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Espiritualidade


A missão providencial dos leigos
 
AUTOR: IR. ALEJANDRO JAVIER DE SAINT AMANT
 
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Hoje mais do que nunca, a Igreja precisa da colaboração dos leigos para cumprir sua missão evangelizadora.

Numa sociedade globalizada e marcada pelo laicismo, a Igreja enfrenta novos desafios para desempenhar seu papel missionário. O reduzido número de sacerdotes e religiosos em relação às necessidades do apostolado torna especialmente árduo cumprir o mandato de evangelizar todas as nações (cf. Mt 28, 19). Árduo, mas não impossível, pois em qualquer situação, por difícil e insolúvel que pareça, jamais deixará ela de ser a justo título luz de esperança.

Assim, nesses últimos séculos de profundas mudanças históricas, o Espírito Santo suscitou uma nova “força evangelizadora” capaz de dar o testemunho cristão em todas as esferas da sociedade: os leigos, pessoas que vivem no mundo e cuja voz pode chegar a lugares muitas vezes inacessíveis à voz de um pregador. Sua ação possibilita à Igreja oferecer ao mundo a água viva que brota para a vida eterna (cf. Jo 4, 14).

Hoje mais do que nunca, a ação dos leigos é necessária para levar a todos a mensagem salvífica de Jesus.

Origem do termo “leigo”

O termo laikós deriva da palavra grega laós, que significa povo. No início da Era Cristã, era usado principalmente em seu sentido etimológico para referir-se a qualquer membro do “povo eleito”, ou seja, a todos quantos faziam parte da Igreja.

Ele aparece pela primeira vez na literatura cristã por volta do ano 95, na conhecida carta de São Clemente Romano aos coríntios. O Papa usa-o nesse documento para designar os batizados que, em contraste com os sacerdotes, não exerciam função na Igreja. Seu uso, portanto, é equivalente ao que lhe damos hoje em dia. Inteirado das discórdias entre ministros ordenados e fiéis, nessa comunidade, São Clemente procura esclarecer, entre outros assuntos, quais são as características e obrigações de cada estado. “Ao sumo sacerdote se atribuem seus próprios encargos e aos sacerdotes suas respectivas funções […] o leigo deve submeter-se ao regulamento para os leigos”.1

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Ao longo do século XX
surgiram e se consolidaram
novos movimentos destinados a
atuar nessa sociedade
desumanizada

Nos séculos seguintes, à medida que a Igreja cresce e vai progressivamente assumindo a estrutura que hoje conhecemos, consolida-se o significado dado por São Clemente à palavra leigo: o membro da Igreja que não recebeu as ordens sagradas.

Diferença entre clérigo, religioso e leigo

A partir do século V, com a instituição do monaquismo, a distinção se transforma de dual em tripartite: não se fala apenas de clérigos e leigos, mas de clérigos, monges e leigos. E se estabelece um duplo critério para diferenciar os três estados: o Sacramento da Ordem marca a diferença entre clérigo e leigo; a forma de viver distingue o religioso do leigo, ou secular. Não se trata, pois, de uma reflexão teológica, mas de uma distinção linguística destinada a designar cada estado de vida.

Esta separação, porém, foi conduzindo à ideia de que, pelo fato de viverem no mundo e não terem recebido um ministério ordenado, os leigos eram menos devotos ou espirituais. Com o tempo, esse termo passou a tomar, segundo certos autores, uma conotação negativa.2

De Leão XIII ao Concílio Vaticano II

No pontificado de Leão XIII, verificou-se uma série de profundas mudanças que abalaram os fundamentos da organização social. As graves questões econômicas e sociais criadas pela Revolução Industrial obrigaram a Igreja a tomar posição perante elas, dando origem, com a Rerum Novarum, ao que mais tarde Pio XI denominaria Doutrina Social da Igreja.

Ante esses novos problemas, tornou-se indispensável uma ação específica dos leigos. Ao longo do século XX surgiram e se consolidaram novos movimentos destinados a atuar nessa sociedade desumanizada, cuja evolução os Papas desse século acompanharam com paternal preocupação.

Surgiu paralelamente o movimento da Ação Católica, à qual Pio XI definiu como “participação dos leigos no apostolado hierárquico da Igreja”.3 E nos anos 1951 e 1956 dois congressos mundiais realizados em Roma para promover o apostolado dos leigos encheram de consolo e alegria o coração de Pio XII.

Não é de se estranhar, portanto, que o Concílio Vaticano II tenha dedicado aos leigos boa parte de suas reflexões. Dir-se-ia que os Padres Conciliares procuravam discernir e interpretar nos movimentos laicos um certo sopro do Espírito Santo para os tempos atuais. Tal preocupação se materializou no Decreto Apostolicam Actuositatem, destinado a definir as finalidades, formas e campos de atuação dos leigos em seu apostolado. E a Cúria foi enriquecida com um novo dicastério: o Pontifício Conselho para os Leigos, criado em 6 de janeiro de 1967 pelo Papa Paulo VI e por ele mesmo reformado em 10 de dezembro de 1976.

Desde então se vêm proliferando movimentos eclesiais ou associações de leigos, tanto em nível diocesano como em pontifício.

E a importância de alguns desses movimentos levou São João Paulo II a considerá-los um “vento impetuoso, que arrebata e atrai as pessoas para novos caminhos de empenho missionário ao serviço radical do Evangelho, proclamando sem temor as verdades da fé, acolhendo como dom o fluxo vivo da tradição e suscitando em cada um o ardente desejo da santidade”.

Participação no “tria munera Christi”

É na Constituição Lumen gentium que os Padres Conciliares definem o significado e as características do termo leigo, integrando-o na missão salvífica da Igreja: “Por leigos entendem-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo”.5

A definição é tão clara que dispensa comentários. A inestimável graça do Batismo nos torna capazes de configurar-nos com Cristo. Este Sacramento “nos introduz na Família da Santíssima Trindade”.6

Vale a pena notar que com esse texto da Constituição se deu mais um passo na compreensão da relação da Igreja com o mundo secular, do espiritual com o temporal. Ao atribuir a todos os leigos a possibilidade de participarem de algum modo naquilo que em teologia se denomina “tria munera Christi” – ou seja, o “tríplice múnus de Cristo”, ou a “trilogia de funções”: sacerdotal, profética e real -, ela fornece uma nova interpretação teológica da missão dos leigos na sociedade como sinal de salvação.

Os leigos participam do ministério sacerdotal de Cristo porque, assim como Ele ofereceu sua vida na Cruz para salvação do gênero humano, e Se oferece continuamente na Eucaristia, os leigos se oferecem a si mesmos, em suas atividades cotidianas, para sua santificação e a dos demais; é um holocausto de sua própria vontade para fazer em tudo a vontade de Deus, sofrendo em sua carne o que falta às tribulações de Cristo e de sua Igreja (cf. Col 1, 24).

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O termo “leigo” aparece pela
primeira vez na literatura cristã na
conhecida carta de São Clemente
Romano aos coríntios

São Clemente I – Basílica de
São Marcos, Veneza

No ministério profético de Cristo, essa participação se realiza pelo anúncio do Evangelho, através de suas obras, como Jesus anunciou o Reino do Pai com o testemunho de sua vida.

Por último, a participação dos leigos no ministério real de Cristo, Senhor e Rei do universo, se efetua por sua luta e vitória espiritual contra o pecado, e pelo serviço, em justiça e caridade, a seus irmãos.7

Em resumo, a participação dos leigos no tria munera se formaliza através de uma íntima comunhão de Cristo com os batizados e, mediante estes, com todos os homens.8

Embora exista uma tendência natural a buscar o bem comum, pelo próprio instinto de sociabilidade inerente a todo ser humano, é a partir da consagração batismal que nasce esse processo de entrega desinteressada que tem por objetivo a salvação de todos os homens. A incorporação ao Corpo Místico de Cristo através do Batismo, reforçado pelo Sacramento da Confirmação e alimentado pela Eucaristia, institui esse compromisso apostólico. Tudo isso está em íntima relação com o senso da fé, através do qual o cristão compreende que sua missão e sua adesão a Cristo são dons concedidos por Deus a seu povo, que é a Igreja, e sabe entender melhor as situações e exigências de cada dia.

Assim como o corpo humano, o Corpo Místico de Cristo compõe-se de diversos membros, todos com um importante papel. Aos clérigos, como membros principais desse Corpo, corresponde a missão de ensinar, guiar e santificar o povo de Deus, sobretudo pela administração dos Sacramentos. Mas cabe também aos leigos, dentro das atuações próprias de seu estado, conduzir seus semelhantes a Deus.

Isso significa que o leigo consciente de sua responsabilidade não pode buscar apenas sua salvação pessoal. Sem abandonar seus encargos no mundo, deve ele utilizar todos os meios a seu alcance para colaborar com a obra salvífica da Igreja. Pois, como afirma o Concílio, “incumbe a todos os leigos a magnífica tarefa de trabalhar para que o desígnio de salvação atinja cada vez mais os homens de todos os tempos e lugares”.9

A essência desse trabalho específico dos leigos pode ser sintetizada na expressão cunhada por Pio XII: consecratio mundi, a consagração do mundo a Deus. Ela descreve o esforço para ajustar ao plano divino, da maneira mais completa  possível, todas as coisas humanas.

Sacralizar o mundo não significa desvirtuar a força e independência das realidades temporais, mas sim, conforme explica um teólogo contemporâneo, fazer que ele “se torne ‘matéria’ oferecida eficazmente a Deus em adoração, expiação, ação de graças e petição, precisamente enquanto as mesmas realidades terrenas são ordenadas para a perfeição própria de sua natureza, de acordo com o plano divino”.10

Afirma o mesmo autor: “É teologicamente indubitável que essa atividade dos leigos é eficaz – para a própria santificação e para a ordenação do mundo a Deus – na medida de sua efetiva união com o Sacrifício de Cristo”.11

Portanto, o mundo – em suas diferentes realidades: social, profissional, familiar – não é apenas âmbito, mas também matéria do sacrifício espiritual realizado pelos leigos em sua colaboração com o ministério sacerdotal de Cristo.

Vistos nesta perspectiva, podem os atos humanos adquirir uma força quase sacramental, e as ações cotidianas se elevar a uma dimensão que toca no litúrgico. Basta pensar no exemplo da Sagrada Família: não é difícil imaginar o convívio diário dos três como uma constante liturgia de louvor a Deus e caridade com o próximo, sendo ao mesmo tempo modelo e estímulo à prática de todas as virtudes.

Homens e mulheres providenciais

À vista de quanto se disse acima, pode-se afirmar que os leigos são homens e mulheres providenciais? Em que sentido?

Paulo VI na Basílica de São Pedro durante uma das sessões do Concílio Vaticano II.jpg
Os Padres Conciliares procuravam discernir e interpretar nos movimentos laicos um
certo sopro do Espírito Santo para os tempos atuais

Paulo VI na Basílica de São Pedro durante uma das sessões do Concílio Vaticano II

É legítimo qualificar de providencial toda pessoa que, por seu exemplo e suas atitudes, marca de alguma forma a história da Salvação. Lato sensu, todos os homens o são, pois cada um foi suscitado por Deus para desempenhar um papel único no conjunto da Criação. Nenhum outro poderá exercer a função específica que lhe foi dada, nem desenvolver o aspecto concreto da perfeição divina que todo ser criado está chamado a representar.

Contudo, num sentido mais estrito, existem pessoas incumbidas por Deus de uma missão de tal forma importante para a ordem temporal ou espiritual, que acabam modificando o curso da História. São, por assim dizer, a mão da Providência intervindo nos acontecimentos e promovendo mudanças na sociedade. Por exemplo, São Bento, São Francisco de Assis ou Santa Joana d’Arc.

Deus dá a cada um a incumbência de atuar em seu contexto habitual. É uma regra da natureza que o ser humano, por seu instinto social, se deixe influenciar por seus semelhantes, e é nesse contexto que se insere o papel providencial dos leigos.

Assim, converte-se em sinal de salvação o leigo que se empenha em realizar uma missão evangelizadora no seu próprio ambiente, trabalhando no mundo sem se deixar dominar por ele. Torna-se um elemento providencial a iluminar o caminho para todos quantos perderem o rumo, numa sociedade cada vez mais afastada dos ideais cristãos.

Sagrada Família - Casa dos Arautos do Evangelho em Lima..jpg

Não é difícil imaginar o convívio diário
da Sagrada Família como uma constante
liturgia de louvor a Deus e caridade
com o próximo

Sagrada Família – Casa dos Arautos
do Evangelho em Lima

“Por isso é que aparece iluminadora a figura do cristão-leigo como sacramento da Igreja oferecida ao mundo. Ele a expressa e a faz presente. Nele se cumpre o mistério da aliança com Cristo, pessoal e comunitária. Nele se torna presente a graça no e através do mundo, porque vive a secularidade como índole própria. Poder-se-ia dizer que o leigo exprime toda a riqueza da Igreja, como comunidade de sacerdotes, profetas e reis, através dessa sua ‘maneira própria’, a índole secular”.12

Obedecer à voz dos pastores

Ante o acima exposto, cabe dar aqui um esclarecimento.

Discernir o momento e o lugar de proclamar abertamente sua fé, saber aguardar cautelosamente circunstâncias favoráveis para fazê-lo, escolher o campo concreto de sua atuação, são alguns dos desafios que se apresentam no cumprimento dessa missão. Em face deles, deve o leigo ver com clareza seu papel de colaborador no apostolado hierárquico da Igreja, e ter a humildade necessária para obedecer à voz de seus pastores, como um bom filho a seus pais.

O caráter providencial de uma ação não exige independência, mas sim colaboração. O Espírito nunca cria divisões entre aqueles que se movem sob o impulso do sopro divino. Pelo contrário, une-os e os harmoniza.

Todos somos chamados a trabalhar na vinha do Senhor

Todos temos obrigação de trabalhar na vinha do Senhor. Não há limite de idade neste apostolado; todos são chamados a trabalhar em horas diferentes (cf. Mt 20, 1-7). Na colaboração para a vinda do Reino de Deus, os meninos serão úteis por sua inocência e simplicidade de coração; os jovens, por sua força e entusiasmo; os adultos, por sua maturidade e decisão; e os anciãos, por sua sabedoria e experiência.

Ao mesmo tempo em que se deixa impressionar pelo avanço da técnica e de tantos progressos científicos, a humanidade está sedenta do espiritual, do sobrenatural. Haverá sempre pessoas à procura de algo que lhes traga paz. Aí podem os leigos desempenhar seu providencial papel. Não se pode deixar de aproveitar as oportunidades. Teremos de prestar contas a Deus pelos talentos que preferimos enterrar, em vez de fazê-los render (cf. Mt 25, 14-30). Não há como fugir desse compromisso ao qual nos obriga a condição de batizados.

Hoje mais do que nunca, a Igreja precisa da colaboração dos leigos para cumprir sua missão evangelizadora num mundo por vezes tão hostil à Religião. É um compromisso muito grande de cada um perante os demais. Em certa medida, pode depender de nosso apostolado a atitude que outros venham a tomar em relação a Deus.

A Igreja tem bem presente o inestimável papel dos leigos, na perspectiva da evangelização. De fato, pode haver missão mais sublime que a de cooperar com Deus para a salvação das almas? E nesse sentido, não estará o Senhor esperando de nós uma entrega mais generosa para levar a cabo seu desígnio de amor numa determinada época da História? (Revista Arautos do Evangelho, Setembro/2014, n. 153, p. 30 à 35)

 
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