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Plinio Corrêa de Oliveira


O inestimável tesouro da oração
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 31/07/2019
 
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No dia 1º de agosto a liturgia católica festeja Santo Afonso Maria de Ligório, Fundador dos Padres Redentoristas, Doutor da Igreja e autor de renomadas obras sobre moral, muitas voltadas especialmente para a orientação de Confessores. Entre as que dedicou ao comum dos fiéis, há uma admirável — “A Oração, o grande meio da salvação” —, apreciada de modo particular por Dr. Plinio, que, nos idos de 1957, acerca dela teceu diversos e luminosos comentários.

Ao tratar da oração, Santo Afonso de Ligório não o faz à maneira de um teólogo que ensinará a respeito dela tudo quanto é possível. Ele escreve como diretor de consciências, mostrando o precioso proveito a se tirar da oração na vida espiritual.

Acompanhando seu ensinamento, vemo-lo constantemente em face de uma determinada situação espiritual, não enunciada, mas que devemos conhecer com toda a clareza. É o que poderíamos chamar o encalhe.

Com efeito, na vida de piedade existe o encalhe e, depois, o desencalhe. Sabe-se bem o que significa encalhar. Por exemplo, um automóvel encalha quando encontra qualquer obstáculo que o impede de andar, ou quando sofre algum tipo de avaria interna, falta de combustível, etc.

A idolatria na Antiguidade, um “encalhe”

Inúmeras almas encalham na vida espiritual, em qualquer estágio dela, às vezes de um modo completo, e até aparentemente irrremediável. O mais prodigioso exemplo de encalhe espiritual verificou-se, a meu ver, com a idolatria nos povos antigos.

O célebre pregador francês Bossuet, ao se referir à situação do mundo naquele período, invectiva a crença idólatra como um defeito grosseiro e um erro evidente praticado por aquelas populações. Os antigos estavam profundamente aferrados a esse erro, não obstante possuírem muitos deles uma inteligência privilegiada, como os gregos e os romanos.

Não que a razão humana não fosse bastante forte para perceber o erro da idolatria. Prova-o as diversas vozes discordantes dela, entre as quais Sócrates, Aristóteles e Platão. Contudo, esses três homens, dos mais inteligentes de todos os tempos, falando para um povo também dos mais sábios do mundo, renunciaram a abolir esse mal, por considerar que o povo estava encalhado na idolatria.

Isso é o que notamos no encalhe da vida espiritual: há todas as possibilidades para se ver o erro em que se caiu, mas as pessoas estão enraigadas no apego a ele. Não existem argumentos nem recursos que obtenham resultados, por causa de um ponto encalhado.

Em contrapartida, o cristianismo é o exemplo do maior desencalhe da História. Depois da vinda de Nosso Senhor, homens menos inteligentes, dirigindo-se a povos por vezes menos favorecidos no tocante à inteligência, lograram vencer com facilidade a idolatria. De modo repentino, porque entrou um fator novo diferente de todos os anteriores, eles desencalharam.

Temos então, na idolatria e no cristianismo, casos coletivos de encalhe e desencalhe.

Características do “encalhe” espiritual

O que propriamente caracteriza um encalhado na vida espiritual é o fato de ele se recusar a sair do erro em que se encontra preso. Alguém pode ter um defeito, mas se empenha na atitude de o deixar, acatando os conselhos que lhe dão nesse sentido. Este indivíduo não deve ser tido como um encalhado.

Pelo contrário, a vítima do encalhe é aquela que toma em relação ao seu defeito um apego tal que não quer abrir mão dele, apesar de todas as admoestações e orientações que receba. Esse defeito não será, necessariamente, um pecado mortal. É uma falta venial ou uma mera imperfeição. Mas, à medida que a pessoa não quer renunciar àquele ponto, ela estagna.

Por isso a vida espiritual é semelhante a uma montanha em cuja encosta se pode encalhar, a qualquer altura. Há quem pare num ponto muito elevado dela. Não raro, quanto maior a altitude alcançada, tanto menor a bagatela pela qual se fica preso. Dir-se-ia existir uma espécie de enfermidade das alturas, pois o indivíduo que não se deixou encalhar por medo de leões, detém-se por causa de uma borboleta. É uma forma de vertigem na vida espiritual, um tremendo complexo contra o qual é preciso se defender com dez mil cuidados.

Às vezes, uma pessoa que renunciou a tudo julga-se muito engraçada e se toma de apego pelos gracejos que prodigaliza. Noutros casos, o homem se apega ao que não tem. Por exemplo, um grande jurista com mania de ser poeta, tem pouco ou nenhum apego por seu saber jurídico, mas vive com receios de que não o reconheçam como autor de versos inspirados. Nasce daí a vaidade, vem o encalhe…

O salutar e valioso remédio da oração

Posto, então, diante desse problema que se apresenta na vida espiritual de incontáveis almas, Santo Afonso faz uma afirmação bem característica no começo do seu livro, indicando um elemento para a sua solução. Escreve ele: Vejo que os cristãos pouco cuidam de empregar este grande meio de salvação [que é a oração]. E, o que ainda mais me aflige…. é ver que os pregadores e confessores tampouco recomendam a oração a seus ouvintes e penitentes. E mesmo os livros espirituais que hoje em dia correm pelas mãos dos fiéis não tratam suficientemente desse assunto, quando é certo que todos os pregadores e confessores e todos os livros outra coisa não deveriam incutir, com mais empenho e afinco, do que a necessidade de orar. Ensinam eles às almas  tantos meios de se conservar na graça de Deus, como fugir das ocasiões, freqüentar os sacramentos, resistir às tentações, ouvir a palavra de Deus, meditar as máximas eternas e outros meios. Todos eles são certamente utilíssimos, mas, digo eu, de que valem as prédicas, as meditações e todos os outros meios aconselhados pelos mestres espirituais, se falta a oração, quando é certo que o Senhor diz não conceder graças senão a quem pedir? “Petite et accipietis: Pedi e recebereis”. Sem a oração (falando segundo a providência ordinária) serão inúteis todas as meditações que se fazem, todos os propósitos e todas as promessas. Se não orarmos, seremos sempre infiéis a todas as luzes d’Ele recebidas e a todas as nossas promessas. (…)

Eu quisera, caro leitor, antes de tudo que vou escrever aqui, explicar este meu sentimento, para que agradeçais ao Senhor, o qual, por meio deste meu livrinho, dá a graça de fazer a oração com maior entendimento e conhecimento deste grande meio de salvação que temos, pois todos os que se salvam, falando dos adultos, ordinariamente se salvam por este único meio.¹

A oração é, portanto, o mais seguro caminho que nos conduz à salvação. E o primeiro fundamento para compreendermos este valor da oração, no plano da Providência, é considerar como Deus deseja ser, Ele mesmo, o nosso Cireneu.

Com efeito, Nosso Senhor Jesus Cristo aceitou sofrimentos superabundantes para nos salvar na Cruz. Mas, Ele quis dar ao homem a possibilidade de se associar a esses padecimentos, completando o que era necessário por meio do sacrifício de cada um. É o papel da expiação que forma o tesouro da Igreja, Corpo místico de Cristo. Assim, se Deus quis que fôssemos os cireneus d’Ele, também quer ser o nosso divino Cireneu.

Ele não é, portanto, um estranho na nossa vida. Ele, fonte de toda a consolação, quer entrar em nossa existência pessoal, tomando parte nela a pedido nosso, ajudando-nos, tanto em nossas necessidades espirituais quanto nas terrenas. Seria mesmo compreensível que alguém fizesse uma imagem de um homem carregando a cruz, auxiliado por Nosso Senhor, como outro Simão Cireneu.

Sim, Ele é um Cireneu que nunca nos abandona. E se nalgum momento deixa a Cruz pesar em nossos ombros, é para nosso bem, a fim de que alcancemos méritos e frutos para o Céu.

Devemos, pois, nos compenetrar dessa confortadora verdade: Deus é o nosso Cireneu infinitamente afável, infinitamente misericordioso, disposto a nos socorrer e amparar sempre. Para isso, basta o nosso pedido, ou seja, a nossa oração.

Preparar o espírito, antes da oração

E como fazer para adquirir o valioso hábito da oração?

Antes de rezarmos é preciso preparar o espírito, colocando-o diante das verdades que fazem com que nossa prece tenha alimento, do contrário será completamente mecanizada.

Então, um ponto de nosso exame de consciência seria preguntar se preparamos o nosso espírito para a oração, considerando os motivos pelos quais se reza bem. Por exemplo, tendo presente que Deus sabe como nos modificar e tem a força para fazê-lo. Que Ele nos transformará, desde que peçamos. E que a condição para o nosso pedido ser atendido é a importunidade, virtude evangélica tão recomendada por Nosso Senhor:

Se algum de vós tiver um amigo, e for ter com ele à meia-noite e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, porque um meu amigo acaba de chegar à minha casa de viagem e não tenho nada que lhe dar; e ele, respondendo lá de dentro, disser: Não me sejas importuno, a porta já está fechada, os meus filhos estão deitados comigo; não me posso levantar para te dar coisa alguma. Se o outro perseverar em bater, digo-vos que, ainda que ele se não levantasse a dar-lhos, por ser amigo, certamente pela sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães precisar (Lc 11,5-8).

Esta é a imagem d’Ele mesmo, querendo ser importunado e pedindo de nós, não o que alguns dizem: “reze pouco, mas reze bem”, mas o contrário: “reze como puder e reze
muito, seja maçante, reclame, e se Deus demorar em atender, peça ainda mais, porque Ele acabará atendendo com uma generosidade maior!”

Ora, se eu, antes de rezar, lembro-me bem que Nosso Senhor quer e sabe como me curar, e que a condição é ser importuno, eu preciso pedir muito. E fazê-lo por meio de
Nossa Senhora, pois através d’Ela realmente obtemos tudo.

Deus deseja nos fazer o bem

Além disso, é muito proveitoso tomarmos os trechos do Evangelho a respeito da oração — Nosso Senhor a ela se refere inúmeras vezes — e analisá-los sob o seguinte ponto de vista: o desejo de Deus de nos fazer bem.

O próprio fato de Nosso Senhor nos ensinar a rezar o Padre Nosso é a prova de que Ele nos quer conceder tudo quanto está dito ali. Senão, seria da parte de Deus uma aberrante contradição.

Imaginemos um rei que dissesse:

— Plinio, se você quiser obter graças de mim, reze de acordo com esta fórmula…

Se eu não fizer uso dela, o rei poderá ficar zangado comigo e pensar: “Esse homem me está tomando como palhaço, porque se eu lhe forneço um modo de obter aquilo que ele quer, deve admitir que darei mesmo, se ele pedir.”

A parábola do Bom Pastor encerra um tocante ensinamento a esse respeito: a ovelha está toda emaranhada, numa posição em que não pode se mexer mais. E o Bom Pastor toma a iniciativa de tirá-la da má situação na qual se encontra. É bem a imagem de Deus, pegando a alma escangalhada, arrebentada, colhendo-a e conduzindo-a.

O Bom Samaritano também faz isso com o homem que está à beira da estrada todo ferido. Ele pára e o socorre.

Pois de igual maneira procede Deus conosco. Estarei eu, então, fazendo a minha meditação do Evangelho orientada neste sentido? Não é o caso de incluir este ponto no meu exame de consciência?

Por outro lado, cumpre lembrar que, ao atender as nossas orações, Deus nos faz um imenso favor. Mas, Ele faz também uma ação que O glorifica e, portanto, temos toda a  razão de achar que, movido pelo amor de Si mesmo, Ele encontrará motivos para nos ser favorável.

Importa pedir sempre, e pedir muito

Seguindo a linha de seu ensinamento, Santo Afonso cita alguns trechos interessantes do Evangelho que provam a necessidade de pedirmos para recebermos.

O primeiro é uma promessa de Nosso Senhor, exposta em São João (16, 24): “Pedi e recebereis”. Noutro passo: “Pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido” (Jo 15, 7). Num terceiro se afirma: “Todo o que pede recebe, e o que busca acha” (Lc 11, 10). E ainda: “Se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16, 24).

Santo Afonso insiste para que vejamos a estrutura dessas frases e a natureza de suas promessas.

“Pedi e recebereis”. É uma verdadeira condicional. Devemos pedir, do contrário não recebemos. É como quem diz: “preencha a condição, e eu faço”. E não está escrito que apenas o homem bom, justo, casto ou puro recebe o que pede, mas simplesmente: “quem pede, recebe”! É difícil haver afirmação mais incisiva que esta.

“Pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á dado”. Excetuando os pedidos que não forem para o nosso bem, tudo quanto rogarmos, ser-nos-á concedido. Que palavras poderiam ser usadas para afirmar isto com mais clareza?

Portanto, a promessa está formulada de um modo límpido e preciso. O mal está em não nos convercermos disto, não sabendo manejar a oração como deveríamos.

Ademais, Nosso Senhor não especifica o pedido. Portanto, podemos solicitar tudo o que quisermos, até mesmo os bens materiais, desde que estes não ofendam a Deus. E se o pedido não convier, Ele não dará o que rogamos, porém nos compensará com algo melhor. Dessa maneira, acabaremos alcançando o que desejamos.

Nesses dias difíceis em que vivemos, semeados de problemas, tenho certeza de que se rezássemos jaculatórias para cada necessidade, mesmo temporal, implorando a Nossa Senhora que nos facilite isto, que nos simplifique aquilo, etc., conseguiríamos muitas coisas. Com o desgaste que as dificuldades da vida moderna causa nos temperamentos, e os problemas que podem acarretar para a vida espiritual, esse gênero de pedido é altamente recomendável.

Tanto mais quanto a linguagem de Nosso Senhor é claríssima. As mesmas regras do Evangelho em virtude das quais acreditamos que, tendo Ele dito “isto é meu corpo”, opera-se a transubstanciação quando o sacerdote consagra as espécies, levam-nos também a crer que tendo Ele dito: “Pedi e recebereis”, de fato receberemos, se pedirmos.

Outra frase típica nesse sentido: “Todo o que pede, recebe; e o que busca, acha”. Ora, eu sou um que pede; logo, recebo. Eu sou um que busca; logo, acho. Naturalmente pode demorar, levar mais tempo ou menos, mas a promessa de Nosso Senhor permanece imutável.

Às vezes, no nosso apostolado precisamos de algo que não temos, e desanimamos. Peçamos! Rogando, obteremos. E se não for o que necessitamos, será algo melhor. Nunca se perde por pedir.

Como a vida seria mais fácil e mais suave se nos compenetrássemos desse valor da oração! Ela é, verdadeiramente, um cetro posto em nossas mãos. A bem dizer,  governamos os acontecimentos com a prece humilde e persistente. Se nós não tomamos a sério estes ensinamentos, por falta de espírito de fé, privamos de tesouros inestimáveis a Igreja.

A via régia da vida espiritual

Consideremos, ainda, esta outra promessa de Nosso Senhor: “Em verdade, em verdade vos digo, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em Meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16, 23).

Santo Agostinho diz que a expressão “em verdade, em verdade” é uma espécie de juramento. De tal maneira quis Nosso Senhor acentuar o sentido exato das suas palavras, que chegou a usar esta frase: “Em verdade, em verdade Eu vos digo…”. Ou seja, “Eu vos juro: se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará”.

Assim, dificilmente haverá melhor oração do que esta: “Padre Eterno, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo eu vos peço: lembrai-Vos das promessas de vosso Filho e concedei-me essa graça de que necessito”.

Compreende-se que talvez não seja fácil nos compenetrarmos deste inestimável valor da oração, e de nos colocarmos nesta perspectiva. Nosso Senhor, a Sabedoria infinita, compreende essa nossa deficiência melhor do que nós mesmos.

A prova está na insistência d’Ele, pois encontramos inúmeras promessas do gênero nas Sagradas Escrituras. Ele sabe não terem os homens muita propensão para se humilharem e pedir com perseverança. Diversas razões os desviam dessa atitude tão necessária: o desejo de fazerem as coisas pessoalmente, de escalar o Céu por seu esforço próprio e não pela graça de Deus; por não quererem acreditar nos juramentos e nas misericórdias de Nosso Senhor em nosso benefício, enfim, por misérias de toda
ordem.

Mas, note-se bem, é este o principal ponto de batalha da vida espiritual. Se a pessoa de fato pedir a graça de se compenetrar das verdades acima consideradas — e é preciso implorar essa graça, não basta fazermos um exercício mental de compenetração — Nossa Senhora nos alcançará tudo. Quanto a isto não se pode ter dúvidas. Esta é a via régia da vida espiritual. (Revista Dr. Plinio, Agosto/2003, n. 65, pp. 14 a 19).

1) S. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, A Oração, o grande meio da salvação, Editora Vozes Ltda.; Petrópolis, 1956, 3ª edição, págs. 8-9.