Reflexões sobre a tese de Mestrado em Psicologia do Fundador dos Arautos
Ciência, Filosofia, Teologia, mas, sobretudo, uma consagrada experiência pedagógica e um conhecimento clarividente do ser humano, fazem da tese de mestrado de Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias uma obra-prima.
Prof. Dr. Carlos Vargas Ordóñez
Decano da Faculdade de Psicologia da Universidade Católica da Colômbia
É muito honroso para a Universidade Católica de Colômbia fazer hoje a entrega do título de Mestre em Psicologia, com ênfase em Psicologia Educativa, ao Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias. Temos, além disso, especial satisfação em proceder a essa entrega, pois julgamos ser um dever da Universidade e da Academia, não só oferecer uma rigorosa formação em todas as disciplinas, mas também prestar um merecido ato de reconhecimento aos mestres mais destacados e insignes servidores da Educação, como é o caso de Monsenhor Scognamiglio.
Na leitura de sua obra, Monsenhor, vimos como o carisma do sacerdote consagrado ao serviço generoso de sua comunidade se conjuga admiravelmente, e no mais alto grau, com a mais elevada didática do pedagogo experiente, com a sabedoria de quem abeberou seus ensinamentos nas fontes do saber filosófico e teológico, com a prudência iluminada pela luz do Evangelho, com a mais profunda humildade de espírito - própria dos grandes homens -, com admirável formação humanística que, no seu caso, transcende as simples categorias da ciência e da reflexão filosófica, para penetrar nos mais complexos e difíceis temas das várias ciências do espírito.
Ciência, Filosofia, Teologia, mas, sobretudo, uma consagrada experiência pedagógica e um conhecimento clarividente do ser humano, de suas riquezas e limitações, fazem certamente de sua tese de mestrado - A fidelidade ao primeiro olhar da inteligência - uma obra-prima que ensina a todos nós e levou-nos a uma reflexão muito profunda. Nós a lemos com particular prazer e proveito espiritual, e a ela devo referir-me agora, obviamente de modo bastante resumido.
É a fidelidade ao primeiro olhar que permite harmonizar a razão com a Fé
Nesse seu trabalho, encontra o leitor um maravilhoso percurso intelectual que - à maneira do itinerário de São Boaventura, citado pelo senhor mesmo, Itinerarium mentis Deo - leva-nos quase pela mão, de modo brilhante e documentado, pelos diferentes momentos e caminhos que permitem ao menino e ao adolescente iniciar sua trajetória a partir do mundo do sensível; revela, em seguida, "os fundamentos filosófico- antropológicos do conhecimento e seu indiscutível impacto sobre o desenvolvimento da personalidade"; e chega à proposta psicopedagógica dos Arautos do Evangelho, que, iluminada e enriquecida pelo Magistério da Igreja, se fortalece e se torna guia de seu modelo educativo.
Um momento da Missa que precedeu a entrega do título. À esquerda, Dr. Arturo Ospina Hernández, representando o Reitor da UCC, Dra. Martha Lozano, orientadora da tese de Monsenhor João e Dr. Carlos Vargas |
É a fidelidade a esse primeiro "olhar da inteligência", é a fidelidade e a coerência com ela que permitirão ao ser humano articular e harmonizar em um só conjunto os dados da razão com os da Fé, o mundo do sensível com o mundo do espiritual, a finitude das criaturas com a infinitude do Criador. Seu trabalho assinala isso, com uma evidente articulação lógica, ao concluir o primeiro capítulo:
"Todas as riquezas do conhecimento humano, do raciocínio e dos atos morais do homem adulto - e de quem já entrou na ancianidade - consistem na fidelidade a esse primeiro olhar ou na sua restauração".
O esquecimento do ser é um dos maiores desastres da história do pensamento ocidental
Contudo, o importante não é só o enunciado; é sua demonstração lógica e epistemológica no transcurso da obra que em cada página respiga sua riqueza conceitual e prática tanto na filosofia perene como nas fontes da Revelação divina, unidas - e de que modo! - a uma estruturada reflexão de caráter teológico como também aos mais recentes desenvolvimentos da psicologia científica. O crescimento e desenvolvimento do ser humano, seu comportamento nas diferentes etapas da vida, suas aspirações, suas limitações, em uma palavra, sua grandeza e sua pequenez, sua indescritível complexidade, além de serem enunciados com sábia interpretação e compreensão dos próprios fenômenos, sugerem profundas implicações que, entendidas e analisadas de modo articulado e complementar pelas várias disciplinas, permitem inferir o selo característico e os padrões básicos que todo sistema educativo deveria ter. Todavia, tais fenômenos não podem ser compreendidos, e menos ainda explicados, se não se recorre e se começa pelo próprio estudo do ser; por isso, com Heidegger, sua tese nos recorda que "o esquecimento do ser é um dos maiores desastres da história do pensamento ocidental".
As sensações não são subjetivas, mas reais e objetivas
Posteriormente, no marco da filosofia tomista, faz um maravilhoso itinerário desde a afirmação do ser, passando por sua reconquista e descobrimento nos primeiros anos do menino que, como objeto da intuição, é o primeiro a ser apreendido pela inteligência através dos sentidos. "A única solução sensata - conclui com impecável lógica - é volver os olhos novamente ao ser. Pois precisamente ele, em sua inabarcável variedade e rica unicidade, é objeto do conhecimento, entendido primordialmente pela inteligência através da experiência sensível".
Como, porém, abordar o problema do conhecimento a partir dos sentidos e das próprias sensações? Eis uma boa pergunta de investigação científica que seu trabalho aborda sem qualquer temor, assinalando os limites da reflexão epistemológica e a necessidade da interdisciplinaridade. De modo imprescindível, precisamos recorrer aos estudos contemporâneos da Psicologia Científica, particularmente em seus estudos e investigações associados com o campo da sensação e da percepção.
Por isso a tese salienta com muita propriedade: "Ao primeiro olhar acrescenta- se também o que poderíamos chamar o primeiro ouvir, o primeiro olfatear, o primeiro degustar e o primeiro tocar". Portanto, as sensações - conclui com Royo Marín - "não são subjetivas, mas reais e objetivas, como o demonstram a experiência, a própria consciência e os procedimentos científicos da psicologia experimental moderna".
Só a contemplação de Deus torna o homem perfeitamente feliz
Entretanto, a apreensão do ser a partir dos sentidos e a partir da razão deve ter um direcionamento, um norte que lhe permita avançar com liberdade, mas por caminhos seguros. Por isso no itinerário do primeiro olhar sobre o ser em direção ao Absoluto, uma etapa essencial é o conhecimento da verdade, fundamentada na capacidade humana de apreender o ser.
Há mais: sua tese de mestrado acentua com o Papa João Paulo II que "na vida real, essa certeza da verdade está ainda mais gravada na alma infantil"; o menino "conserva um inquebrantável senso da verdade, indissoluvelmente unido ao senso do ser". Sem embargo, como recorda o mesmo Papa João Paulo II (Fides et ratio, n. 28), o homem pode ser definido como um ente que está à procura da verdade. E ele não deixará de segui- la, mesmo que feche os olhos para a verdade real e procure fabricar sua própria "verdade" subjetiva, inconsistente e contraditória.
"Dentro de cada um de nós se sente o tormento de algumas questões essenciais e, ao mesmo tempo, se guarda na alma, pelo menos, o esboço das respectivas respostas" (João Paulo II, Fides et ratio, n. 29). Sim a sede de verdade está profundamente enraizada no coração humano, que de algum modo a discerniu em seu primeiro olhar, e ele a encontrará com uma facilidade tanto maior quanto maior tiver sido sua fidelidade a esse olhar.
Portanto, "só a contemplação de Deus, que é a Verdade po
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| "Na sua obra, o carisma de sacerdote se conjuga admiravel- |
| mente com a sabedoria de quem abeberou seus ensina- |
| mentos nas fontes do saber filosófico e teológico" |
r essência, torna o homem perfeitamente feliz". Eis aqui - conclui - um princípio teológico da verdade que cabe acentuar: "O homem não se aperfeiçoa intelectualmente, de acordo com seu fim, a não ser tendo em vista o movimento de sua inteligência em direção à contemplação da Verdade Suprema".
Nostalgia da verdade
De outra parte, continua o estudo em sua lógica argumentativa, ninguém poderia permanecer sinceramente indiferente à verdade do seu saber. Se descobre que é falso, rejeita-o; se pode confirmar sua veracidade, sente- se satisfeito. Esta é a lição de Santo Agostinho, ao escrever: "Encontrei muitos que queriam enganar, mas ninguém que quisesse deixar-se enganar". Nostalgia da verdade. Feliz expressão encontrada por João Paulo II para descrever uma realidade de extrema importância.
Por isso, "é necessário reconhecer e atender ao chamado dessa nostalgia - perceptível no contato com as multidões modernas - para proporcionar ao homem de nossos dias a recuperação do equilíbrio de alma. Ao contrário de tantas ‘nostalgias induzidas', ou letargias e depressões contemporâneas, a nostalgia da verdade não é dolorosa, no sentido estrito. Quanto mais o homem contemporâneo se aproxima da verdade, mais a deseja; e quanto mais aplaca esse apetite, mais ele se acentua. Contudo, a busca da verdade leva o espírito humano a procurar também o bem. Trata-se de mais uma etapa no caminho do primeiro olhar, densa e cheia de consequências".
Em síntese, "assim como o primeiro olhar da inteligência tem como objeto o ser, e leva à verdade, o primeiro olhar da vontade conduz ao bem - ou àquilo que convém ao ser". Como acontece com os primeiros princípios da razão especulativa, também os primeiros princípios da Lei Natural são verdades evidentes. Na precoce fidelidade do menino a esse maravilhoso entrelaçamento está o segredo de toda uma vida coerente e virtuosa.
Em consequência, "reconhecer e promover os princípios morais é a única maneira de respeitar a dignidade da pessoa humana, ou seja, de promover realmente os direitos do homem, que expressam essas exigências fundamentais inscritas na natureza humana". Que importante desafio o de sua tese para nós, educadores, independentemente de nossas próprias crenças e ideologias!
Não foi fácil avaliar um estudo de tal riqueza de pensamento
Os trechos acima citados são obviamente apenas uma minúscula amostra do excelente trabalho elaborado e apresentado por Monsenhor com vistas ao título de Mestre em Psicologia, que a Universidade Católica da Colômbia hoje lhe confere comprazida.
Certamente não foi fácil, para os jurados que tiveram a seu cargo a leitura da tese apresentada, avaliar um estudo de tal riqueza de pensamento e alcance acadêmico. Conjugar a complexa riqueza de tão valiosas contribuições do ponto de vista da Filosofia, da Teologia, da Psicologia, mas, sobretudo, da sua admirável experiência como educador e guia espiritual, exigiu de nós, que tivemos o privilégio de fazer sua detalhada leitura, fecundas horas de estudo e de reflexão. Mas foi, sobretudo, uma excepcional possibilidade de rever nossas próprias atitudes frente ao nosso compromisso de
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| "Mais do que para entregar-lhe seu merecido título, estamos |
| aqui para prestar-lhe um caloroso testemunho de admiração |
| de afeto e de congratulações." |
católicos, frente à experiência da vida, frente ao autêntico sentido da educação.
Obrigado, Monsenhor, por nos ter dado a feliz oportunidade de nos nutrirmos de alimento tão substancioso, por ternos permitido nos aproximarmos mais, como diz o Evangelho, dessa
"fonte de água que jorrará até a vida eterna" (Jo 4, 14).
Caloroso testemunho de admiração e afeto
A Universidade Católica da Colômbia, particularmente nós que a representamos neste ato, aqui estamos, mais do que para entregar-lhe seu merecido título de Mestre em Psicologia, para prestar- lhe um caloroso testemunho de admiração, de afeto e de congratulações por suas carismáticas qualidades de "mestre de mestres" e por sua extraordinária obra educativa cujos ideais se respiram e se vivem nesta acolhedora casa e em todos os lugares por onde se estende a maravilhosa obra dos Arautos do Evangelho.
Sem dúvida alguma, Monsenhor, desconhecemos muito do perfil e do tesouro de mestre que existe oculto no senhor; ignoramos, porque conseguimos apenas vislumbrar, a altura e a dimensão de sua entrega pessoal àqueles que são ou foram seus discípulos. O que, porém, sabemos com certeza é que, durante os muitos anos de consagração à sua comunidade e à educação, o senhor marcou e continua marcando indelevelmente o espírito de seus alunos e de seus amigos da Universidade Católica de Colômbia que hoje temos a felicidade de nos reunirmos com o senhor.
Por este motivo, ao conferir-lhe este título, sabemos que, além de um simples reconhecimento acadêmico, quiséramos que este ato se constituísse para todos, de alguma maneira, num forte laço que nos aproxime mais da semelhança e da obra do autêntico mestre que perdura além dos limites do tempo e do espaço. Daquele mestre cuja obra permanece estando ele distante ou ausente, daquele mestre em cuja recordação os discípulos se reconciliam com a vida.
Em nome de todos eles, de seus estudantes e dos nossos lá na Colômbia, presentes ou ausentes, em nome da Universidade Católica da Colômbia, obrigado, Monsenhor, pelo que deu de si mesmo, de sua inteligência, de seu afeto, de seu tempo, de sua vida, de suas expectativas, de suas esperanças, mas sobretudo de "sua fidelidade ao primeiro olhar". Que Deus continue inspirando-o e cumulando de Suas bênçãos por muitos, muitos anos mais.
(Discurso pronunciado em 1/10/2009, durante a Missa de entrega do título de Mestre em Psicologia pela Universidade Católica da Colômbia a Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP - Tradução: Revista Arautos do Evangelho)
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"Uma maravilhosa experiência"
Em entrevista à agência "Gaudium Press", o Prof. Carlos Vargas manifestou suas impressões sobre o Seminário dos Arautos do Evangelho, no qual hospedou-se durante sua estada no Brasil. Transcrevemos abaixo alguns de seus comentários.
Tive aqui uma maravilhosa experiência vivencial. Vejo que vocês creem no homem, criatura de Deus, e por isso cuidam de seu desenvolvimento com luxo de detalhes, com notável delicadeza em tudo, com grande disciplina, com uma
inteligente formação. E os efeitos dessa formação se manifestam nos produtos de arte, como também na disposição, na permanente disponibilidade de serviço.
Aplicações da psicologia à formação
Nos poucos dias que aqui passei, pude admirar as múltiplas aplicações que - sem explicitá-las - os arautos fazem da psicologia na formação dos jovens. Vocês têm um modo de entender e de considerar o ser humano de forma integral, em suas múltiplas dimensões.
Noto, por exemplo, com grande satisfação seu zelo não só pelo aspecto físico, mas também pelo espiritual: o desenvolvimento do menino, o crescimento social e tudo quanto tem a ver com a interação humana, um aspecto do qual não se cuida suficientemente em outros modelos educativos.
O papel da Liturgia
Ontem tive oportunidade de assistir a uma Missa solene, celebrada por Mons. João Scognamiglio Clá Dias e abrilhantada pela presença da comunidade, pela música e numerosos detalhes que realmente elevam o espírito do ser humano.
Julgo que vocês conseguiram atingir aquilo que parece-me ter sido sempre a meta da Liturgia da Igreja: unir, digamos assim, as possibilidades terrenas que temos, com as possibilidades que nos oferece o Senhor na Glória eterna. É certamente algo indescritível. Queira Deus, muitas outras pessoas tenham a feliz oportunidade de participar de uma Missa como essa e poder, assim, ter uma experiência pessoal como a que eu tive.
(Revista Arautos do Evangelho, Novembro/2009, n. 95, p. 32 à 36)