Fale conosco
 
 
Receba nossos boletins
 
 
 
Artigos


Plinio Corrêa de Oliveira


O panorama católico na São Paulo de 1928
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 11/10/2019
 
Decrease Increase
Texto
Solo lectura
0
0
 
Ao longo dos artigos desta revista nos tem sido apresentada a gesta de Dr. Plinio e o seu intenso desejo de ver realizados sobre a Terra os pedidos que elevamos a Deus na oração do Pai-Nosso. Importa, pois, conhecermos o ambiente social no qual Dr. Plinio iniciou seu apostolado, para assim compreendermos melhor os perigos e dificuldades que teve de enfrentar, exercitando sua Fé e confiança inquebrantável no auxílio do Céu.

A época da minha mocidade e a de hoje são muito diferentes. Entretanto, por alguns lados continuam sendo semelhantes.

Para abordar o assunto que me foi proposto, começo por traçar um quadro geral do que era o aspecto religioso da São Paulo de 1928, para em seguida mostrar como se desenvolveu, dentro dele, o movimento católico.

Catolicismo e sociedade se condicionavam

Este, na verdade, representava uma gota de azeite no interior da sociedade de então. Quando se verte um pouco de azeite num copo d’água, ele toma uma determinada forma — a qual imagino esférica — em virtude da pressão que a água imprime, de todos os lados, sobre a bolha. Assim também as minorias se configuram em geral, não pela pressão que fazem sobre a maioria, mas por aquela que a maioria exerce sobre elas.

Ora, o movimento católico constituía uma minoria, e era a pressão da maioria que em boa parte o conformava. Não in totum, porque, como era católico, tinha de dentro para fora um certo dinamismo. Porém, era circunscrito e condicionado pelo dinamismo de fora para dentro. E do encontro desses dois dinamismos opostos resultavam muitas das características do movimento católico.

Assim, não posso descrever bem a sua vida e atuação internas, sem explicar aquilo que de fora para dentro o condicionava. No momento em que ingressei no movimento católico, este influenciava pouco o conjunto da sociedade brasileira. Mas, já em 1943, quando se completavam 15 anos de minha participação nos fatos, a situação havia mudado e o movimento católico condicionava em larga medida o ambiente brasileiro, embora fosse, por sua vez, condicionado por este último.

Tradições que existiam por hábito

Deitemos um rápido olhar sobre a situação religiosa do Brasil, e mais especialmente de São Paulo, naquela época. As tradições e os hábitos católicos existiam em proporções muito maiores do que hoje. Por exemplo, em 1928, nas classes alta, média, e mesmo nas camadas mais modestas da população, toda moça solteira era pura, e quando se unia a seu esposo, estava íntegra. Não se cogitava na possibilidade do contrário.Claro, havia as pessoas extraviadas, mas essas constituíam um mundo completamente à parte, com ruas e lugares de perdição próprios, aonde iam aqueles que desejavam frequentar maus ambientes e, portanto, perder-se. Era o bairro horroroso da cidade, separado dos demais por barreiras invisíveis. E nesse bairro a perdição se ostentava com uma brutalidade e uma radicalidade espantosas. Esse mundo, porém, significava uma mancha pequena na metrópole grande.

Família tradicional de São Paulo — A idéia dominante era a de que a influência dos bons costumes levava lenta e molemente para o Céu…

Quanto às senhoras casadas, a quase totalidade permanecia fiel a seus maridos. Falava-se, na altíssima sociedade, de uma ou outra que tomava alguma atitude escandalosa, e, apesar da fortuna, da situação prestigiosa, etc., passavam a ser vistas com horror. Não eram recebidas nas casas de famílias sérias, e ao se encontrarem com pessoas conhecidas na rua, apenas se dirigiam uma pequena saudação, sem se deterem para conversar. Elas mesmas sabiam em que conta eram tidas. Quer dizer, senhora de família é fiel ao marido, e a tal respeito não havia dúvida nenhuma.

Ademais, quase todas as senhoras de boa formação frequentavam os Sacramentos, iam às Missas aos domingos, e muitas comungavam de três a quatro vezes por ano. Outras até mais. Para se ter ideia de como era a assistência às Missas naqueles tempos, tomemos em consideração o seguinte: no grupo de bairros em que eu me movia, existiam as igrejas do Coração de Jesus, de Santa Cecília, do Coração de Maria e de Santa Teresinha. Nessa área a população era muito menor do que agora, pois não havia prédios de apartamentos. Além disso, muitas casas cultivavam grandes jardins, e portanto a parte habitada era pequena.

Nos domingos comuns, na hora da Missa, essas igrejas se enchiam a ponto de, às vezes, ser preciso abrir os tapa-ventos para facilitar o cumprimento do preceito às pessoas que não conseguiam entrar. Hoje, a população se multiplicou nessas áreas: não se construiu nenhuma igreja nova e as antigas já não se enchem como outrora. Isso nos torna palpável como, naquela época, os templos católicos eram mais frequentados do que nos dias atuais.

Uma religiosidade irrefletida

Qual era a mentalidade dessas senhoras face à religião Feitas as exceções de estilo, a maior parte desse público feminino era o que eu chamaria de católicas irrefletidas. Ou seja, eram católicas porque tinham “nascido católicas”. E assim como se nasce com cinco dedos na mão, elas como que “nasciam com fé”. E nunca se tinham posto o problema se se podia não ser católico. Considerava-se feio o fato de alguma mulher não praticar a religião. A esse propósito, conta-se que Cândido de Figueiredo, autor português de um famoso dicionário, ao ser perguntado sobre qual era o feminino de ateu, afirmou: “É à-toa”. Para ele, portanto, a mulher ateia é uma estouvada.

Então, essas senhoras levavam uma vida tranquila, despreocupada, poucas trabalhavam, vivendo normalmente o seu quotidiano no lar. Não havia ainda televisão, e poucas eram as estações de rádio, o que reduzia as recreações caseiras ao gramofone tocado à mão, às prosinhas, duas ou três que saíam para conversar ou algo semelhante. Aliás, as senhoras casadas nunca eram vistas sozinhas na rua, mas acompanhadas por alguém da família, e as moças saíam sempre com uma pessoa mais velha. Distraíam-se também em casa na leitura de romances, na elaboração de pratos e de doces, aprendendo a tocar algum instrumento musical, bordando almofadas, cuidando de um pássaro, etc., preenchendo com isso o seu tempo . Claro, sobrava-lhes espaço para a recitação do Rosário e outras orações.

Não se podia afirmar, entretanto, que elas tivessem uma estrutura de espírito definidamente católica, nem que soubessem explicar porque criam na sua religião ou definir qual o espírito da Igreja Católica.

Então, imbuída dessa religiosidade superficial, uma senhora se dirigia à igreja para rezar pelo marido que estava resfriado ou cujos negócios iam mal, para pedir por ela mesma que sentia uma dor e acordava à noite: se não passasse aquele transtorno, teria de ir ao médico durante a semana, etc., etc. Ela levava essa “vidinha” assim, na irreflexão completa. Era raro, portanto, que uma senhora tomasse a deliberação de praticar ações contrárias ao hábito e modo dominantes, em obediência a um princípio ditado pela Igreja.

A ideia de um ensinamento doutrinário oriundo do catolicismo, que é norma de pensamento ou de ação à qual se deve submeter, ainda que não se entenda ou não se queira — essa ideia estava afastada da cabeça delas. Julgava-se que a correnteza geral dos bons hábitos, dos bons ambientes, dos bons costumes, levava lenta e molemente para o Céu . Se é que molemente se pode alcançar a bem-aventurança eterna… 

De maneira que essas senhoras proporcionavam a mesma formação às filhas, mas viam-nas se modernizarem sob a ação do cinema, e tomarem atitudes de liberdade com os rapazes, embora se mantivessem ainda na linha da pureza. Porém, não era mais a super-pureza que as mães tinham aprendido. Estas sorriam, porque não possuíam essa ideia dos limites postos pela moral: “até aqui se vai, até lá não”. Tudo era habitual, consuetudinário. O que os costumes mandassem fazer, se fazia; o que considerassem bom, era bom. E os costumes faziam as vezes de religião. Então, quando o marido era ateu — o que se verificava na maioria dos casos — elas não se afligiam. Quando um filho concluía o curso secundário, entrava para uma faculdade e se tornava igualmente ateu, elas também não tomavam esse fato como drama.

Os homens… livres pensadores

Por seu lado, o homem em geral era um livre pensador. Assim como ficava feio para uma mulher não ser religiosa, pois dava ideia de masculinizada e, portanto, desagradável, era mal-visto para o homem mostrar-se religioso, porque passava a impressão de efeminado. Justificavam-se, alegando que a religião era uma “coisa de mulher”.

Assim, a maior parte dos homens se dizia ateu. E mesmo se um deles se afirmasse católico, não frequentava os Sacramentos, porque isso se considerava medonho. Por
tanto, , o homem também não rezava; ter Rosário era inimaginável, ainda que guardado na gaveta de sua mesa de cabeceira. Acima da cama dele havia, geralmente, um crucifixo que a mãe mandava fixar na parede, e que ele deixava ali ficar. Talvez, antes de se deitar à noite, ele enlambuzasse uma pequena oração, porém não o faria todos os dias.

Dr. Plinio (ao fundo, no centro) no início de sua atuação no movimento católico: “Considerava-se medonho para um homem o se dizer religioso; a maior parte não rezava, e ter um Rosário era inimaginável”

Quanto aos rapazes, os da classe média para cima, quase diariamente frequentavam bares suspeitos e muitas vezes saíam destes para visitar os antros de perdição. De maneira que era comum um rapaz chegar em casa às três ou quatro horas da manhã. E, não raro, bêbado.

A mãe não podia ignorar onde o rapaz se encontrava àquelas horas tardias. Se lhe restasse qualquer dúvida, perguntava ao esposo. E ela tinha de saber que aquilo era pecado. Vendo o filho abandonar as orações, os Sacramentos, ela deveria rezar, a exemplo da mãe de Santo Agostinho, chorar como Santa Mônica chorou e orou para que seu filho se convertesse. Sem embargo, no total elas não se incomodavam muito com os desmandos dos filhos.

Entretanto, os mesmos homens libertinos também achavam horrível a mulher ser impura. Se a esposa, a filha ou a irmã cometesse alguma infidelidade, a censura e a indignação podia chegar até o uso do revólver. Portanto, eles tinham em alta conta, para as mulheres, certas virtudes que não apreciavam para si próprios…  (Revista Dr. Plinio, Julho/2004, n. 76, p. 22 a 25).

 
Comentários