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Plinio Corrêa de Oliveira


Força, bondade, contemplação
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 16/09/2019
 
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Dos meus recuados tempos de aluno do Colégio São Luís conservo ainda certa lembrança de uma pitoresca descrição, comentada e analisada na aula de literatura portuguesa. Trata-se de uma cena da história lusitana, em algo enriquecida pelo grande estro do escritor que a tornou merecedora de figurar em todas as antologias daquele tempo.

O Rei Dom João I havia feito a promessa de construir um imponente mosteiro, caso lograsse a vitória em decisiva batalha para o futuro de Portugal. Seu exército tendo triunfado, ele se empenhou no cumprimento do voto que fizera. O edifício já estava quase terminado, faltando apenas retirar as estacas que sustentavam a imensa cúpula armada. Outras haviam ruído no fatídico momento, porque, dizia-se, não tinham sido levantadas conforme a planta original, desenhada por um velho arquiteto, agora cego. Esse valoroso mestre, antigo amigo do monarca, insistiu para que erguessem mais uma vez a cúpula, obedecendo em tudo às suas diretrizes.

— A abóbada não cairá! — afirmava ele com todas as veras de seu intrépido coração.

E para garanti-lo, tomou a arriscada decisão de permanecer sentado embaixo da abóbada, enquanto os andaimes e escoras eram retirados. Debalde os seus conhecidos, e até o próprio Rei Dom João, procuraram demovê-lo de atitude tão temerária. Como outro herói de legenda lusitana, ali ficou, mudo e calmo, confiante na sua obra, prestando ouvidos ao que se passava. À medida que as armações de madeira iam sendo deslocadas, o barulho diminuía, e assim ele, privado das vistas, percebia que o momento crucial se aproximava. Afinal, fez-se silêncio, e uma ansiosa expectativa estremeceu o espírito de todos ali presentes…

A abóbada não caiu. Era a glorificação dele. Do seu talento, sem dúvida. Porém, glorificação ainda maior dessa qualidade que tanto o distinguia — a coragem.

Décadas depois de me encantar com essa passagem antológica, visitei meu Portugal avoengo. E aquele fato me veio novamente ao espírito quando um dos meus amáveis anfitriões propôs de irmos conhecer o glorioso Mosteiro da Batalha. Sem hesitar, aceitei o convite.

Habituado a ver as catedrais e outros edifícios religiosos erguidos dentro das cidades, pensava eu que o nosso automóvel entraria num centro urbano qualquer, e encostaria ao lado do Mosteiro. Qual não foi minha surpresa quando, à certa altura do percurso, vejo ao longe levantar-se num campo raso (como o era naquela época), de chão batido, não cultivado, aquele monumento colossal!

A primeira impressão que ele desperta em nós é a de uma maravilhosa façanha no gênero da arquitetura, que somente foi possível de se tornar realidade porque construída por um povo entranhadamente católico. Difícil não se notar nele um reflexo da própria alma portuguesa, na sua condição de batizada, devota, fiel a Nossa Senhora e, portanto, repleta das graças que Deus concede aos povos que O servem com intenso e fervoroso amor.

Impossível não discernir, também, naquelas paredes lavoradas com esmero, naquelas arcarias e torres ogivais, a robustez lusitana. É uma nação forte, que se compraz em fazer força. Assim foram todos os seus grandes varões de seu grande passado histórico, vigorosos e empreendedores de extraordinárias proezas, e assim é aquele Mosteiro, no qual proeza e vigor estão representados de maneira estupenda. A tal ponto que, se construíssem à sua volta uma muralha, ele poderia ser tido por um magnífico castelo feudal.

Por outro lado, essa alma portuguesa, tão forte, é igualmente muito bondosa, voltada a querer bem e que se agrada com essa benevolência. Ao encontrar um próximo em quem pode confiar, fica satisfeita, contente, dilata-se, expande a sua generosidade e seu desejo de ajudar. Ora, essa bela qualidade de espírito também se acha muito refletida no Mosteiro da Batalha. É um edifício protetor, no qual sentimos a presença de um Deus que nos ama e nos ampara, que gosta de nos amar e de ser amado por nós.

E no seu interior, a par da força expressa nas suas colunas, da bondade acolhedora sob suas ogivas, do recolhimento e respeito que nos tomam debaixo de suas abóbadas, vamos encontrar nas irisações suaves dos seus vitrais, na luz especial que coa por toda a parte, uma resplendente cintilação da calma e do caráter contemplativo do espírito português.

Breve, no seu esplendoroso conjunto, o Mosteiro da Batalha é um símbolo fabuloso daquela grandeza de ideal que soía mover os nossos valorosos antepassados lusitanos — no célebre dizer de Camões — a mais cristãos atrevimentos…! (Revista Dr. Plinio, Janeiro/2004, n. 70, p. 32 a 35).

 
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