase não se referem a Ela. Por isso a teologia precisou fazer, através dos séculos, um admirável trabalho de dedução das verdades contidas na Escritura, para ressaltar o papel da Mãe de Deus.

Montfort dá duas razões pelas quais Maria passou sua vida praticamente sem aparecer nos Evangelhos: sua humildade e sua transcendência.

Humildade: “Com efeito, Maria é a mulher ideal, e como tal, Ela devia ter assinalada predileção pela modéstia, o mais belo ornato da mulher. Ela é ademais a santa por excelência, e então a humildade se impõe absolutamente. Quanto mais se eleva o edifício da santidade, mais profundas devem ser as bases da humildade”. 30

Transcendência: Ela é única na ordem da graça, foi predestinada desde toda a eternidade para uma missão singular e exclusiva: ser a digna Mãe do Redentor. Maria é Imaculada, suas relações com a Santíssima Trindade são especialíssimas, e seu papel na História da Salvação é capital.

“Ela pertence a uma ordem especial, única no mundo sobrenatural, a ordem da maternidade divina, intermediária entre a da união hipostática e a da graça e da glória. É, pois, impossível aplicar-Lhe os métodos ordinários do raciocínio humano, por via de deduções rigorosas. Ela é domínio exclusivo da soberana liberalidade e da onipotente liberdade de Deus. Nosso dever é somente admirar e mostrar a conveniência do que aprouve a Deus fazer. Montfort adota a posição dos que A admiram. Mais ainda, ele afirma no tópico 5, e prova nos tópicos seguintes (6 a 12), que, exceto Deus, ninguém pode compreender Maria tanto quanto é possível compreendê- La”.31

Como podemos ver, o Tratado é de uma profundidade mariológica que poucos alcançaram. (Revista Arautos do Evangelho, Outubro/2011, n. 118, p. 18 à 25)

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Maria é Imaculada. Suas relações com a Santíssima Trindade são especialíssimas,
e seu papel na História da Salvação é capital.

“Coroação de Nossa Senhora” – Basílica de Santo Antônio, Pádua (Itália)

 
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