Fale conosco
 
 
Receba nossos boletins
 
 
 
Artigos


Plinio Corrêa de Oliveira


Felicidade e temperança
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 12/09/2019
 
Decrease Increase
Texto
Solo lectura
0
0
 
Se esta vida é um "vale de lágrimas", o homem está fadado a ser continuamente infeliz? Ou deve, pelo contrário, procurar sempre o divertimento? De modo magistral, Dr. Plinio analisa o delicado equilíbrio entre essas duas posturas extremas, em reunião dedicada a comentar o interessante livro de Marcel Brion — "A vida quotidiana em Viena nos tempos de Mozart e de Schubert".

Fazenda brasileira no tempo do Império, onde a vida corria serena e feliz

O tema dessa exposição me foi sugerido por este pensamento exarado na obra de Brion: “Uma época que se diverte é sempre, em grau maior ou menor, uma época inquieta, pois a procura desenfreada do prazer corresponde, conscientemente ou não, ao desejo de fazer emudecer uma inquietação lancinante”.

A meu ver, apesar de excelente escritor e membro da Academia Francesa, algo claudica nessa afirmação de Brion.

Ele deveria dizer que uma sociedade que se diverte desenfreadamente, esta sim oculta uma tristeza lancinante, uma inquietação dolorosa.

Esse seria o pensamento verdadeiro. O simples divertir-se, o ter um lazer de vez em quando, não configura uma sociedade triste.

Uma falsa filosofia de vida 

Creio, porém, haver muita gente adepta de uma filosofia de vida segundo a qual “só o divertir-se é realmente agradável”. Essa gente ou se diverte ou trabalha. Como um trabalho sério é sempre penoso e, portanto, desagradável, não se pode chamá-lo de autêntica fonte de entretenimento. Fora dessas duas alternativas, há o repouso insípido, sem nenhuma graça.

De maneira que, para tais pessoas, a única forma de alegria possível nesta vida se encontra na diversão, a qual, quanto mais intensa, mais felicidade proporcionará. Tomadas por essa idéia equivocada, correm malucamente atrás dos divertimentos.

Ainda segundo essa concepção, deve-se aceitar a infelicidade por amor ao Céu, por amor a Deus Nosso Senhor, por temor do inferno. Mas, a vida morigerada, regular, sem maiores folguedos, não é uma vida que traga alegria, pois esta só se acha na diversão.

Existe a felicidade neste vale de lágrimas?

Podemos nos perguntar se realmente essa mentalidade tem razão de ser, e se o prazer que se alcança nas recreações é idêntico à felicidade.

Para resolver esta questão, não deve alguém se satisfazer com o seguinte pensamento piedoso: “Doutor Plinio, a felicidade não existe neste vale de lágrimas. O homem aqui é perpetuamente infeliz. Ele sai de um infortúnio para cair em outro, e no seu caminho só encontra tristeza, achaques e dores”.

Essa idéia é uma meia-verdade e, portanto, um meio-erro. De acordo com São Tomás de Aquino, o homem precisa ter na sua existência algo, por menor que seja, capaz de lhe proporcionar algum prazer. Se imaginássemos um homem sem um grão de felicidade, ele morreria.

E a Providência Divina, materna e bondosa, permite duas coisas: primeiro, que a grande maioria dos homens possua ao menos uma parcela de felicidade (não inteira, pois esta não existe mesmo neste mundo). De outro lado, também dispõe que aqueles aos quais Ela mais ama passem por períodos inteiramente áridos, sem qualquer forma de alegria. São as grandes horas da vida de um homem: quando se faz “noite”, todo contentamento desaparece — inclusive a consolação sobrenatural — e se entra no túnel obscuro, plumbeamente pesado de uma infelicidade imensa.

Mas os males críticos, muito agudos, não duram. Ou conduzem à morte, ou passam logo. Assim também é preciso ver essas partes trágicas da existência como permitidas por uma disposição especial da Providência, em geral com pouca duração.

Portanto, em algo o homem precisa ter um fragmento de felicidade. Então, é preciso perguntar se essa parcela de alegria se identifica com o prazer, e qual seria o papel deste na posse daquela.

Numa tentativa de resposta, acredito que há fases da história de certos povos, de certas civilizações, em que o prazer é tão excepcional na vida, e o divertimento é tão pouco freqüente, que se diria não existirem. São duas ou três festas por ano, de qualquer natureza, e, fora disso, as pessoas não se divertem.

Alguém pode ser feliz assim? Pode. Desde que compreenda bem a sua situação, e saiba encontrar a felicidade que ela lhe proporciona.

A felicidade de um fazendeiro dos antigos tempos

Considere-se, por exemplo, a vida de um fazendeiro brasileiro no tempo do Império (falo do Brasil, mas é evidente que situações análogas se dão em outros povos, em outras circunstâncias). Como era o quotidiano desse fazendeiro e de sua família?

Em geral, vivia numa casa de fazenda confortável, segundo as necessidades e conveniências dele. Estava separado da cidade próxima por algumas léguas de estrada difícil de percorrer, e na qual, não raras vezes, corria-se o perigo de ser assaltado, sofrer emboscadas dos capangas de um inimigo político, etc. Assim, esse homem tinha tendência a se isolar na própria fazenda, desfrutando ali da placidez de sua existência rural.

Duas ou três grandes diversões por ano lhe bastavam. Havia a festa da Novena do Padroeiro da Matriz, ocasião em que se dirigia com toda a família para a cidade. O evento comportava atos de piedade de gala, as pessoas se apresentavam trajadas com suas melhores roupas, e nas saídas os encontros tomavam um caráter de reunião, senão necessariamente mundana, pelo menos social.

Depois, havia também casamentos de parentes ou algum batizado, dando lugar a mais celebrações e festejos sociais.

Qual era, pois, a felicidade de um fazendeiro nessa vida campesina?

Era a alegria de exercer a sua atividade, conferindo a ela os vários caracteres de que toda ação simultaneamente deve estar cercada. Em primeiro lugar, vinha o interesse e o prazer natural da ocupação agrícola: o plantio e desenvolvimento da safra, dirigir os homens na colheita, guardar, fazer o plano de uma melhoria para o ano seguinte, etc. Isso significava, em escala muito pequena, reinar. De fato, o fazendeiro era muito mais rei da sua fazenda do que o prefeito do município onde ela se incrustava. O verdadeiro soberanozinho era ele.

Ora, esse pequeno papel governativo que o individuo exercia na sua fazenda, era uma função que podia propiciar deleite, por uma vida inteira, a um homem equilibrado, sensato e temperante.

Ao lado disso, ele tinha o prazer de ser o patriarca do lugar. Quer dizer, o homem em torno do qual se compõe a vida da fazenda. Era o líder natural, que, naquele tempo, dava um conselho para a família dos seus subordinados, colonos e administradores, conforme as mais diversas situações: sobre a educação dos filhos, na receita para curar uma doença, sobre o curandeiro que passou, acerca do modo de tratarem das próprias terras, ou sobre qualquer problema para o qual lhe iam solicitar ajuda. Enfim, para lembrar a distinção que fazem os ingleses, o fazendeiro não governava apenas, mas também reinava. Ele era a chave da cúpula simbólica da vida da fazenda. E ser detentor dessa condição naquela comunidade, pelo interesse que tem cada alma para a família humana, era de molde a distrair e causar felicidade a um homem que entendia bem as coisas.

De mais a mais, naquele pequeno local onde ele existia, o fazendeiro auferia um dos reais prazeres que a vida pode conceder a alguém: o de receber o legítimo respeito e a consideração proporcionais à função que ele desempenha.

Ser acatado não só pelos seus subalternos, mais igualmente pelos seus mais próximos. Com efeito, ele estava cercado por sua família que, dentro da fazenda, constituía um outro reinozinho dele. Os filhos lhe eram muito obedientes e respeitadores no mais alto grau.

Quando visitava a cidade vizinha, ele entrava na frente, seguido pela sua “corte”. Era o Senhor de tal engenho, o dono de tal fazenda que chegava, e o prestígio que o impunha na metropolezinha, era a repercussão do prestígio que granjeara na sua propriedade. Ora, como as cidades viviam em função do campo e todas elas estavam penetradas pela vida da agricultura, transformavam-se numa espécie de súmula e ao mesmo tempo de apêndice de todas as fazendas das redondezas. De maneira que o nosso personagem entrava lá “cantando de galo”…

Dirigia-se à casa do compadre (e ser compadre naqueles tempos era algo muito mais sério do que hoje) onde ficaria hospedado, e se apresentava dizendo: “Ó compadre, como vai Mecê?”

Propalava-se rapidamente na cidade a notícia de que ele havia chegado. E os importantes do lugar o vinham visitar, cumprimentar, fazer política — porque ele era dono dos votos dos seus colonos, e, portanto, um inapreciável cabo eleitoral.

Toda essa influência lhe outorgava uma certa autoridade quando ele visitava a capital da Província. Então era ali recebido pelo governador, conversava com algum deputado importante e, se fosse em São Paulo, com tal professor da Faculdade de Direito que lhe dava audiência. De volta ao seu pequeno feudo, ele não poupava comentários sobre a sua viagem, o que apenas reforçava o seu prestígio local.

Características da verdadeira felicidade

Ora, um homem que sabe compreender essas coisas, sabe degustar o que elas têm de legítimo, e vive dessa degustação temperante. É um homem em cuja vida a felicidade, e não a diversão, ocupa um bom papel. Ele tem uma forma de alegria que não é a do prazer desenfreado.

Quais são as características dessa felicidade?

Antes de tudo, é sumamente razoável. Em segundo lugar, ela cria e interpõe a temperança, e por isso mesmo só pode ser degustada por um indivíduo temperante. Neste não há as ânsias, os delírios, as inquietações e agitações que dominam o homem moderno. Os episódios da vida de uma pessoa temperante procedem da calma, e a mantêm serena. Conduzem-na a uma sensação de harmonia, de equilíbrio, de abastança, e a fazem se sentir segura e tranqüila sobre si mesma.

Tome-se, por exemplo, a existência de um pequeno comerciante do início do século [XX]. A ele se poderia aplicar o que dissemos sobre o fazendeiro do tempo do Império, ambos imbuídos dessa temperante disposição de alma. Figura característica desse homem de comércio, profundamente tranqüilo, sereno e equilibrado seria, a meu ver, o Monsieur Martin, pai de Santa Teresinha.

Na modesta cidade de Alençon, de nome lindo como uma música, ele era relojoeiro, vendendo suas peças que não deviam ser lá grandes maravilhas da ourivesaria. Seja como for, com honestidade e probidade ele reuniu um bom pecúlio. A certa altura da vida encerrou seu comércio, tinha suficiente dinheiro para viver de renda e se retirou da atividade comercial. Construiu seus Buissonnets, um poema da graça miúda da pequeno-burguesia, e viveu na tranqüilidade daquela fisionomia magnífica de paz, de estabilidade e equilíbrio de alma que ele tinha.

Ele vivera uma existência na qual o prazer representara pouco. Mas as pessoas eram educadas pelo ambiente para gostar dessa forma de felicidade.

A chave do problema está na temperança

Essa degustação das situações, esse deleite morigerado constitui propriamente a felicidade, da qual não se exclui o prazer como se este lhe fosse contrário. Antes, é como um tempero, um sal que confere à alegria um certo sabor. Porque uma vida dessas, à la longue, pode se tornar um tanto sensaborona. Faz parte da mutabilidade do espírito humano que ele queira, de vez em quando, certa variedade. E é concebível que ele deseje um prazer honesto o qual, portanto, não se opõe à felicidade.

A chave da questão está, então, no problema da temperança.

Com efeito, se o indivíduo é temperante, é capaz de degustar a situação legítima em que se acha e de nela encontrar felicidade. Se é ou se deixa tornar intemperante, ele corre atrás dos prazeres e das sensações. Correndo atrás destes, ele volta à estaca zero.

É próprio do espírito “hollywoodiano” o ter transformado em uma fonte de prazer intemperante até mesmo as coisas que, de si, não são deleitosas.

O alemão típico, por exemplo, encontra a felicidade no trabalho intenso, mas calmo. O estilo “hollywoodiano” busca o prazer no trabalho agitadíssimo, que produz como que uma embriaguez da realização. O antigo turista europeu se comprazia numa viagem ponderada, equilibrada, tranqüila. O turista americano, segundo a imagem convencional, tem gosto em devorar as distâncias e em se intoxicar de sensações sucessivas que ele não é capaz de digerir.

Febricitação, oposto da temperança e da felicidade

Essa última mentalidade, ao invés de se caracterizar pela temperança, é marcada pela febricitação. Ou seja, a mania de estar imerso continuamente nas sensações fortes e de não querer viver na placidez de uma vida ordenada e comum.

Essa mania é a extensão lógica da sede do prazer para a apetência de outras sensações em outros terrenos da vida, que criam o estilo do existir contemporâneo. É uma corrida atrás das sensações a propósito de tudo e de nada. Enquanto o homem temperante se defende delas, o intemperante vive apenas perseguindo-as e tentando sugá-las a todo custo.

Daí nascem, em larga medida, o desequilíbrio da sociedade hodierna, e a pseudo-alegria que uma pessoa do interior encontra quando chega na cidade grande, deslumbrando-se com as sensações fortes que esta lhe promete. Ainda que seja a emoção de quase se ver atropelado num acidente de automóvel.

Ela volta para a sua cidadezinha e começa a contar na praça pública como esteve num lugar onde os automóveis correm tão depressa que ela só faltou morrer debaixo de um. Para ela, esse perigo de vida pareceu bonito, e se comprouve não só em senti-lo, como também em contar que o sentiu, para participar a sensação aos outros, como se lhes estivesse oferecendo a degustação de um vinho capitoso.

Essa é a febricitação, da qual o homem do nosso tempo se tornou quase um escravo.

O “Ângelus” de Millet

O contrário desse estado de espírito agitado pode ser compreendido na consideração de uma pintura célebre — o “Ângelus”, de Millet.

O que esse grande artista quis exprimir (talvez de modo um tanto romântico) no seu quadro é a felicidade calma e tranqüila, sem as intemperanças do prazer desenfreado.

É a imensa serenidade do campo, do trabalho que terminou, do “Ângelus” que está tilintando no sino da igreja próxima; do casal que reza na castidade da vida agrícola, com os trajes rurais e com os instrumentos de sua labuta diária. E que, naquela calma bucólica, voltará para casa onde logo o jantar será servido.

Enquanto a mulher se dirige à cozinha, o homem se põe a descansar um pouco, sentindo o cheio da comida que começa a tomar as exíguas dependências do seu modesto lar, observando o teto de colmo e a fumaça que sobe pela chaminé; ouvindo o barulho de um pássaro que procura um pouso, ou uma criancinha que faz suas últimas piruetas antes de dormir.

Vem a noite, e com ela aquela segurança dentro da casa, enquanto a existência noturna da natureza impera em volta dela. É a alegria, a felicidade das situações.

Creio que todo homem lucraria muito em inalar essa felicidade, essa tranqüilidade de quem leva uma existência normal, calma, sem sensações, de uma atividade fecunda, enriquecida pela vida de oração. Assim como creio que é infeliz o indivíduo intoxicado pela posição de espírito oposta. (Revista Dr. Plinio, Dezembro/2003, n. 69, pp. 18 a 23).