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Madre Maria Teresa da Santíssima Trindade: Viveu apenas para amá-Lo
 
AUTOR: IR. GABRIELLI RAMOS DE SIQUEIRA, EP
 
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Humilde carmelita de um convento da Guatemala, recebeu no seu corpo os sinais da Paixão e teve o coração misteriosamente traspassado com um dardo de ouro. Por amor a Cristo crucificado, suportou com alegria e resignação indizíveis tormentos.

Ele carregou sobre si as nossas culpas e foi ferido por causa de nossos pecados, por suas chagas fomos curados” (Is 53, 5). Qualquer um de nós, ao deparar-se com essas palavras de Isaías, não hesita em aplicá-las ao Cordeiro Imolado, que com seu Preciosíssimo Sangue nos libertou da escravidão do demônio e nos abriu as portas do Reino Eterno.

Entretanto, examinando a vida dos Santos, encontraremos alguns aos quais Deus quis fazer participar de forma especial na ação redentora do seu Divino Filho. São as vítimas expiatórias, cujos sofrimentos e orações em favor dos injustos se elevam ao trono da Santíssima Trindade como oferenda de suave odor.

Entre tais almas privilegiadas cabe mencionar Santa Jacinta e São Francisco Marto, os pastorzinhos de Fátima, ou Santa Bernadette Soubirous. Sendo ainda crianças, ouviram dos próprios lábios de Nossa Senhora o convite para se oferecerem em holocausto pela conversão dos pecadores, e o aceitaram de forma admirável.

Na lista de servos de Deus que se ofereceram como vítimas expiatórias, podemos acrescentar uma humilde freira carmelita que viveu na Guatemala do século XIX: Madre
Maria Teresa da Santíssima Trindade. Deus a escolheu para derramar sobre ela as maravilhas de sua graça enquanto a sujeitava às mais terríveis provações.1

Piedosa infância e adolescência

Tudo começou no ano de 1753, quando Juán Fermín de Aycinena e Irigoyen, espanhol da Navarra, atravessou o oceano para estabelecer- -se na Capitania-Geral da Guatemala. Depois de ter ficado por duas vezes viúvo, casou-se com Micaela Piñol y Muñoz, e como fruto desse matrimônio nasceu, no dia 15 de abril de 1784, sua filha primogênita: Maria Teresa de Jesus Anastásia e Cayetana.

A formação que recebeu da mãe, norteada pela doutrina cristã, levou-a a sentir desde a infância um enorme desprezo pelas coisas do mundo. Jamais um vestido ou joia lhe chamaram a atenção; pelo contrário, só se sentia satisfeita na Missa, no Rosário e na oração.

Sendo ainda muito menina, fez o firme propósito de nunca passar um dia sem visitar a Hóstia Sagrada. Nesses piedosos encontros, o Divino Redentor Se lhe manifestava misticamente sem que ela, por ser criança, pudesse compreender a enormidade das graças recebidas.

Ao alcançar a adolescência, Maria Teresa aplicou-se com fervor nos exercícios espirituais, penitenciando-se frequentemente com o cilício. E ao completar treze anos decidiu fazer o voto de castidade diante de uma imagem de São José, o qual tomou por padrinho.

A vocação religiosa é posta à prova

Não tinha cumprido ainda os doze anos quando presenciou a morte do pai, ao qual acompanhara por um ano inteiro numa penosa doença, aceita com cristã resignação.

O triste fato deu início a uma difícil fase na vida de Maria Teresa, caracterizada por terríveis provas interiores. Nessa época, “o desalento, a tibieza vêm em tropel a combater sua pobre alma e enchê-la do mais terrível desconsolo e amargura”, escreve o Pe. Ildefonso Albores, seu principal biógrafo.2

Os desejos de consagrar-se inteiramente a Deus, outrora tão vivos, deixaram de fazer-se sentir na sua alma. Tomada por terrível aridez espiritual, aquela que tanto desejava ser esposa de Cristo chegou a se arrepender por ter feito promessa de castidade.

Os lenços afixados nas mãos da carmelita ficavam miraculosamente tingidos com figuras e dizeres Acima, um dos lenços miraculosamente desenhados pelos Anjos

Por essa época, um jovem de boa família manifestou-lhe o desejo de se unir a ela em matrimônio, mas foi rejeitado com energia. Contudo, ao ser-lhe proposto por um cavaleiro da alta sociedade um vantajoso casamento, seu coração vacilou.

Perturbada e inenarravelmente aflita, a jovem, que contava com dezessete anos à época, optou por entregar-se à oração, exercícios e leituras espirituais com renovado
afinco. E, quando a tormenta passou, compreendeu ser somente no recolhimento que sua alma encontrava a verdadeira paz. Tomou, então, a firme resolução de seguir a
vida religiosa.

Seguindo a via do seu Senhor Crucificado

Depois de superar uma longa doença e vencer as oposições dos médicos, Maria Teresa finalmente ingressou no Convento de Carmelitas Descalças da cidade de Santiago da Guatemala. Em 21 de novembro de 1807 recebeu o hábito, e com ele o nome de Maria Teresa da Santíssima Trindade. Um ano depois fez a profissão solene, mais uma vez no meio de terríveis provações interiores.

Na vida conventual, exerceu as mais diversas funções, dando sempre exemplo de obediência, observância da regra, despretensão e desprendimento. Prova-nos sua generosidade o que ela mesma confessou sobre a época em que exercia o encargo de enfermeira: “As doenças das irmãs têm sido para mim um doloroso martírio. Daria mil vezes a vida para que elas recobrassem a saúde”.3

Durante o período em que foi mestra de noviças, fez florescer no convento todo gênero de virtudes e perfeições pelo exemplo e pela forma suave, prudente e caridosa com que as formava. Tudo isso era fruto de uma vida interior que, desde seu ingresso no Carmelo, procurou espelhar nas vias do seu Senhor Crucificado, a quem única e exclusivamente buscava agradar e servir.

Assim, em poucos anos de vida consagrada, essa heroica esposa de Cristo encontrava-se preparada para o início da grande batalha que Ele lhe reservava.

Grandes padecimentos purificam-lhe a alma

Desde pequena, Maria Teresa teve uma saúde muito frágil, mas aos quatro anos de sua profissão, as doenças tornaram-se mais penosas e frequentes.

Dores de estômago atacam-na por longo tempo. Altas febres periódicas a consomem e debilitam. Agudas enxaquecas atormentam-na reiteradamente. Uma queda ocorrida
no dia 21 de dezembro de 1814 quebra-lhe os ossos do quadril, deixando-a impedida de andar e causando-lhe as mais desagradáveis moléstias.

Em abril do ano seguinte começou a padecer de uma terrível doença que a deixou prostrada por quase um ano. Sofria convulsões, sobretudo às noites, sem que nenhuma parte de seu corpo ficasse livre desse martírio. Por duas vezes se encontrou às portas da morte.

Às dores físicas somavam-se as aridezes interiores que sofria havia muito tempo e a ação dos espíritos malignos, “que a atormentaram de uma maneira indizível nos momentos mais penosos das doenças que teve de enfrentar. Eles afligiram sua alma com uma intensidade que não se pode imaginar”.4

Todas as provações que o Senhor a fez experimentar foram por ela aceitas com esplêndida resignação. Isso purificou seu espírito e a elevou a um grau altíssimo de união com Deus, tornando-a merecedora de dons místicos extraordinários. 

Recebe os dolorosos sinais da Paixão

Em 1812, Madre Maria Teresa pediu a Jesus a graça de experimentar sua acerbíssima Paixão e, pouco depois, seus anseios começaram a ser atendidos. Eis como ela mesma o narra:

“Estando um dia em minha cela, cerca de uma e meia da tarde, colocada como de costume sobre a Cruz e recolhida em oração, vi ao Divino Jesus que Se aproximou de mim sob a forma de peregrino. Trazia um cravo na mão; e com indizível ternura e maravilhosa suavidade me disse: ‘Posto que tanto Me pedes e não posso negá-lo, aqui tendes esta insígnia de minha dolorosa Paixão’ e, dizendo isso, o fixou Ele mesmo, desde o lado direito, no mais alto da minha cabeça. Tocando aquela parte da testa que me doía terrivelmente, encontrei de fato a cabeça do cravo coberta pela pele”.5

No ano seguinte, Jesus lhe impôs a coroa de espinhos, e em 1816 foram-lhe impressas as chagas da Paixão. Dom Ramón Casaús y Torres, OP, Arcebispo da Guatemala, ao
visitá-la por ocasião da Sexta-Feira das Dores, pôde constatar, edificado, a presença desses sinais nas mãos e nos pés da religiosa.

Também nessa época o coração lhe foi traspassado com um dardo de ouro pelo Arcanjo São Miguel, produzindo-lhe dores de morte, e formou-se mais de uma vez em um dos dedos da mão uma espécie de anel esponsalício, portento que pôde ser contemplado por todas as religiosas.

Crucifixões e desponsório espiritual

Refletindo sobre esses fenômenos místicos, comenta seu biógrafo: “O cravo, a coroa e as chagas são notabilíssimos sinais da Paixão do seu Jesus, ricos sinais da abnegação e dor com que fora favorecida. Falta-lhe ainda, porém, ficar cravada na Cruz”.6

De 8 de março a 11 de outubro de 1816, passou quase todas as sextas-feiras crucificada, isto é, fixada a uma cruz do meio-dia até três horas da tarde. Nesse período, passava pelas agonias da morte e chegava a morrer misticamente.

Documento assinado pelo Arcebispo testemunhando o milagre

Entretanto, no meio de tão dolorosos sofrimentos, recebia inefáveis consolos na forma de êxtases e arroubos. No dia da festa de Nossa Senhora do Carmo, permaneceu por
algum tempo suspensa no ar depois de ter comungado. E em 24 de setembro, tendo ficado fora de si durante a ação de graças, recebeu a graça do desponsório espiritual com seu adorado Jesus.

Por mais que a religiosa não poupasse esforços para manter em segredo as graças recebidas, inevitável era que toda a comunidade tomasse conhecimento delas. E, pouco tempo depois, as conversas da cidade inteira giravam em torno do acontecido com a Serva de Deus.

Por indicação do Arcebispo, desejoso de fazer conhecer a veracidade dos fatos, muitas autoridades eclesiásticas e civis presenciaram os famosos êxtases e crucifixões. Entre os testemunhos que eles nos deixaram, cabe destacar os três informes escritos por Frei José Buenaventura Villageliu, OFM, encarregado por Dom Ramón de dirigi-la espiritualmente entre os anos 1816 e 1821.7

Pinturas feitas com sangue pelos Anjos

No dia 21 de junho de 1816, festa do Sagrado Coração de Jesus, depois de ter recebido a Sagrada Comunhão, Maria Teresa entrou em êxtase, como já era costume à época. Contudo, as religiosas notaram que durante seu colóquio com o Divino Esposo uma imagem começava a se formar no lenço de algodão que cobria sua cabeça. Era o desenho de um coração, tingido com a cor de sangue fresco.

Após uma rigorosa revista feita em sua cela, comprovou-se a impossibilidade de que tivesse sido traçado por Maria Teresa. Chegou-se então à conclusão de que fora desenhado pelos Anjos usando o sangue de suas chagas. Depois disso, passaram a fixar lenços de tecido e de papel nas mãos da carmelita cada vez que ela entrava em êxtase, e eles ficavam tingidos com figuras e dizeres relacionados à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo: corações, cruzes, coroas de espinhos, cravos, lanças, anéis e os nomes de Jesus, Maria e José.

Meses depois, apareceram também cartas escritas pelos Anjos e Santos. Dom Ramón Casaús chegou a reunir quarenta e nove missivas dos espíritos celestes, duas de São Luís Gonzaga, uma de Santa Teresa e outra de São Francisco de Sales.

Por duas vezes no cárcere do convento

Em algumas dessas missivas celestes eram dadas ordens ao Arcebispo. Duas delas, por exemplo, mandavam-lhe prender a mística no cárcere do convento por alguns dias, pois “quer o Senhor ser glorificado nessa alma”.8

Assim, no dia 10 de dezembro, entre as lágrimas de toda a comunidade, Maria Teresa foi conduzida de muletas ao cárcere pela primeira vez. Aceitou o castigo com inteira
humildade e sem pedir explicações, ficando presa por onze dias. No dia 31 de janeiro de 1817, foi encarcerada novamente, desta vez por algumas semanas.

Chegado o dia de libertá-la, constatou-se que ela se encontrava em um estado deplorável de saúde. O Arcebispo mandou soltar seus pés das correntes e, ao ver com quanta dificuldade caminhava apoiada em muletas, disse-lhe: “Em nome de Jesus Cristo te mando por obediência, que deixes as muletas e caminhes sem elas, boa e sã”.9 Ao ouvir isto, ela as soltou imediatamente, pôs-se em pé e assentou as plantas dos pés sobre a terra.

Inveja e calúnias de algumas religiosas

Sã e restabelecida, Madre Maria Teresa passou a ocupar-se dos trabalhos da cozinha e demais serviços da comunidade. Exerceu as funções de sacristã e, mais uma vez, de mestra de noviças. Foi conselheira das mais distinguidas matronas da cidade, que acorriam a pedir-lhe orientação. Vendo a vida comum perfeitamente estabelecida no convento, fez diligências junto ao rei para a fundação de um novo mosteiro na cidade.

Enquanto isso, os êxtases e demais fenômenos místicos não cessaram. Além de conservar os sinais da Paixão, em certos dias difundia um extraordinário perfume pelos lugares por onde passava.

Madre Maria Teresa despertava admiração, mas também invejas. Duas ou três religiosas a ela desafetas, pela observância que havia conseguido impor no convento, garantiram tê-la visto extrair o própria sangue com navalhas e alfinetes, pôr perfumes na cela e outras calúnias do gênero.

Além de conservar os sinais da Paixão, em certos dias difundia um extraordinário perfume – Madre Maria Teresa com hábito de professa – Museu Arquidiocesano de Guatemala

As acusações, embora falsas, foram se avolumando até chegar ao rei e, por ele, ao Tribunal da Inquisição. Pessoas que antes a admiravam tornaram-na alvo de debiques e zombarias. Médicos ímpios empenharam-se em fazer cicatrizar as chagas das mãos e dos pés, usando para isso substâncias tóxicas e outros malefícios.

Público reconhecimento de suas virtudes

Os tormentos e contradições haviam de se prolongar por décadas até que, contando cinquenta e sete anos, Maria Teresa sentiu se aproximarem seus últimos dias. Quando
pediu os últimos Sacramentos, toda a comunidade chorou copiosamente, compreendendo que logo a perderiam.

Em 29 de novembro de 1841, às quatro e meia da manhã, seus olhos se fecharam e sua alma deixou a terra para sempre. A cidade inteira proclamava seu nome e o sentimento popular era tão intenso que foi preciso colocar guardas para manter a ordem na igreja onde seu corpo estava sendo velado.

Reconheciam-se assim as virtudes dessa alma que foi receptáculo de belíssimas demonstrações do amor de Nosso Senhor, o qual sabe premiar com abundância aqueles que combatem por Ele contra o demônio, o mundo e a carne.

Embora ainda não tenha sido elevada à honra dos altares, por sua resignação em face dos sofrimentos e audácia em buscar a maior glória de Deus, Maria Teresa da Santíssima Trindade é exemplo para toda a América como pré- -figura dos Santos que a Providência quer suscitar nessas terras. Façamos, portanto, tudo o que estiver ao nosso alcance para, seguindo os passos dessa virtuosa carmelita americana, honrarmos com nossas vidas o amor que o Sagrado Coração de Jesus tem por cada um de nós. (Revista Arautos do Evangelho, Dezembro/2019, n. 216, p. 28 a 31).

1 Informações sobre a vida e escritos dessa Serva de Deus, bem como notícias atualizadas a respeito do processo de beatificação, podem ser encontradas em  www.madremariateresa.org.
2 ALBORES, Ildefonso. Vida de Sor María Teresa de la Santísima Trinidad Aycinena. Guatemala de la Asunción: San Pablo, 2006, p.23.
3 Idem, p.32
4 Idem, p.38.
5 Idem, p.42-43.
6 Idem, p.46.
7 Em www.madremariateresa.org, pode-se encontrar cópia fac-símile desses informes.
8 ALBORES, op. cit., p.54.
9 Idem, p.56.

 
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