Paulo era filho de Lucas Danei e de Ana Maria Massari. Lucas, de Castellazo, comerciava em Ovada, burgo da República de Gênova. O casal teve dezesseis filhos, mas muitos morreram quando ainda muito novos.

Paulo nasceu no dia 3 de fevereiro de 1694. No ano seguinte, nasceria o irmão que lhe seria inseparável companheiro, João Batista.
SAO PAULO DA CRUZ_1.jpgEm 1709, Lucas Danei, com toda a família, estava em Castellazo, com o seu comércio. Ali, as crianças, chegadas à idade conveniente, iam ajudá-lo.

Paulo, em 1715, buscou a carreira das armas. Um ano depois, contudo, abandonou-a. Piedoso e quieto, desejando levar vida mais perfeita, procurou um tio padre, chamado Cristóvão, irmão de Lucas Danei, para aconselhar-se. Encaminhando a um capuchinho da cidade, o padre Jerônimo de Tortona, nada conseguiu, porque, provisoriamente em Castellazo, ia deixá-la brevemente.

Depois de procurar este e aquele, o jovem viu-se diante de Francisco de Gattinara, bispo de Alexandria, que descobriu no bom filho de Lucas excepcionais qualidades e entrou a encorajá-los: é que Paulo, duns tempos àquela parte, vinha já pensando na congregação, em termos vagos, que lhe veio a mente decerto quando longamente ficava na igreja a adorar o Santíssimo Sacramento exposto, "pelo menos cinco horas de joelhos".

Paulo falou dos seus projetos ao bispo, da vida religiosa e do desejo que tinha de envergar uma túnica negra com um sinal especial: Jesu Christi Passio. Mais tarde havia de escrever: Quem me ler saiba que, quando me via levando a santa túnica, não a via a forma corporal, como a figura de um homem, isto não, mas de Deus; quero dizer que a alma conhecia que era Deus, porque a fazia compreender por movimentos interiores do coração e da inteligência infusa no espírito, e tão altamente, que é bem difícil de explicar ... Entretanto, para que seja bem compreendido, direi de uma certa visão espiritual, que Deus, na sua infinita misericórdia, muitas vezes me concedeu, quando quis enviar-me alguma pena particular. Enquanto estava a orar, via um chicote, na mão de Deus, e este chicote tinha cordas como as disciplinas e sobre elas estava escrita a palavra Amor. No mesmo instante, Deus mostrava à alma, numa altíssima contemplação, que desejava chicoteá-la, mas por amor, e a alma corria depressa abraçar o chicote, dando-lhe beijos espirituais.... Ora, escrevi isto para explicar e para dizer, segundo a inteligência que Deus me deu, que o que vi em espírito com a luz altíssima da santa fé, que o tenho por mais verdadeiro do que se tivesse visto com meus olhos corporais, visto que estes me poderiam enganar com qualquer fantasma, enquanto que, pela outra via não há perigo, graças à inteligência que Deus me concedeu. Quando disse que tinha visto nas mãos de Deus, não vi, mas a alma tem uma altíssima inteligência, que é imensa, e assim me aconteceu com a túnica. Enfim, saiba que, depois que Deus me retirou dos exercícios de meditação, para me ocupar com o discorrer sobre os mistérios, indo disto para aquilo, não mais tive formas imaginárias.
Tudo levado a bom termo, Paulo começou a usar a túnica negra com o sinal especial, com a autorização do bispo Gattinara: benzeu-o e entusiasmou-se com a alegria do moço. Era em 1720, aos vinte e dois dias de julho.

Aos 23 de novembro daquele mesmo ano, Paulo retirava-se com a permissão do prelado, a uma pequena cela situada debaixo duma escada, ao lado da sacristia da igreja paroquial de São Carlos de Castellazo, onde fez um retiro de quarenta dias: descalço, ali permaneceu, presa do frio, da umidade e do desconforto, a dormir dobre sobre palhas, a alimentar-se de pão e água.

Naquela celazinha escura e feia nasceu o primeiro esboço da futura Regra, a áspera, esboço que Gattinara aprovou ipsis-litteris.

Imediatamente, pôs-se o Santo em ação, principiando a propagar o catecismo, exercendo-o, primeiramente, pelo campo, entre os humildes que viviam nos arredores da cidade. Da ermida da Santa Trindade, depois da de Santo Estevão, reunia grande auditório, e passava a falar sobre o fim daquilo que tão gratamente se propusera, Foi um sucesso, e, de início, dois discípulos juntaram-se a ele. Um, foi João Batista, o próprio irmão, que lhe seria inseparável, e o outro Paulo Sardi.
Ao Santo, depois que pregou a quaresma, atraindo verdadeira multidão, todos, mesmo de longe, começaram a aparecer para ouvi-lo. E o desejo de Paulo de ver obtida uma aprovação pontifical para o que criara, partiu para Gênova, donde, embarcando num navio, buscou Civita Vechia. Foi quando retocou a regra, antes de alcançar Roma.

Desconhecido, sem protetor, ia difícil a obtenção duma audiência com o Papa. Afinal triste, sem conseguir o desejado, tornou à terra natal, a pé, bordejando o mar.

A 21 de setembro de 1721, Gattinara deu o hábito a João Batista, e os dois irmãos partiram para o Monte Argentário, lugar em que viveram uma vida difícil, dura, toda de oração e de penitência. Conhecidos, passaram a evangelizar as gentes de Orbetello, cidadezinha que se achava na raiz da montanha, poeticamente plantada à beira dum lago.

Não tardou para que o bispo de Gaeta, Carlos Pignatelli, ouvisse referências sobre a atividade que os dois Danei estavam, ardorosamente, desenvolvendo. Quis, então, conhecê-los. E, para tal, convidou-os para ir pregar na diocese que governava. O mês de junho de 1723 estava a findar. Aceitaram, gostosamente, o convite. E foram. Recebidos com gentileza, hospedaram-se no palácio episcopal. Dali, pouco depois, passaram à ermida de Nossa Senhora da Cadeia.

O bispo gostou dos dois. E, não satisfeito com vê-los a pregar pelas igrejas, confiou-lhes o cuidado do retiro dos ordenandos.

No mês de outubro, Paulo e João Batista deixavam Gaeta e retornavam a Castellazo, mas, no ano seguinte, ou seja, em março de 1724, voltaram de novo para uma temporada ao pé de Pignatelli, E Paulo, inflamado, pregou a quaresma na catedral.

Em agosto, para pregar, receberam o convite do bispo de Troja, e no ano seguinte, chegavam a Roma para o jubileu. Quando pregavam na basílica de São Pedro, chamaram a atenção dum cônego, Marcelo Crescenzi, depois cardeal. Entusiasmado, conversou com os dois irmãos, interrogou-os e, satisfeito com tudo aquilo que lhe diziam, prometeu-lhes uma audiência com o Santo Padre, Bento XIII.

Paulo e João Batista exultaram. Afinal, conseguiriam o que de há muito desejavam com calor.

A audiência com o Sumo Pontífice teve lugar no Palácio da Navicella, que fica perto de Santa Maria in Domnica, no Celio. O Papa recebeu-os paternalmente, ternamente, acabando por lhes aprovar os projetos que tinham traçado, autorizando-os a receber discípulos.

Foi em Gaeta que os primeiros companheiros apareceram. A Regra, porém, era grandemente austera, de modo que nem todos aqueles que procuravam os dois irmãos conseguiam permanecer na companhia deles. Com o correr dos dias, os demais foram debandando, um a um, e Paulo e João Batista, viram-se sós novamente, porque Sardi os havia deixado, fazia muito. Então, saíram da cidade e voltaram a Roma, onde foram admitidos como enfermeiros dum novo hospital, o Hospital de São Galicano.

Ali, chegaram às ordens: tonsurados a 6 de fevereiro de 1726, a 23 do mesmo mês e ano receberam as ordens menores; em Latrão, a 12 de abril, sábado santo, o sub-diaconato, e o diaconato a 1 de maio.

O sacerdócio, receberam-no em São Pedro, das mãos do Papa, aos 7 de Junho. Entregues ao cura de São Bartolomeu, um franciscano da observância, Paulo e João Batista principiaram a completar a formação teológica, com grande afinco.
A morte de Lucas Danei, obrigou os dois irmãos a correrem para Castellazo, onde permaneceram algum tempo. Somente em 1728 em janeiro, retornaram a São Gallicano. Pouco depois, ambos adoeciam, e, a conselho médico, deixaram o hospital, rumando para o Monte Argentário. Instalados numa pequenina ermida meio arruinada, a de Santo Antônio, novos discípulos surgiram. Ficaram, por semanas, ao lado dos dois Danei, mas a Regra, a terrível, espaventava-os um a um, como sempre.

Ao pé da montanha, ficava Porto Escole. À uma solicitação do bispo de Sovana, Palmiero, começaram a evangelizá-la. Depois tocou a vez de Talamona, ao norte. Data destes tempos de evangelização a proteção que lhes deu o Papa, então Clemente XII, e o direito de pregar missões.

Em 1733. Pela guerra que a Áustria moveu contra a França e a Espanha, Paulo e João Batista viam-se obrigados a deixar o Monte Argentário: súditos do rei da Sardenha, aliado da França (a Sardenha era território austríaco), iniciaram a pregação entre os soldados, e assim por ali ficaram.

Em 1735, iniciou-se o cerco de Porto Escole e do forte do Monte Filipe. Tal era, então, o prestígio de São Paulo da Cruz,SAO PAULO DA CRUZ_2.jpg que os generais espanhóis, franceses e austríacos não pestenejaram em deixá-lo pregar tanto num como noutro exercício, sem que, uma vez sequer, fosse suspeito de espionagem. Assim, a guerra não impediu aos dois bons irmãos de continuarem a pregar as missões; Começava-se a falar de milagres que Paulo operava. Convertendo soldados incrédulos e protestantes, ia-se tornando famoso, já que, desconhecendo o francês, o espanhol e o alemão, todos o entendiam na própria língua. Ia-se formar a congregação.

Era em 1735, em Nápoles. O novo rei era Carlos III. Paulo dirigiu-se ao soberano e solicitou dinheiro para alevantar uma casa, depois de lhe expor o que, maduramente, trazia no coração. O réu atendeu-o, e o primeiro convento apareceu. A capela, todavia, surgiria somente em 1737. Restava, então, que a Regra, a dura Regra terrível, fosse aprovada. Crescenzi foi quem se prontificou para apresentá-la ao Papa. Como não podia deixar de ser, a Regra dói considerada assaz rigorosa. Sob Bento XIV, foi suavizada.

Ligeiramente corrigida, o Soberano Pontífice aprovou-a a 15 de maio de 1741. A 1 de junho a permissão para guardar o Santo Sacramento foi-lhe outorgada, e o convento foi reconhecido.

A primeira profissão ocorreu a 11 de junho, seguida dum cerimonial que a congregação conservou: diante do Santo Sacramento exposto, os professos, levando uma cruz no ombro e uma coroa de espinhos na cabeça, prosternavam-se. Seguia-se, então, a leitura da Paixão segundo São João. Ditas as palavras tradidit spirituam, automaticamente abraçavam a pobreza, a castidade, a obediência e o dever de propagar a devoção pela Paixão. O nome de Passionistas então surgiu.

Aquele cerimonial viera, talvez, da predileção de Paulo pela parte dramática da Paixão de Nosso Senhor, pois o Santo tinha o gosto voltado para coisas que dizemos teatrais.

Poucos anos depois, a congregação jazia otimamente organizada. Paulo, agora Paulo da Cruz, sentia-se doente. Deixou, então, quase que toda a atividade. Todavia, num tour de force, como dizem os franceses, pregou o jubileu na igreja de Santa Maria, em 1769, quando uma multidão afluiu para ouvi-lo, dando mostras da mais carinhosa afeição pelo Santo.
Paulo, então, não mais podia andar por si mesmo. Estava com setenta e cinco anos e ia levado numa cadeira. Ele, que amava o dramático, que teria pensado do que lhe sucedeu? O povo, vendo-o assim carregado, num frenesi, atirou-se a ele, ávido de relíquias. Rasgaram-lhe pois, todo o hábito, para, com pedaços ou fiapos conseguidos, guardar lembranças do filho de Lucas e Ana Maria.

Quando faleceu, em 1775, com oitenta e um anos de idade, Paulo, que fora em vida venerado como Santo, passou a ser invocado por todos aqueles que tiveram a ventura de vê-lo e ouvi-lo.

Anos atrás, em 1173, Clemente XIV perguntara se Paulo da Cruz tivera um irmão chamado João. Disseram-lhe que sim.
- Paulo e João, deu o Papa de repetir, Paulo e João ...

Aos 6 de dezembro daquele ano, o Soberano Pontífice doava aos Passionistas a igreja dos Santos João e Paulo e o convento anexo, coisa que ao Santo enterneceu deveras.

São Paulo da Cruz, aos 21 de outubro daquele ano em que faleceu, 1775, foi enterrado na igreja que o Papa concedera aos Passionistas. A 1 de Maio de 1853, Pio IX beatificou-o, e, a 29 de Junho de 1867, canonizou-o. (Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVIII, p. 307 à 315)