Fale conosco
 
 
Receba nossos boletins
 
 
 
Artigos


Plinio Corrêa de Oliveira


“E Tu, Senhor, permanecerás para sempre”
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 11/11/2019
 
Decrease Increase
Texto
Solo lectura
0
0
 
Ao encerrar suas reflexões sobre o Salmo 101, traça Dr. Plinio eloquente paralelo entre as promessas contidas no texto sagrado e uma futura renovação da face da Terra, sob o misericordioso reinado do Imaculado Coração de Maria.

Depois de evocar a conversão do povo judeu e se referir a um tempo de ventura que, por analogia, pensamos ser a época marial prevista por São Luís Grignion de Montfort, o Salmista prossegue em sua manifestação de arrependimento e contrição, exaltando a misericórdia e a grandeza de Deus.

O simbolismo do nome

Então diz:

E as nações temerão o teu nome, Senhor, e todos os reis da terra respeitarão a tua glória.

Em muitas de suas orações, a Igreja exalta o nome do Criador, como, por exemplo, após a Bênção do Santíssimo Sacramento: “Benedictum nomem sanctum eius — bendito seja seu santo nome”. E também se bendiz o nome de Jesus, do Espírito Santo, de Maria, etc.

Há toda uma filosofia do nome, sobre a qual não trataria no momento, que mostra ser ele o símbolo do indivíduo, e reciprocamente este último se identifica com seu nome. E o verdadeiro nome do homem é o que ele simboliza. Assim, um guerreiro indômito pode passar a se chamar Leão. Isso sucedeu com um personagem medieval, cuja alcunha é uma das mais belas daquela época: Ricardo Coração de Leão. Embora não fosse modelo de piedade e virtude, ele lutou com tanta coragem que mereceu ser comparado ao temido rei dos animais. O símbolo tornou-se o nome do homem.

A Europa antiga, Sião do universo

Porque o Senhor edificou Sião e será visto na sua glória.

Não foram os judeus que edificaram Sião, isto é, Jerusalém. Eles apenas empregaram suas mãos como instrumentos de Deus. E o Criador cobriu de glória aquela cidade, a qual, pela sua beleza, é um símbolo da Civilização Cristã. Durante muito tempo a Europa foi a Sião do universo, a cidade construída por Deus através dos homens, cuja glória lhe conferiu um lúmen, um esplendor, uma primazia que fizeram dela o continente de Jesus Cristo.

Atendeu a oração dos humildes e não desprezou a sua prece.

Nessa linha de comparação, poderíamos perguntar por que Sião, ou seja, a Europa, chegou a esse ponto de magnificência? Por que engendrou muitos batalhadores, intelectuais, homens de Estado que souberam dirigir os assuntos públicos?

Secundariamente, sim, mas a razão principal foi que Deus atendeu as preces dos corações arrependidos, e lhes concedeu uma abundância de graças que, correspondidas, resultaram nas incontáveis maravilhas da Cristandade.

É o que se infere da recitação dos Salmos Penitenciais. Falam eles dos pecados cometidos por um homem, mas igualmente fazem vibrar o rugido de uma pessoa castigada por Deus, que lhe infligiu sua cólera santíssima e regeneradora. E, no auge de seu sofrimento, ele caiu em si, como o filho pródigo quando teve de comer as bolotas dos porcos, sentiu remorsos por suas culpas e disse:  “Voltarei à casa de meu pai, pedir-lhe-ei perdão e que me aceite como escravo, pois já não mereço outra coisa”. Sabemos que ele recebeu mais do que teria se houvesse permanecido fiel.

E a face da Terra será renovada

Sejam escritas essas coisas para a geração futura…

Quer dizer, os homens se esquecem dessas verdades. Importa anotá-las para que as gerações futuras delas se lembrem. Somente quem se baseia num texto escrito preto sobre o branco — e não no mole e indeciso das lendas —, sabendo conservar o elo do presente com o passado, somente este ama a tradição e compreende o profundo sentido da História.

Não basta, porém, escrever livros sobre os bons princípios. É preciso vivê-los. Do contrário, tais obras permanecerão dormindo nas bibliotecas.

… e o povo que há de ser criado louvará o Senhor.

Virão novos céus e novas terras. E Deus criará um povo novo, descendente de Adão e Eva, passando por nós, evidentemente. Será um povo novo porque possuirá o espírito e a mentalidade de Maria Santíssima, conforme explica São Luís de Montfort. Este povo renderá ao Criador uma glória e um louvor incomparáveis.

Razão pela qual costumamos rezar antes de nossas reuniões: “Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae” — Enviai vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da Terra”. No fundo de nossas almas queremos dizer: “Ó Deus, nada se resolverá nem se arranjará enquanto não mandardes vosso espírito, e as coisas serão criadas, ou seja, os homens que faltam. Somos tão poucos, Senhor, e como contra-revolucionários, constituímos uma maravilha da obra de vossas mãos. Mas que maravilha pequena diante do monstro tremendo — a Revolução — que, com vossa permissão, vai esmagando tudo quanto tem vida. Que venham dos quatro cantos do mundo todos aqueles que desejam a derrota do Baal contemporâneo e a vitória da Igreja de Jesus Cristo.”

E a face da Terra ficará renovada. De face rugosa e feia, com pele envelhecida por toda espécie de fumos e vícios, passará ela a ter o brilho da juventude. Será uma Terra nova, a Terra de Maria.

“Eis vossa Mãe; vivei no Reino de Maria!”

Porque olhou do alto do seu santuário: o Senhor olhou do Céu sobre a Terra.

Também este versículo pode ser aplicado ao Reino de Maria. 

Do alto do seu santuário, ou seja, da glória celestial, Deus olhou com amor sobre a Terra. Isso nos remonta à criação do universo, quando Ele considerou cada uma de suas obras e constatou que eram boas, mas o conjunto melhor. E depois descansou. Assim também o Criador olhará sobre o Reino de Maria, notará que cada indivíduo será bom, e o conjunto ainda melhor.

Imaginemos, por exemplo, um jogo cujo tabuleiro seja de mármore, as peças de bronze, de pedra preciosa ou qualquer outro metal de valor. Tudo isso é bonito. Entretanto, mais belo será o fato de as pedras estarem dispostas em ordem sobre o tabuleiro, pois então discerniremos o esplendor do conjunto. E se alguém nos explicar as regras do jogo, entenderemos a beleza do xadrez, inventado por um homem desconhecido mas genial.

E ainda mais belo que o conjunto físico das peças é o plano, a idéia, a intenção. Assim, ao instituir o Reino de Maria, Deus tem um desígnio: manifestar o carinho e o afeto que devota à sua Mãe, e tributar uma glória Àquela que, sozinha, vale a criação inteira, excetuando a natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, Ele restaura este mundo e o entrega a Maria: “Tomai conta de tudo isso que é vosso”. E, repetindo as palavras do Redentor no alto da Cruz, referindo-se a nós, acrescentará: “Eis vossos filhos”. E se dirigindo aos homens: “Eis vossa Mãe. Vivei no Reino de Maria!”

A libertação dos que gemem sob a Revolução

Para ouvir os gemidos dos encarcerados, para libertar os filhos dos condenados à morte.

Considerando o mundo atual, Deus viu que os condenados à morte, ou seja, à ruína, ao Inferno, estavam gemendo. Porém, no meio deles havia justos; o Altíssimo os fitou também, e interveio na situação. Assim, tudo começou a reflorescer.

Esses fiéis gemem no cárcere. E que prisão mais parecida com a descrita pelo Salmista do que o século revolucionário em que vivemos?

Quanto mais nos é dada a possibilidade de usar veículos rápidos e seguros, tanto mais nos iludimos de que somos livres. Mas, na realidade, dentro deles o homem está num cárcere, pois se acha imerso numa civilização que não é cristã e da qual não se pode libertar, uma vez que ela se estabeleceu por toda parte. De uma ponta à outra do planeta, onde há homens, encontramos uma maioria entregue à Revolução.

Isto é ou não um cárcere?

Deus, portanto, olhará para seus filhos que O amam e perceberá o pranto deles, por se encontrarem nessa prisão. O Criador quebrará o cárcere e os libertará por meio de grande intervenção nos acontecimentos, dando início ao Reino de Maria.

A fim de que anunciem em Sião o nome do Senhor, e o seu louvor em Jerusalém.

Esse rompimento da cadeia tem uma superior finalidade.

Deus não a executa para que os homens continuem a gozar a vida, como fazem hoje, e sim para que anunciem o nome do Senhor em Sião — quer dizer, na Terra Santa, que significa também a Igreja, estendida por todo o mundo. Esses justos deverão louvar o Criador por tê-los libertado do cárcere, que é a Revolução.

Quando se juntarem os povos e os reis para servirem ao Senhor.

E temos aqui uma bela definição desse Reino de Maria tão ansiado pelos homens fiéis: será a época em que os povos e os reis se unirão para servir a Deus.

“Não me chames na metade dos meus dias…”

Disse-lhe na expansão da sua força: manifesta-se o curto número dos meus dias.

O salmista parece ter pressentimento de que sua morte não está distante, e compreende o efêmero da glória terrena, cuja duração não é ilimitada como nós quereríamos. Então pede a Deus que lhe imprima na alma essa noção: mesmo as coisas magníficas passam, como todas as demais nesta vida. Só Deus e o Céu são eternos. Eterno também é o Inferno.

E a prece dele é esta: “Manifesta-me, ó Deus, o curto número dos meus dias. Faz-me ver como tudo nesse mundo é relativamente rápido.

Não me chames na metade dos meus dias…

Este versículo encerra particular beleza. Alguém poderia cogitar: “É possível, ó Deus, que eu, estando dentro do cárcere, ou seja, da Revolução, meditando sobre os vossos Salmos, tenha um vislumbre dos dias magníficos que virão. E, não sendo imprevidente, compreendo que posso pecar de novo e vossa cólera cair sobre mim, tirando-me a vida”. Então ele faz um pedido: “Não me chames na metade dos meus dias”.

“Chamar” significa, evidentemente, arrebatar pela morte, e os “meus dias”, a minha vida. Portanto, tendo consciência de que pode tornar a pecar, ele pede a Deus que não o leve deste mundo na hora em que esteja pecando, pois isto seria como que lhe cortar seus dias pela metade. O pecador suplica a clemência divina: “Vós sois tão grande, poderoso, imenso, não tivestes início e não tereis fim! Vede quanto sou pequeno, minha vida é passageira e em mim tudo é tão fraco, Senhor! Não corteis minha vida pela metade, embora eu mereça. Tende pena da fraqueza do homem que Vós criastes!”

Só Deus permanece eternamente

… os teus anos se estendem de geração em geração.

Para falar da eternidade de Deus, o Salmista emprega esta linda frase. Quer dizer, as gerações passam, só Ele é eterno e absoluto. Então, diante de tanta magnitude, o pecador poderia retomar a expressão camoniana: “Tende pena deste verme da terra tão pequeno”

No princípio, Senhor, fundastes a Terra, e os Céus são a obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas Tu permanecerás…

A palavra “eles” se refere aos pecadores, que talvez pareçam muito importantes, mas morrerão. Somente Deus permanecerá para sempre.

Essa verdade pode ser constatada em certos monumentos a grandes homens (ou que foram imaginados como tais pelos pequenos). Por exemplo, na bela Abadia de Westminster, em Londres, de estilo gótico, fizeram algo a meu ver de muito mau gosto: a fim de rememorar supostos grandes homens da Igreja anglicana, aplicaram nas suas paredes internas uma série de esculturas que representam esses personagens praticando determinado gesto, considerado o culminante de sua vida.

Aquela série de figuras, dispostas de um lado e de outro, causam a impressão de agitação, de efêmero, de vazio. Bem acima dessas esculturas há lindas ogivas, fazendo-nos sentir tranqüilidade, e como que nos dizendo: “Os homens são esse amontoado de pedra; Tu, ó Deus, permanecerás eternamente!”

… todos eles envelhecerão como um vestido.

Que linda comparação: “envelhecerão como um vestido”!

Todos os trajes, por mais magníficos que sejam, envelhecem e se tornam trapos. Deus, porém, é o único perene e eterno.

E como roupa os mudarás, e serão mudados.

Quer dizer, Deus substitui os homens, instrumentos para sua ação, como se muda de roupa. Ele põe de lado um e escolhe outro para agir melhor. Quando alguém não corresponde à graça, ele muitas vezes o descarta — embora o conserve vivo — e elege outro. E este último surge com passos a ecoarem um bonito som, solene, nobre, marca a História, tudo se inclina diante dele. O novo escolhido prossegue sempre fiel na caminhada que Deus lhe indicou, até o dia em que sua alma sobe ao Céu. A existência humana, em sua trajetória, apresenta vários episódios como esse.

Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos não terão fim.

Sobre os católicos dos últimos tempos, pela sua fidelidade, poder-se-á dizer: “Vós sereis sempre os mesmos e vossos anos não terão fim, pois serão conduzidos ao Céu e ali não haverá mais mudança para vós, nem morte. Vivereis eternamente”. É o final da História.

Servos fiéis a Deus e a Nossa Senhora

Os filhos dos teus servos habitarão, e a sua posteridade será estável para sempre.

Segundo algumas traduções, esses filhos “habitarão seguros em Jerusalém”.

Mais uma vez, é interessante estabelecermos um paralelo entre a situação descrita pelo Salmista e a dos católicos em nossos dias. Assim, servos de Deus são os que se consagram ao serviço d’Ele, como o fazemos em nosso movimento. Somos servos do Altíssimo, e nos gloriamos de o sermos também de Maria.

Além de servos, o Rei David fala em filhos. E na linha das analogias, nós somos também filhos de Nossa Senhora. São Luís Grignion de Montfort chega a falar da raça da Virgem. Evidentemente não no sentido físico da palavra, mas no de estirpe intelectual, moral, sobrenatural, nos mais altos e nobres significados que o termo comporte. Esses “habitarão”, quer dizer, vivendo nesta Terra, ainda que às vezes perseguidos e execrados, permanecerão fiéis a Deus.

Com a alma posta na esperança de perseverarmos nessa fidelidade de filhos e servos de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima, concluímos nossas considerações sobre o belo Salmo 101. (Revista Dr. Plinio, Abril/2005, n. 85, p. 10 a 15).