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“Seu amargo cálice me pareceu delicioso…”
 
AUTOR: SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE
 
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O que eu vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de Jesus-Hóstia, no exame que precedeu minha profissão: “Vim para salvar as almas e, sobretudo, rezar pelos sacerdotes”.

A segunda-feira 9 de abril, dia em que o Carmelo celebrava a festa da Anunciação, prorrogada por causa da Quaresma, foi escolhida para a minha entrada no convento. […] Na manhã do grande dia, após olhar pela última vez os Buissonnets, gracioso ninho de minha infância que nunca mais tornaria a ver, parti de braços dados com meu Rei1 querido para subir a montanha do Carmelo…

Como na véspera, toda a família se reuniu para assistir à Missa e comungar. Assim que Jesus desceu ao coração dos meus familiares queridos, não ouvi senão soluços em torno de mim. Só eu não chorava, mas senti meu coração bater com tanta violência que me pareceu impossível avançar quando nos fizeram sinal para ir até a porta do convento. Avancei, embora me perguntando se não morreria devido à força das batidas do meu coração… Ah! Somente quem passou por isso pode imaginar o que foi aquele momento…

Suave e profunda paz

Minha emoção não se manifestava externamente. Depois de abraçar todos os membros da minha querida família, pus-me de joelhos diante do meu incomparável Pai, pedindo-lhe sua bênção. Para dá-la, ele próprio se ajoelhou e me abençoou entre lágrimas… Era um espetáculo que devia fazer os Anjos sorrirem, esse de um ancião apresentando ao Senhor sua criança ainda na primavera da vida!…

Logo depois, as portas da arca sagrada se fechavam atrás de mim e ali eu recebia os abraços das queridas irmãs que tinham me servido de mães e que, de agora em diante, tomaria como modelos em minhas ações… Afinal meus anseios estavam realizados, minha alma sentia uma PAZ tão suave e profunda que me seria impossível expressar. Há sete anos e meio, essa íntima paz continuou sendo meu quinhão, ela não me abandonou em meio às maiores provas.

Ainda noviça, Santa Teresinha junto à cruz de pedra erigida no centro do claustro do Carmelo de Lisieux

“É para sempre que estou aqui”

Como todas as postulantes, fui conduzida ao coro logo após minha entrada; estava escuro, devido à exposição do Santíssimo Sacramento, e o que despertou minha atenção foram os olhos da nossa santa Madre Genoveva, que se fixaram sobre mim. Permaneci uns instantes ajoelhada a seus pés, agradecendo ao Bom Deus pela graça que me concedia de conhecer uma santa, e depois segui nossa Madre Maria de Gonzaga aos diferentes ambientes do convento.

Tudo me parecia maravilhoso, tinha a impressão de que havia sido transportada para o deserto, e fiquei especialmente encantada com a nossa pequena cela. Mas a alegria que sentia era calma, nem a mais leve brisa fazia ondular as tranquilas águas em que navegava meu barquinho, nenhuma nuvem escurecia meu céu azul… Ah! Todas a minhas provações estavam plenamente recompensadas… Com profunda alegria repetia estas palavras: “É para sempre, sempre, que estou aqui!…”

“Nenhum sacrifício me surpreendeu”

Essa alegria não era efêmera; não iria desaparecer com as ilusões dos primeiros dias. Deus concedeu-me a graça de não ter NENHUMA ilusão ao entrar para o Carmelo. Encontrei a vida religiosa tal como a concebera, nenhum sacrifício me surpreendeu, ainda que – vós o sabeis, minha madre querida –, meus primeiros passos tenham encontrado mais espinhos do que rosas!… Sim, a dor estendeu-me os braços e lancei-me a ela com amor… O que eu vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de Jesus-Hóstia, no exame que precedeu minha profissão: “Vim para salvar as almas e, sobretudo, rezar pelos sacerdotes”. 

Para se atingir um objetivo, é preciso empregar os meios. Jesus fez-me entender que era pela cruz que Ele desejava oferecer-me almas, e minha atração pelo sofrimento crescia na medida em que o sofrimento aumentava. Durante cinco anos essa foi a minha via, mas, exteriormente, nada revelava meu sofrimento, tanto mais doloroso por ser eu a única a saber dele. Ah! Como nos surpreenderemos no fim do mundo, ao conhecer a história das almas!… Muitos se espantarão ao verem o caminho pelo qual fui conduzida!…

Consoladoras palavras de um confessor

Isso é tão verdadeiro que, dois meses depois de minha entrada, estando aqui o Pe. Pichon para a profissão da Ir. Maria do Sagrado Coração, ele ficou admirado ao comprovar o que o Bom Deus operava em minha alma e disse-me que, na véspera, tendo-me observado rezar no coro, pensou ser meu fervor inteiramente infantil e meu caminho muito doce.

Minha entrevista com o bom sacerdote foi para mim uma grande consolação, mas cheia de lágrimas, por causa da dificuldade que sentia em abrir minha alma. Fiz, porém, uma Confissão geral, tal como jamais fizera; no final, o padre me dirigiu estas palavras, as mais consoladoras que já ressoaram aos ouvidos de minha alma: “Na presença do Bom Deus, da Santíssima Virgem e de todos os Santos, declaro que nunca cometestes um único pecado mortal”. E acrescentou: dai graças ao Bom Deus pelo que Ele faz por vós pois, se Ele vos abandonasse, em vez de serdes um anjinho, seríeis um diabinho.

Ah! Não me custava acreditar, pois sabia o quanto era fraca e imperfeita, mas a gratidão enchia a minha alma. Receava tanto ter manchado minha veste batismal que tal afirmação, provinda dos lábios de um diretor conforme os desejos de nossa Santa Madre Teresa, ou seja, que une a ciência à virtude, parecia-me saída dos lábios do próprio Jesus… O bom sacerdote disse-me ainda estas palavras, que estão docemente gravadas em meu coração: “Minha filha, que Nosso Senhor seja sempre vosso Superior e vosso Mestre de noviças”. […]

Amarga e deliciosa via

A pequena flor transplantada para a montanha do Carmelo desabrocharia à sombra da Cruz; as lágrimas, o Sangue de Jesus foram o seu orvalho, e a Sagrada Face coberta de lágrimas, o seu sol… Até então, não havia sondado a imensidade dos tesouros escondidos na Sagrada Face. Foi por vosso intermédio, madre querida, que passei a conhecê-los. Do mesmo modo que, outrora, precedestes a todas nós no Carmelo, também penetrastes primeiro nos mistérios de amor escondidos na Face de nosso Esposo. Chamastes-me então, e entendi… Entendi em que consistia a verdadeira glória. Aquele cujo reino não é deste mundo mostrou-me que a verdadeira sabedoria está em “querer ser ignorado e tido por nada, em encontrar sua alegria no desprezo de si mesmo”… Ah! Como o de Jesus, queria que “minha face estivesse realmente escondida e que, nesta terra, ninguém me reconhecesse”. Tinha sede de sofrer e de ser esquecida…

Como é cheio de misericórdia o caminho pelo qual Deus sempre me conduziu. Jamais me fez desejar algo sem dá-lo a mim, por isso seu amargo cálice me pareceu delicioso… (Revista Arautos do Evangelho, Julho/2019, n. 211, p. 34-35)

Santa Teresa de Lisieux. Les manuscrits autobiographiques. Manuscrit A. In: “Œuvres Complètes”. Paris: Du Cerf; Desclée de Brouwer, 2009, p.185-190

1 Forma afetuosa com que Santa Teresinha se referia a seu pai, São Luís Martin.

 
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