Fale conosco
 
 
Receba nossos boletins
 
 
 
Artigos


Plinio Corrêa de Oliveira


A oração: importante, necessária, obrigatória
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 11/09/2019
 
Decrease Increase
Texto
Solo lectura
5
0
 
Dando continuidade aos preciosos comentários que teceu à obra de Santo Afonso de Ligório — A oração, o grande meio da salvação” — Dr. Plinio ressalta a necessidade da prece perseverante e repassada de confiança, para alcançarmos os favores celestiais.

Gostaria de focalizar mais alguns aspectos da oração, muito bem tratados por Santo Afonso, porque se baseia em ótimas citações, e ele próprio é uma grande autoridade cujas palavras merecem ser mencionadas.

Tratava-se de saber, essencialmente e de forma racional, como a oração pode nos conduzir ao resultado desejado. Com que fundamento? Baseados em que razão podemos nos servir da oração para chegar a obter a graça pedida?

Para as grandes dificuldades, graças extraordinárias

A fim de respondê-lo, cumpre considerarmos uma vez mais o princípio dado pelo santo autor, segundo o qual para as dificuldades comuns da vida espiritual a graça comum, concedida a todas as pessoas, é suficiente. Mas para as dificuldades extraordinárias, não basta. São necessárias, também, as graças extraordinárias. E é por meio da oração que as obtemos.

Devemos, no entanto, afastar de nosso caminho o mito de que a vontade humana é suficientemente forte para levar alguém a conseguir, por si só, a sua santificação. Ninguém entenderia esse mito tomado num sentido literal, pois acabaria dando, em última análise, no erro do pelagianismo, isto é, acreditar que a graça não é indispensável para a salvação.

Porém, há uma espécie de neo-semipelagianismo — digamos — que redunda numa atitude psicológica ligeiramente parecida com a do pelagianismo, a qual poderia ser enunciada da seguinte maneira: “Deus sempre me dá as graças suficientes para a minha salvação. Se Ele as concede, ainda que eu não peça, não vejo a necessidade de pedir mais. Se a graça é suficiente, eu topo a parada e correspondo. Não compreendo o papel representado pelo ato de pedir dentro disso.”

Ora, o erro está exatamente em não aceitar essa importância da súplica. De fato, como acima recordamos, as dificuldades maiores da vida espiritual, não as venceremos a não ser pedindo graças extraordinárias, pois a graça comum para isso não nos basta. Santo Afonso o ensina, baseado em São Tomás de Aquino e em outros santos.

Agora, põe-se o problema: quais são as grandes dificuldades da vida espiritual? Crê-se, geralmente, tratar-se de tentações tremendas, de crises pavorosas pelas quais se passa, quando então nos agarramos à oração de forma excepcional. Porém, uma vez cessada a tormenta, julgamos também desnecessário continuar a rezar de modo especial. Essa atitude é falsa.

As grandes dificuldades na vida espiritual consistem em vencer os grandes defeitos. Os assuntos morais são personalíssimos, variam de indivíduo para indivíduo. Algo custoso para mim, para outros será uma bagatela, e vice-versa. Mas todos temos algumas imensas dificuldades dentro da vida espiritual para vencer. E essas existem até o momento da morte!

Nossa luta consiste, primeiro, em vencer as dificuldades; segundo, em sustentar a vitória, o que é quase tão difícil quanto vencer.

Às vezes se é mais tentado depois de ter adquirido a vitória do que antes desta. Por exemplo, santos há que conseguem se emendar de uma vida má e guardar a castidade durante anos. Porém, depois são mais tentados em matéria de pureza do que quando eram ruins, e sofrem mais para conservar a virtude recuperada do que padeceram anteriormente na luta para reconquistá-la.

Quer dizer, a vida inteira teremos lutas prodigiosamente difíceis em alguns assuntos. E para isso, insistimos, as graças comuns não bastam: precisamos de graças extraordinárias, as quais cumpre serem rogadas por nós. 

O pedido deve ser proporcionado ao perigo

Pedir! Nunca será supérfluo acentuar este ponto. Pedir com uma insistência proporcionada ao tamanho do perigo corrido. Se me encontro diante de grande risco, se estou num período de muita tentação, não tenho o direito de não pedir proporcionadamente ao risco que me ameaça. Se na minha vida espiritual me deparo, não com um dragão, mas com uma pedra, muitas vezes é mais árduo livrar-me desta do que daquele.

Uma pedra… Certa vez alguém me confidenciou não conseguir fazer exame de consciência, e, portanto, não saber o que acontece dentro de si. Essa dificuldade não é um “dragão”, mas uma pedra parada no meio do caminho. De qualquer forma, é um obstáculo. Se eu não rezo proporcionalmente à gravidade dele, segundo explica Santo Afonso de Ligório, cometo um pecado do tamanho representado por aquele obstáculo.

Se, por exemplo, uma pessoa é muito tentada contra a virtude da pureza, será temeridade ela não rezar o necessário para se manter fiel. Mais ainda. Essa negligência pode constituir uma falta proporcionada à gravidade do risco espiritual corrido, e até chegar a ser pecado mortal.

Conforme assevera Santo Afonso de Ligório, baseado em São Tomás de Aquino, os anjos que pecaram no começo da Criação, o fizeram porque na hora da tentação não pediram auxílio a Deus. O mesmo aconteceu a Adão e Eva no Paraíso: em vez de rezarem na hora da tentação, ficaram ali saracoteando com a serpente. Resultado, caíram.

E realmente, na pormenorizada descrição do pecado de Adão dada pela Bíblia, nem ele nem Eva aparecem como tendo sequer um momento de oração. Entretanto, se tivessem implorado a assistência divina desde aquela ocasião, teriam vencido a tentação do demônio e não cometeriam o pecado… Compreende-se, portanto, que o homem não pode, sem temeridade, deixar de rezar na proporção necessária, pela solução de seus problemas.

A oração, uma prática facultativa?

Devemos ter em conta, também, que a oração não se apresenta, para nós, como algo facultativo. Ela é indispensável. E isso explica por que razão um senso de piedade nos leva a considerar algumas práticas da nossa família de almas tão obrigatórias, como por exemplo a recitação do Rosário. Aconteça o que acontecer, dê no que der, diga-se o que se disser, estejamos doentes, agonizantes, seja como for, o Rosário tem de ser rezado diariamente.

Alguém poderia achar ridícula essa obrigatoriedade, posto existirem outros atos de piedade que, em última análise, são mais importantes. É o caso do combate a certas manifestações de egoísmo. Todos os teólogos concordarão em ser pecado o fazer concessões a este defeito moral, mas nem todos hão de apontar como falta o não rezar o Rosário. Porém, determinadas almas, em determinadas circunstâncias da vida espiritual, teriam elas o direito de não rezar o Rosário todos os dias?

O exemplo de Santo Afonso

É famoso o caso da vida de Santo Afonso de Ligório, ocorrido nos últimos anos de sua existência. Ele, outrora um homem de estilo e sumamente inteligente, encontrava-se muito doente, paralítico, com o pescoço torto. Para se distrair, era levado por um irmão, num carrinho, através do convento, e juntos iam rezando o Rosário. Às vezes os dois se confundiam e já não sabiam se tinham rezado este ou aquele mistério do Rosário. Então, tinham de começar tudo de novo. O irmão, que evidentemente não era Santo Afonso, entrou com o conselho de bom senso: por que Santo Afonso não deixava de rezar o Rosário naquele dia? Afinal já tinham recitado, certamente, os três terços…

Resposta de Santo Afonso:

— Irmão, o que o senhor está me aconselhando? Não sabe que se eu deixar passar um dia sem rezar o Rosário, comprometo minha salvação eterna?

Muitos redentoristas talvez julgassem tratar-se apenas de outra edificante atitude de seu fundador: “Nosso pai Santo Afonso, não podia deixar…”

Não é isso. Ele, conhecedor de sua vida espiritual e tendo verdadeira piedade, sentia, sabia e percebia ser o Rosário uma devoção que, de fato, condicionava a salvação dele. Portanto, era imperioso que ele o recitasse direito.

O “capitão sitiado”

Ainda a respeito dessa obrigação de rezar de modo proporcional às nossas tentações ou necessidades espirituais, Santo Afonso cita um pensamento de São Boaventura, muito interessante: “Imaginem um capitão que, prestes a ser sitiado numa praça forte, tem ao seu alcance a possibilidade de pedir auxílio ao rei, e pode estar certo de recebê-lo, porque o rei sempre ouve o chamado e tem meios de fazer chegar as tropas ao ponto atacado. Esse capitão luta para vencer o inimigo, sem pedir o socorro do rei. Resultado, ele cai, e a sua posição é dominada pelo inimigo. Poder-se-ia perguntar: o rei não considerará esse capitão um traidor?”

O argumento é excelente e nos faz sentir o problema ao vivo. Pois o mesmo se dá conosco em relação a Nosso Senhor. Se podemos pedir auxílio, obtendo certamente tudo quanto quisermos, teremos nós o direito de não solicitar esse amparo, sem traição? E de não pedir com tanta insistência quanto necessário para sermos socorridos?

Mais vale rezar do que meditar

Desse pensamento tira Santo Afonso uma conclusão curiosa: mais vale a pena rezar do que meditar.

Escreve ele: “Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas pouco se ocupam de súplica. Não resta dúvida que a leitura espiritual e a meditação das verdades eternas seja coisa de muita utilidade; mas muito mais útil diz Santo Agostinho, é o suplicar; nas leituras e nas meditações ficamos conhecendo as nossas obrigações, mas na oração obtemos a graça de cumpri-las.”

E acrescenta: “De que serve conhecer a obrigação de fazer e depois não o fazer: de que serve senão para tornar-nos mais culpados perante Deus? (…) O fruto maior da oração mental é de nos fazer pedir a Deus as graças de que precisamos para perseverança e salvação eterna.”

Necessidade de relembrar estas verdades

Gostaria de encerrar lembrando que, para se ter uma vida de oração perfeita é preciso se preparar, e não permitir que essas verdades se embacem no nosso espírito. Cumpre conservar algo como elemento adquirido para a compreensão da importância da oração, para a vida inteira. Creio ser muito oportuno aqui aquele conselho que se acha alhures no Novo Testamento: antes da oração devemos preparar a alma.

É preciso recordar e meditar com freqüência o que foi dito, ressuscitando isso no espírito, a fim de que os canais da oração fiquem completamente desobstruídos. Pois fomos adquirindo sobre ela uma série de pequenas impressões, vindas ao longo das nossas relações com Deus — orações frustradas, aquelas em que nos pareceu não sermos atendidos, onde tudo deu para trás, preces feitas na aridez, a sensação de Nosso Senhor estar distante — que acabam penetrando em nossa alma, transformando o que foi dito, e que é teologicamente certo, em letra morta.

Na teoria, não se nega ser verdadeiro o ensinamento de Santo Afonso, mas na ordem prática não se age em conseqüência. E o resultado é a vida de oração ficar muito prejudicada. Seria, portanto, útil consagrar — semanal, quinzenal ou mensalmente — um tempo necessário para rememorar tudo quanto ele diz a respeito da oração. E procurar ver quais são os “nós” que nos amarram no momento, para tentar desatá-los. Só quando isso estiver bem acertado a oração produzirá frutos.

E quantos entraves dessa espécie existem na vida de oração! Por exemplo, passamos diante de uma igreja que sempre nos pareceu convidativa, entramos, ajoelhamos para rezar e não sentimos bênção alguma. Aquilo foi uma frustração, uma desilusão, pois a consolação sentida do lado de fora não se verificou ali dentro. Zero!

Desconfiança em relação a Deus

Quando não renovamos constantemente em nossa alma aqueles princípios sobre a oração, impressões como essa acabam pesando em nossa existência espiritual, levando-nos a achar que Deus desmente a teologia e não faz conosco um “jogo” leal. Assaltam-nos desconfianças: “Afinal de contas, por culpa minha, as orações que faço não merecem ser atendidas e agora estou no buraco. Por que devo continuar a rezar? Porque Ele se zanga se eu não rezar. Mas, assim mesmo, não saio de dentro da entalada. Resultado, para mim, a oração é o pagamento daquele imposto. Eu vou lá todo dia, repito maquinalmente o meu rosário em 25 minutos, mas as nossas relações estão rompidas. Dependia de mim estabelecer um pacto que, por minha culpa, não é firmado. Deus está no nicho d’Ele, vendo se faço ou não. Ele continua a pingar aquela graça, mas eu não correspondo. Então nós não temos mais o que nos dizer.

Aliviemos nossa vida espiritual das falsas impressões que a atrapalham, e tenhamos a certeza de que Jesus nos atenderá com alegria! “O Bom Pastor”, Igreja de Santo Eustáquio – Paris

“Estamos brigados? Não! Estamos como marido e mulher que ainda moram debaixo do mesmo teto, mas perderam o assunto. Só conversam coisas formais. Não temos mais o que comentar um com o outro…”

Quantos vivem com Deus assim, reduzidos ao regime das formalidades. Se alguém lhes disser:

— Subscreva a seguinte tese: Deus não ouve a oração do pecador. Ele diz:

— Não, Deus ouve! — Mas, não ouve a tua porque és pecador.

— Ah! Claro. A minha é medíocre, e Deus não a atende exatamente porque sou pecador.

Ou seja, ele admite funcionar para si um sistema que julga não vigorar para mais ninguém no mundo. Ele não possui o mínimo de confiança. Uma espécie de areia péssima entrou na engrenagem da sua vida espiritual e fez com que ele, na prática, não tenha uma vida de piedade filial em relação a Nosso Senhor.

Na verdade, não conheço ponto onde a pessoa seja mais tentada do que este da oração. E tentada sem o perceber.

Um trabalho da maior importância

Devo, de fato, ter a certeza de que Nosso Senhor vai me atender com alegria! Porque sou a ovelha perdida, e Ele tem prazer em me aceitar de volta. Ele dará uma festa e me acolherá mais uma vez, comprazido, como fez com o filho pródigo.” Portanto, tratemos de desencavar da nossa vida de piedade as falsas impressões que nela se estabelecem, atrapalhando-a. Procuremos aliviá-la desse peso desnecessário, e assim permitiremos que ela produza todos os seus bons frutos.

Esse trabalho mensal de desencoscorar a oração, mantendo os canais dela bem desimpedidos, parece-me da maior importância. (Revista Dr. Plinio, Novembro/2003, n. 68, p. 22 a 26).

 
Comentários