Fale conosco
 
 
Receba nossos boletins
 
 
 
Artigos


Espiritualidade


A luta, manifestação do afeto divino
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 09/12/2019
 
Decrease Increase
Texto
Solo lectura
0
0
 
Quantas vezes passamos por terríveis provações e borrascas! Quantas vezes nos sentimos quase submergidos pelas ondas, enquanto o Mestre parece dormir! Será que, nesses momentos, Ele deixou de nos amar?

Altos rochedos servem de cenário para um admirável episódio que à primeira vista assusta, mas do qual podemos tirar inúmeras lições: pequenas aves caindo a toda velocidade! São filhotes de águia que, tendo atingido a idade adequada para começar a voar, foram jogados pelos próprios pais precipício abaixo…

Bem poderíamos ver nesse episódio um símbolo de como Deus age conosco em certos momentos: submete-nos a provas na aparência absurdas, mas muito formativas para a nossa santificação. E como nem sempre levamos em consideração o que Deus tem em vista, não é raro ouvirmos afirmações do gênero: “Como Ele pode fazer isto comigo!?” Ou: “Por que Ele me trata assim?”

Se a provação se tornar um pouco mais longa ou mais intensa, surge o risco de haver revolta contra a Providência Divina. E por quê? Entre outros motivos, por faltar a compreensão de que tudo o que acontece conosco obedece a um desígnio amoroso de Deus.

Deus jamais Se cansa de amar, perdoar e fazer o bem

Quem nunca se comoveu ao ler, nos Santos Evangelhos, a parábola do filho pródigo? Parece impossível haver melhor exemplo de amor paterno do que o demonstrado por aquele pai, o qual cumula com os mais pungentes gestos de afeto, compaixão e misericórdia o filho rebelde, ingrato e pecador. Antes mesmo de este se arrepender e retornar a casa, ele já o aguardava ansiosamente, como se depreende do fato de tê-lo visto quando “ainda estava longe” (cf. Lc 15, 20).

O Divino Mestre visava com esta parábola dar aos homens uma pálida ideia da infinita paternalidade divina, que jamais se cansa de amar, perdoar e fazer o bem. “Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celeste dará boas coisas aos que Lhe pedirem” (Mt 7, 11).

Ora, como entender, à luz dessa infinita bondade, que Deus muitas vezes trate com aparente rudeza os seus?

A dor e a dificuldade purificam a alma

Voltemos ao nosso exemplo inicial. As águias, de fato, para ajudar seus filhotes a voar, recorrem a um método aparentemente rude, porém muito eficaz: carregam-nos nas costas e, chegando a elevada altitude, lançam-nos no ar.

Não é essa, no entanto, uma atitude desnaturada. Pelo contrário, esses filhotes, movidos pelo instinto, aprendem a salvar-se da morte por si mesmos, e o esforço aplicado na tarefa os leva a rapidamente alcançar grandes alturas, à semelhança de seus progenitores.

Estas ousadas aves, seguindo seus impulsos naturais, refletem um interessante aspecto de Deus: a divina didática que Ele utiliza para formar seus filhos e fazer deles grandes heróis.

A dor e a dificuldade purificam a alma, além de afastarem-na, muitas vezes, do mau caminho. Assim, as divinas “correções” que Deus, como Pai perfeitíssimo, nos envia, não nos excluem da condição de filhos. Pelo contrário, são a confirmação dessa filiação, conforme ensina o Apóstolo:

“Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que
é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos. Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade” (Hb 12, 7-10).

Os desejos da carne se opõem aos do espírito

Já proclamava o justo Jó que a vida do homem sobre a terra é uma luta e seus dias são como os de um mercenário (cf. Jó 7, 1). Este estado beligerante é uma realidade incontestável, resultado do pecado original. A queda de nossos primeiros pais trouxe como consequência a perda da paz pela introdução da desordem na alma humana, com todas as suas consequências. As potências da alma humana viram-se abaladas, e o homem passou a sentir em si a confusão da inteligência, a fraqueza da vontade e o desgoverno dos apetites sensíveis. Estabeleceram-se nele duas leis antagônicas: a da carne e a do espírito.

São Paulo já advertia os primeiros cristãos a respeito dessa incompatibilidade, dizendo que “os desejos da carne se opõem aos desejos do espírito, e estes aos da carne; pois
são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis” (Gal 5, 17).

A luta é constante na vida do homem

Para se adquirir a paz, passou a ser necessária a luta. Luta contra as próprias más inclinações; luta contra a corrupção do mundo, porque a desordem do homem maculou todas as criaturas terrestres; e, sobretudo, luta contra a serpente e a sua raça maldita, pois Deus mesmo, após ter interrogado Adão sobre seu mau procedimento, estabeleceu a inimizade permanente entre os filhos da luz e os das trevas: “Porei inimizade entre ti e a Mulher, entre tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15).

Não em vão São Pedro adverte a comunidade cristã em sua epístola, exortando-a a ser vigilante contra o diabo, pois este ronda como um leão procurando a quem devorar (cf. I Pd 5, 8).

É evidente o quanto o demônio, na sua natureza angélica, não descansa um instante sequer em fazer cumprir seu objetivo de perder as almas. Por isso, a resistência às suas
investidas deve ser contínua e incansável. 

No Paraíso Terrestre faltava o heroísmo

Nada disso pode ser visto como uma tragédia ou como um simples castigo de Deus ao homem pecador.

Observa Mons. João que no Paraíso Terrestre tudo era superexcelente; faltava apenas uma coisa: o heroísmo. E esse foi um dos principais motivos pelos quais Deus permitiu a entrada da serpente.1

Comumente imaginamos o Éden como um mundo de paz, ordem e tranquilidade. E, de fato, tudo era perfeito e virtuoso. O homem vivia em plena harmonia com a vontade de Deus e convivia com Ele: “O Senhor Deus passeava no jardim, à hora da brisa da tarde” (Gn 3, 8). No entanto, o Criador desejava elevar a criatura amada, feita à sua 
própria “imagem e semelhança” (Gn 1, 26), ao píncaro da perfeição, acrisolando suas virtudes e selando sua fidelidade. Como? Por meio de uma prova.

Superado o obstáculo posto por Deus em seu caminho, Adão adquiriria um novo brilho, uma nova força, um novo esplendor. Vencendo essa prova, seria merecedor de um
prêmio ainda maior, e demonstraria todo seu amor e gratidão a seu Criador e Pai.

Deus sempre envia as provações por amor

Adão, porém, pecou e, à semelhança de um membro do corpo que sofre uma fratura e necessita de exercícios fisioterapêuticos para se refortalecer após o período de imobilização, o homem passou a precisar de combates que fortaleçam e robusteçam sua alma.

Assim, todos os homens, bons ou maus, em determinado momento passam por provas, dificuldades e tribulações. Elas podem servir de expiação por uma falta, correção de uma má tendência ou purificação do espírito com vistas a alcançar uma maior santidade. Podem representar também sofrimentos destinados a, pela Comunhão dos Santos, obter graças e dons para outros membros da Igreja.

Mas, qualquer que seja a causa dessas contrariedades, devemos ter presente que Deus sempre as envia por amor, pois a única via que conduz à verdadeira e sólida virtude, e, portanto, à felicidade eterna, consiste na árdua escalada de uma montanha chamada heroísmo.

Às vezes, o Divino Mestre parece dormir…

Nos primórdios da Igreja, após um intenso dia de convívio e de apostolado com os habitantes de Cafarnaum, Nosso Senhor decide cruzar até o outro lado das margens do Mar da Galileia. Deseja repousar um pouco, afastando-se das multidões que há muitos dias O seguem e d’Ele recebem todo tipo de graças e benefícios.

Tendo partido com os Apóstolos ao cair da tarde, de repente, o tempo se fecha, faz-se noite, as águas começam a se agitar, os ventos sopram impetuosos sobre a humilde barca, que ameaça afundar.

Nosso Senhor dormindo na barca em meio à tempestade no lago de Tiberíades Cartuxa de Pesio (Itália)

Ante a desesperadora situação, os discípulos, apavorados, em vão empregam todos os meios humanos para evitar que a água entre cada vez mais na embarcação. As gigantescas ondas se lançam impiedosamente sobre eles, que logo percebem ser a intervenção divina sua única salvação.

“Mestre, Mestre!”, clamam. E Nosso Senhor, que descansava na parte posterior da embarcação, acorda. Com uma simples ordem, a borrasca se transforma em bonança,
e no mesmo instante os elementos obedecem ao Dominador domar, do céu e da terra (cf. Mc 4, 35-41)!

Quantas vezes presenciamos borrascas semelhantes, não no mar, mas em nossas próprias vidas! Quantas vezes, nos momentos em que as ondas quase nos submergem, o Mestre parece dormir… 

“O senhor castiga aquele a quem ama”

Quando os Apóstolos despertaram Nosso Senhor, aterrorizados pelo perigo, qual resposta ouviram dos seus divinos lábios? “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes
fé?” (Mc 4, 40).

Importantíssima lição! Em meio às tempestades, não temamos, pois Nosso Senhor está sempre presente na embarcação. Ele é quem promove a borrasca para o bem e a salvação de nossas almas. Basta ter fé n’Ele!

Ademais, “por incrível que pareça, Ele permite à tempestade desabar sobre as almas amadas por Ele. É o próprio Deus que declara fazer uso deste procedimento: ‘Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune ao filho a quem muito estima’ (Pr 3, 11-12)”.2

No episódio da barca eram os Apóstolos que ali se encontravam, e quem mais amados do que eles? Justamente por amá-los com predileção é que Nosso Senhor quis corrigir sua falta de fé, submetendo-os àquela tribulação. “Se a tempestade tivesse se desencadeado estando Ele acordado, ou não houvessem tido medo algum nem Lhe tivessem rogado, talvez nem pensassem que Ele tivesse poder de fazer algo”.3

As tempestades não podem ser vistas como um castigo ou desprezo de Deus; muito pelo contrário, são uma manifestação do desvelo e afeto d’Ele!

Como ouro no crisol

Quando um general quer formar um bom exército, submete suas tropas a intensos treinamentos, com duras provas e árduos obstáculos. Deste modo, fortalece-as com vistas às horas difíceis da guerra e aumenta as probabilidades de vitória.

Assim faz também o Altíssimo com aqueles que, nesta terra, hão de lutar por Ele, pela Santa Igreja e para alcançar a vida eterna. E quanto maior for o amor de Deus por uma alma, mais intenso será seu “adestramento”, pois o “ouro” de nossas almas só alcança todo seu valor quando é posto “à prova” nas “chamas” do combate. Ele “sabe muito bem, como sapientíssimo artífice, quanto tempo deve estar o ouro no crisol, e quando é o momento de retirá-lo”.4 Lembremos que, quando São Pedro começava a afundar no mar, Nosso Senhor lhe estendeu a mão para que não sucumbisse nas águas, dizendo-lhe: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14, 31).

Aquele que Se fez Homem para nos salvar repete com insistência essas mesmas palavras a cada um de nós. Sejam quais forem as dificuldades que enfrentemos, tenhamos plena fé em sua bondade paterna. Assim como Nosso Senhor tomou São Pedro pela mão e o levou em segurança até a barca, no momento oportuno Ele mesmo lutará e vencerá em nós!(Revista Arautos do Evangelho, Dezembro/2019, n. 216, p. 32 a 35)

1 Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Até na hora da aparente derrota, o Sumo Bem sempre vence. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2012, v.V, p.255-256.
2 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A borrasca: um castigo ou uma graça? In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.184.
3 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. Homilía 28, n.1. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.I, p.569.
4 RODRÍGUEZ, SJ, Alonso. Ejercicio de perfección y virtudes cristianas. 2.ed. Madrid: Testimonio, 1985, p.492.

 
Comentários