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Contos Infantis


À conquista do milagre
 
AUTOR: IR. JOANA LUIZA R. REMÍGIO REZENDE
 
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A trilha abriu-se em dois braços. A via do lado direito era estreita, escura e cheia de mato alto; a da esquerda estava bem iluminada e beirada de belas flores coloridas. Qual delas seria melhor escolher?

Os jovens escudeiros cercavam Pedro enquanto ele, retesando o arco, apontava cuidadosamente para uma longínqua maçã. A seguir escutou-se um assobio, um golpe seco e fortes gritos de alegria.

— Muito boa mira, Pedro! Você já está pronto para acompanhar Sua Majestade nas batalhas!

Atraído pelo alvoroço, um nobre cavaleiro de longas barbas brancas aproximou-se dos rapazes. Seu olhar era sério e profundo, sinal das duras lutas enfrentadas durante a vida.

— Futuros combatentes de meu senhor – disse o ancião militar –, venho trazer-vos uma triste notícia. A partir de hoje, vós não podereis mais ver o vosso rei e menos ainda acompanhá-lo nas guerras, pois os médicos do reino comprovaram que ele contraiu lepra.

— E não haverá algum meio de curá-lo? – perguntou Pedro, muito consternado.

— Só um milagre poderia salvá-lo. E há mais de trinta e cinco anos não acontece nenhum em nosso reino…

Os jovens se entreolharam confusos, até que João retrucou:

— Senhor, para que haja um milagre basta recorrer com fé aos Céus!

— Pensais ser simples assim? – prosseguiu o velho guerreiro – Em parte, tendes razão; contudo, o caminho do milagre costuma estar cheio de obstáculos quase intransponíveis! E isso, jovens cavaleiros, inclusive fisicamente! Ou acaso não sabeis que há mais de três décadas os inimigos do reino roubaram nosso maior tesouro? Nunca escutastes nada a respeito da imagem da Rainha dos Anjos, da qual emanava um bálsamo miraculoso? Ele, com certeza, curaria Sua Majestade, mas…

— Senhor – interrompeu Guilherme, um dos escudeiros mais atirados –, não é possível continuarmos de braços cruzados! Se Nossa Senhora permitiu essa separação, não terá sido para darmos prova de nosso amor por Ela? Não devemos estar dispostos a derramar nosso próprio sangue a fim de resgatá-La?

Os jovens acrescentavam argumento após argumento propondo uma arriscada expedição, mas o nobre de barbas longas não se deixava convencer. Guerreiros fortes e experimentados já haviam tentado recuperar a imagem ao longo dos anos, e morreram no intento. Sem dúvida, não seriam aqueles pequenos escudeiros que teriam êxito na complicada empresa!

— Mas… – disse Pedro – desta vez é a vida de nosso rei que está em jogo. Se a imagem se encontrasse aqui, poderíamos utilizar o milagroso bálsamo para curá-lo.

Ao ver soprar naqueles jovens corações os ventos da coragem, o nobre cavaleiro, tomado de emoção, acabou por abençoar a arriscada façanha.

Na manhã seguinte, puseram-se a caminho. Chegados ao pé da alta e perigosa montanha onde se encontrava a imagem, começaram a subir. Tudo estava tranquilo e do inimigo não havia nem a sombra; entretanto, a cada passo o percurso tornava-se mais árduo e todos sentiam mais o peso da marcha, que parecia não levar a lugar algum.

Os inimigos fugiram e um desses cavaleiros desceu do cume da montanha, trazendo em suas mãos a imagem da Santíssima Virgem!

Em determinado momento, a trilha abriu-se em dois braços. A via do lado direito era estreita, escura e sombria, cheia de mato alto e fechado que impedia discernir o caminho; a da esquerda, pelo contrário, estava iluminada, beirada de belas flores coloridas e com o traçado muito bem definido.

Pedro e outros três companheiros se decidiram pelo lado direito, pois temiam que tantas facilidades ocultassem uma emboscada dos inimigos. Os demais, entretanto, optaram seguir pela esquerda, achando a outra via muito dura e difícil. Afinal de contas, as duas deviam conduzir ao topo, e seria uma loucura perder tempo enfrentando obstáculos desnecessários.

Cada grupo prosseguiu segundo sua escolha. Os que se adentraram na formosa estrada das flores logo se depararam com um esquadrão inimigo, que os massacrou sem piedade. Caíram na armadilha preparada para atrair os medrosos, que fogem do sofrimento.

Pedro e seus amigos, por sua vez, avançavam com dificuldade contornando paredes e precipícios. Em certo momento, uma grande rocha se desprendeu do alto da montanha e veio em direção a eles. Os jovens gritaram por sua Mãe e Rainha e correram o quanto puderam. A pedra rolou ruidosamente sem atingi-los…

Pouco mais à frente, o caminho desembocou na entrada de uma caverna muito escura. Não havia outro meio senão atravessá-la, mas, ao se adentrarem um pouco nela, perceberam estar num verdadeiro labirinto, do qual não conseguiriam sair!

O desespero quase os tomou… Pedro, porém, rezou a Nossa Senhora pedindo-Lhe que acendesse nas almas de todos a tocha da confiança e, animados por esta oração, continuaram andando às apalpadelas.

Quando entraram em outro corredor… oh, alegria! Uma luz dourada apareceu ao longe. Sim, era o fim do túnel! Avançaram tão rápido quanto puderam e depararam-se com um imenso panorama. A trilha prosseguia! Estavam já muito perto do topo da montanha.

“Nossa Senhora desejava que abraçásseis o caminho da luta, do sofrimento e da confiança”

Antes de poder retomar o fôlego, uma flecha incendiada cravou-se ao lado deles: os inimigos acabavam de descobri-los! Nesse momento, mil pensamentos cruzaram a mente dos jovens. Estavam em desvantagem em número, posição e experiência. O que fazer? Como enfrentá-los? Não era melhor desistir e voltar pelo mesmo caminho?

Fazendo um esforço supremo contra si mesmos, os jovens optaram por continuar, ainda que parecesse segura a derrota. E então surgiu no horizonte um reluzente exército de cavaleiros montados em brancos corcéis, com armaduras douradas. Tomados de espanto, os inimigos fugiram e um desses cavaleiros, que só podiam ser Anjos, desceu do cume da montanha, trazendo em suas mãos a imagem da Santíssima Virgem!

Transbordantes de gratidão e alegria, os escudeiros voltaram ao castelo e, quando lá chegaram, ouviram o barulho de uma festa. O rei, completamente curado da lepra, os esperava no salão.

E a imagem? E o bálsamo? Não era ela que operaria o milagre? A arriscada expedição que fizeram tinha sido em vão? Ajoelhados diante de Sua Majestade, os jovens não compreendiam…

— Meus filhos, a vós toda a minha gratidão! Nossa Senhora desejava que sua imagem fosse recuperada, mas queria, sobretudo, que filhos seus abraçassem o caminho da luta, do sofrimento e da confiança! Foi vossa generosidade no serviço d’Ela que conquistou seu Coração e obteve o milagre, antes mesmo de que vós chegásseis. Pois aos olhos da nossa Soberana, a virtude é indizivelmente mais valiosa e poderosa do que todos os bálsamos da terra! (Revista Arautos do Evangelho, Outubro/2019, n. 214, p. 46-47).