A missão faz parte essencial do ser Igreja; não é uma experiência limitada ao tempo, mais sim, um compromisso orgânico de todos os componentes das realidades eclesiais e das estruturas de serviço, chamadas a se relacionar proficuamente com os ambientes vitais do território.

Isto não sem dificuldades, causadas muitas vezes pelo hábito de viver um cristianismo cômodo que não incomoda as consciências.

No atual clima cultural, o testemunho cristão, enquanto fruto de uma liberdade verdadeira e autêntica, prova uma ausência de nivelamento com a homogeneização cultural imperante, feita de um materialismo de retorno, cienticismo, radicalismo, individualismo. E ele representa um risco por ser “incômodo”.

A família

A família, primeira célula da sociedade e da própria comunidade eclesial, está gravemente ameaçada por uma mentalidade relativista que perpetra continuamente atentados contra ela.

Torna-se cada vez mais cansativo e difícil defendê-la, inclusive como instituição natural. Não subestimamos os inúmeros perigos que vão adensando-se em torno da família, a qual muitos quereriam ver substituída pelas uniões de fato ou por outros tipos de convivência. […]

Querendo justificar soluções eventuais, estranhas e vulgares, apela-se à liberdade de vida, de amor, ao gosto de cada um. Escutemos com atenção o ensinamento do nosso Papa Bento XVI, eco claro, lúcido e profundo do constante ensinamento da Palavra de Deus e do magistério sobre a família.

Não cedamos minimamente ao assalto de quem quereria estabelecer compromissos sobre valores não negociáveis; tampouco tenhamos medo, em nossas catequeses e, em várias ocasiões, também nas homilias, de sermos ortodoxos com relação ao matrimônio como sacramento e instituição natural.

Assistindo aos debates televisivos nos surpreendemos, algumas vezes, que pessoas declaradamente agnósticas falem em defesa da família com argumentos fortes; enquanto alguns, que se declaram católicos e praticantes, balbuciam, vacilam e se envergonham de dizer uma palavra clara em sintonia com a Igreja.

Não devemos transformar o debate que existe em nossos dias numa espécie de luta de religião; mas tampouco devemos permanecer pávidos e calar, faltando em nosso preciso dever de falar para encorajar e iluminar os nossos fiéis. […]

A família é um lugar privilegiado onde se realiza a experiência do amor, lugar onde se vive e se transmite fé, ambiente educativo, escola de valores cristãos vivificados pela oração. Daí o apelo do servo de Deus João Paulo II: “Família, torna-te aquilo que és!”1 […]

A Pastoral Juvenil

A Pastoral Juvenil exige uma particular atenção e sensibilidade, porque o mundo jovem é peculiarmente problemático e atravessa um período de forte crise.

Não podemos permanecer indiferentes diante do mal-estar que está tomando conta dos nossos jovens, que, em número crescente, tomam distância da vida da família, da comunidade paroquial e da própria escola. […]

O trabalho do setor vocacional permanece ainda grande e delicado, mesmo porque deve interessar-se pelos eventuais candidatos à vida consagrada masculina e feminina. […]

É necessário encontrar métodos adequados para se aproximar do mundo jovem, tendo presente não apenas aqueles que, ainda que episodicamente, aderem às nossas várias iniciativas, bem estudadas, preparadas e vividas.

Mas sobretudo aqueles que não costumam ser alcançados nem pela família, nem pela escola, nem pela Igreja, os três agentes clássicos da formação que hoje são cada vez menos influentes.

Nós não dormimos sonos tranquilos com relação a este assunto, porque os jovens são nosso futuro.

Damo-nos conta de que o compromisso de relacionamento com eles deve ser sobretudo paroquial. De nada serviriam as jornadas mundiais, nem as próprias iniciativas diocesanas, se não tivessem uma continuação na vida da paróquia. […]

O sacerdote dá aquilo que recebe

O ministério sacerdotal não consiste em começar, de tempos em tempos, algumas iniciativas, sem se preocupar com sua oportunidade ou urgência. Ele é uma forma de santificação e de predicação: verdadeiro e próprio estilo de vida.

O sacerdote tende à santidade através do seu próprio ministério. A vida da santidade é a fé em Cristo, vivida e testemunhada com e no ministério. O sacerdote dá aquilo que recebe; e cada iniciativa pastoral não pode ser senão expressão de vida interior.

Como as sentinelas da aurora, ele olha em direção ao horizonte para escrutar os sinais dos tempos e ter uma visão mais ampla, precisa, daquilo que é verdadeiramente essencial.

Para identificar os pontos chaves, as orientações concretas a respeito de sua vida e da missão em seu conjunto, e do problemático e fascinante mundo atual que é preciso amar, ajudar, e envolver de maneira eficaz, atraindo gerações velhas e novas.

Diante do sacerdote abre-se um cenário que não tem fim; e ele não pode fingir que não o vê e permanecer fechado em seus hábitos, nas repetições pastorais, compreendidas e vividas como uma sacramentalização, muitas vezes motivadas por utilidades pessoais.

Mente, olhos e coração abertos são pedidos ao sacerdote, com generosidade e radicalidade.

As meias medidas, os “mais ou menos”, os “se”, os “mas” estragam tudo, especialmente se são acompanhados por atitudes de superioridade, de arrogância e de mau caráter, dando uma imagem decrépita, falsa, e anacronística, e algumas vezes odiosa, do sacerdócio e da Igreja.

A disponibilidade com relação a qualquer lugar, qualquer pessoa, a qualquer comunidade paroquial nos ajuda “a ver com os olhos de Deus e amar com seu coração”.

Talvez, caríssimos irmãos, deveríamos procurar recuperar cada vez mais a visão da fé em nosso sacerdócio, que não pertence a nós, mas é um dom de Deus à humanidade através da nossa pessoa, em si mesma vulnerável e frágil, mas feita forte e crível pela presença do Senhor em nós.

O exemplo de Maria e a palavra de São João

Concluo com as palavras de São João: 

Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade.

Nisto é que conheceremos se somos da verdade, e tranquilizaremos a nossa consciência diante de Deus, caso nossa consciência nos censure, pois Deus é maior do que nossa consciência e conhece todas as coisas.

Caríssimos, se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedirmos, receberemos dele porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos.

Eis o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, como ele nos mandou.

Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu” (1 Jo 3, 18-24).

Que esteja sempre presente diante de nós o exemplo de Maria, Mãe e Irmã nossa, que, imersa na luz do mistério da caridade, sempre fez a escolha na vontade divina para a qual a sua vida terrena foi uma contínua ascese feita de si, dita e vivida sempre, mesmo nos momentos mais dramáticos da sua história.

Sejam as suas palavras também as nossas, presentes no coração sacerdotal: “Fazei aquilo o que Ele vos disser!”

 

Trechos da Carta Pastoral “In nomine Domini”, de 15/6/2007 – Tradução Arautos do Evangelho

1 Familiaris Consortio, 17.