A Virgem Santa desceu do Céu como uma Mãe muito preocupada com seus filhos e filhas que viviam no pecado, longe de seu Filho Jesus.

Ela apareceu na Gruta de Massabielle, a qual na época era um pântano onde os porcos pastavam, e precisamente ali Ela quis mandar construir um santuário, para mostrar que a graça e a misericórdia de Deus devem triunfar sobre o miserável pântano dos pecados humanos.

Bem ao lado do local das aparições, a Virgem fez jorrar uma fonte de água abundante e pura, que os peregrinos bebem e levam com imensa devoção para o mundo inteiro, significando o desejo de nossa afetuosa Mãe de propagar até às extremidades da Terra seu amor e a salvação de seu Filho.

Enfim, nessa abençoada Gruta a Virgem Maria lançou um insistente apelo a todos para rezarem e fazerem penitência pela conversão dos pobres pecadores.

Luta feroz e permanente entre as forças do bem e as do mal

Pode-se perguntar: qual será o significado da mensagem de Nossa Senhora de Lourdes para nós hoje?

Gosto de situar essas aparições no contexto mais amplo da luta permanente e feroz existente entre as forças do bem e as do mal desde o início da História da humanidade no Jardim do Paraíso, e que prosseguirá até o fim dos tempos.

Com efeito, as aparições de Lourdes estão entre as primeiras da longa cadeia de aparições de Nossa Senhora, começada 28 anos antes, em 1830, na Rue du Bac, em Paris, anunciando a entrada decisiva da Virgem Maria no centro das hostilidades entre Ela e o demônio, como está escrito na Bíblia, nos livros do Gênesis e do Apocalipse.

A medalha, chamada Milagrosa, que a Virgem mandou cunhar naquela circunstância, representava-A com os braços abertos dos quais partiam raios luminosos, significando as graças que Ela distribuía ao mundo inteiro.

Seus pés repousavam sobre o globo terrestre e esmagavam a cabeça da serpente, o diabo, indicando a vitória da Virgem sobre Satanás e suas forças do mal. Em torno da imagem, lia-se a invocação: “Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”.

É de se notar que essa grande verdade da Conceição Imaculada de Maria tenha sido afirmada nessa ocasião, 24 anos antes de o Papa Pio IX defini-la como dogma de Fé (1854): quatro anos mais tarde, aqui em Lourdes, a própria Nossa Senhora quis revelar a Bernadette que era a Imaculada Conceição.

Maria nos convida a fazer parte de sua legião 

Depois das aparições de Lourdes, a Virgem Santíssima não cessou de manifestar, em suas diversas aparições no mundo inteiro, suas vivas preocupações pelo destino da humanidade.

Por toda parte Ela pediu preces e penitência pela conversão dos pecadores, pois previa a ruína espiritual de certos países, os sofrimentos que o Santo Padre teria de suportar.

Mas, também, o enfraquecimento geral da fé cristã, as dificuldades da Igreja, a escalada do Anticristo e suas tentativas de substituir Deus na via dos homens: tentativas que, apesar de seus êxitos espetaculares, estariam, entretanto, destinadas ao fracasso.

Aqui em Lourdes, como em qualquer lugar do mundo, a Virgem Maria vai tecendo uma imensa rede de seus filhos e filhas espirituais em toda a Terra, para lançar uma forte ofensiva contra as forças de Satanás, encadeá-lo e preparar, assim, a vitória final de seu Divino Filho, Jesus Cristo.

A Virgem Maria nos convida hoje, uma vez mais, a fazer parte de sua legião de combate contra as forças do mal.

Como sinal de nossa participação em sua ofensiva, Ela nos pede, entre outras coisas, a conversão do coração, uma grande devoção à Sagrada Eucaristia, a recitação cotidiana do Rosário, a prece incessante e sem hipocrisia, a aceitação dos sofrimentos pela salvação do mundo.

Pode parecer que essas são pequenas coisas, mas elas são poderosas nas mãos de Deus, a Quem nada é impossível.

Como o jovem Davi – o qual, com uma pequena pedra e uma funda, abateu o gigante Golias que vinha a seu encontro armado de uma espada, uma lança e um dardo (cf. 1 Sam 17, 4-51) – também nós, com as pequenas contas de nosso Rosário, poderemos enfrentar heroicamente os assaltos de nosso temível adversário e vencê-lo.

A vitória final é de Deus!

A luta entre Deus e seu inimigo trava-se com ímpetos de violência, hoje mais ainda do que no tempo de Bernadette, há 150 anos.

Pois a humanidade se encontra terrivelmente submersa no pântano de um secularismo que quer criar um mundo sem Deus; de um relativismo que asfixia os valores permanentes e imutáveis do Evangelho.

E de uma indiferença religiosa que se mantém imperturbável face ao bem superior das coisas concernentes a Deus e à Igreja. Essa batalha faz inumeráveis vítimas em nossas famílias e entre nossos jovens.

Alguns meses antes de se tornar o Papa João Paulo II (9 de novembro de 1976), dizia o Cardeal Karol Wojtyla:

Encontramo-nos hoje em face ao maior combate que a humanidade tenha jamais visto. Não penso que a comunidade cristã o tenha compreendido totalmente.

Estamos hoje ante a luta final entre a Igreja e a anti-Igreja, entre o Evangelho e o anti-Evangelho.

Uma coisa, porém, é certa: a vitória final é de Deus e será obtida graças a Maria, a Mulher do Gênesis e do Apocalipse, que combaterá à frente do exército de seus filhos e filhas contra as forças inimigas de Satanás, esmagando a cabeça da serpente.

Na Gruta de Massabielle, a Virgem Maria nos ensinou que só no Céu encontraremos a verdadeira felicidade. “Não prometo fazer-te feliz neste mundo, mas no outro”, disse Ela a Bernadette. E a vida de Bernadette ilustrou com suficiente clareza isso.

Ela, que tivera o singular privilégio de ver a Santíssima Virgem, foi profundamente marcada pela cruz de Jesus, acabou sendo consumida inteiramente pela tuberculose e morreu, jovem, na idade de 35 anos.

Neste Ano Jubilar, agradeçamos a Deus por todas as graças corporais e espirituais que Ele quis conceder a tantas centenas de milhares de peregrinos neste santo lugar e, pela intercessão de Bernadette, peçamos à Virgem Maria a graça de nos fortalecer no combate espiritual de cada dia, a fim de que possamos viver plenamente nossa fé cristã.

 

Homilia da Missa celebrada em Lourdes, 8/12/2007 – Tradução Arautos do Evangelho.