Chegamos processionalmente com cantos de alegria a esta esplêndida igreja, para que este edifício, “destinado de modo exclusivo e permanente a reunir os fiéis e à celebração dos santos mistérios, seja dedicado a Deus com rito solene, segundo o antiquíssimo costume da Igreja”.1

Minha afetuosa e grata saudação vai dirigida, antes de tudo, a Sua Eminência o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, a Sua Excelência Dom José Maria Pinheiro, pai e pastor desta diocese de Bragança Paulista.

A todos os excelentíssimos Bispos presentes e ao Pe. João Scognamiglio Clá Dias, fundador e presidente geral da grande família dos Arautos do Evangelho.

Saúdo com afeto cada um de vós, irmãos e irmãs. 

Um dia esplêndido e soleníssimo

Sinto-me particularmente feliz por estar aqui para presidir esta Eucaristia e juntos agradecermos ao Senhor pela oportunidade de dedicar a Deus, uno e trino, esta esplêndida igreja, nascida para exprimir, por meio da arte, segundo o carisma que vos é próprio, a Beleza que é Deus.

Um lugar onde invocar e celebrar o belo Pastor das ovelhas; onde sereis chamados a vos alimentar da Palavra divina e da Eucaristia, e a “viver a realidade sacramental”,2 alimento indispensável no caminho rumo à santidade, que é a perfeição da beleza.

Um lugar onde invocar a intercessão de Maria, a tota pulchra, espelho de todas as virtudes.

“Agradeçamos a Cristo, autor e cabeça desta assembléia, por este dia esplêndido e soleníssimo”.3

A dedicação de uma igreja conservou sempre o caráter alegre e a dimensão de festa.

A alegria, a festa deste dia é, portanto, grande, porque esta igreja se torna o lugar no qual experimentareis a presença de Deus no meio de nós, a aliança eterna entre o Senhor e cada homem e cada mulher.

Este lugar sagrado se torna também o local em que poderemos nos reunir como família e como comunidade, onde poderemos compartilhar a Fé que celebramos.

O mundo está carente de beleza

Quisestes que esta igreja fosse resplandecente de beleza. Toda beleza é pouca para acolher o Rei dos reis, para proclamar seu nome, sua doutrina, anunciar seu Reino que vem.

Aparentemente, o mundo de hoje perdeu o sentido do verdadeiro bem, o sentido do belo. Dizia Simone Weil que “a beleza está para as coisas como a santidade está para a alma”.4

Mas muitas situações humanas, espirituais e culturais do mundo de hoje são feias (portanto, o contrário de belas), e trazem os sinais da desarmonia, da laceração e da ruptura. Parece que não mais existem a beleza, a pureza e a simplicidade.

Mas talvez, sobretudo hoje, a beleza se faça presente e queira ser reconhecida por olhos e corações atentos, pesquisadores obstinados que sofrem com sua ausência.

O teólogo suíço Hans Urs von Balthasar escrevia:

Em um mundo sem beleza – ainda que os homens não consigam viver sem esta palavra, e continuamente a tenham nos lábios, equivocando-se sobre seu sentido – em um mundo que talvez não esteja privado dela, mas não é mais capaz de percebê-la, de se acertar com ela, o bem perdeu igualmente sua força de atração, a evidência do “dever a ser cumprido”. [...]

Em um mundo que não se considera mais capaz de afirmar o belo, os argumentos em favor da verdade esgotaram sua força de conclusão lógica.5

De fato, se olharmos ao nosso redor e dentro de nós – exilados do belo como os deportados de Babilônia – seremos tentados a pendurar as harpas nos salgueiros de nossa terra ferida.

Entre as inquietantes ideologias e os tristes efeitos dos conflitos de hoje, é realmente difícil entoar os cantos de alegria e de festa, os cantos da esperança e do amor.

Constante referência à beleza que salva

Este templo, porém, no qual resplandece de modo tão maravilhoso o carisma dos Arautos do Evangelho, quer ser sinal eloquente da verdadeira beleza, aquela que impressiona e que chama, que se propõe – e jamais se impõe – nas figuras da caridade gratuita, humilde, muitas vezes oculta e oferecida com sacrifício.

Beleza que não passa despercebida aos olhos capazes de maravilhar-se, aos olhos de quem sabe se tornar pequeno.

Beleza que se revela num fragmento de luz e chama pelo nome, beleza dialogante, que convida o homem a ser ele mesmo, quer dizer, a ser belo enquanto imagem da divina Imagem.

Beleza que convida a ser portador do feliz anúncio, a ser arautos da boa nova evangélica, e dá força para construir a paz. Beleza que reconcilia o homem e os irmãos, o homem com Deus, o homem e as criaturas, o homem consigo mesmo.

Este templo – no qual, dia após dia, celebrareis “o mais belo entre os filhos do homem” (Sl 44,3), escutareis a Sua Palavra de verdade, vos aproximareis da Sua mesa – será para vós e para todos aqueles que, ao longo do caminho, se juntarem a vós, constante referência à beleza que salva.

A igreja material, símbolo da Igreja viva

Os textos da Escritura que hoje, de modo particularmente solene, foram proclamados à nossa assembleia, fazem-nos refletir sobre o mistério da Igreja.

Com efeito, temos na primeira leitura, a Palavra de Deus, que reúne os homens; na segunda leitura, a assembléia orante, o templo de Deus, que é cada um de nós.

E no Evangelho, a confissão de Jesus Cristo como Filho de Deus vivo, expressa primeiramente por Pedro, que deu, assim, início àquela Igreja viva que se manifesta no edifício material de toda igreja.

“A alegria do Senhor é a nossa força”. São as últimas palavras da primeira leitura. Palavras que para nós hoje se tornaram uma esplêndida realidade.

Esta igreja, feita de pedras, existe para que a Palavra de Deus possa ser escutada, explicada e compreendida. Existe para que a Palavra de Deus seja para nós – os Arautos do Evangelho e todo o povo santo de Deus que vive nesta Igreja particular – força que cria beleza e amor.

Existe, em particular, para que nela possa começar a festa da qual Deus quer tornar partícipe a humanidade, não só no fim dos tempos, mas também agora.

Esta igreja existe para que a Palavra escutada desperte todos para o conhecimento do bem e do belo; “não existe outra fonte para conhecer e dar força a este conhecimento do que é justo e bom a não ser a Palavra de Deus”.6

Existe para que aprendamos a viver a alegria do Senhor, que é nossa força. Esta igreja existe, também, para que seja dado a conhecer ao mundo este novo carisma dos Arautos do Evangelho, concedido pelo Espírito Santo à Igreja na aurora do terceiro milênio cristão.

A Palavra escutada, rezada, anunciada, vos permitirá reconstruir, sempre mais solidamente, as vossas comunidades, as vossas casas, a vossa pátria, porque é o Senhor que constrói a cidade (Sl 126, 1); vos permitirá ser seus anunciadores, arautos, “até os confins da terra” (At 1,8). 

“Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo”: é a profissão de fé de Pedro, a fé sólida da Igreja. É a nossa fé. O fundamento, a pedra angular é Cristo. A Palavra de Deus, em Cristo Jesus, está presente no meio de nós como Pessoa.

Esta é a finalidade mais profunda da existência deste edifício sagrado: a igreja existe porque nela encontramos Cristo, o Filho do Deus vivo. Deus tem um rosto.

Deus tem um nome. Em Cristo, Deus Se fez carne e Se doa a nós no mistério da Santíssima Eucaristia. A Palavra é carne. Doa-Se a nós sob as aparências do pão e Se torna, assim, verdadeiramente o Pão do qual vivemos.7

A Eucaristia é o Pão que nos permite viver como filhos.

Amor ardoroso ao Papa e aos sucessores dos Apóstolos

“Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo”: a profissão de Fé de Pedro nos recorda também a nossa adesão ao Santo Padre e ao seu magistério, tão cultivada e tão amada pelos Arautos do Evangelho.

Dentro de pouco acenderemos doze velas; são os doze fundamentos. Não são pedras materiais, mas são os Apóstolos com o testemunho de sua fé. Eles continuam sendo o fundamento da Igreja, mediante o ministério da sucessão apostólica: os Bispos.

As velas que acenderemos junto às paredes da igreja, nos lugares onde serão feitas as unções, recordam os Apóstolos: a sua Fé é a verdadeira luz que ilumina a Igreja. E ao mesmo tempo é o fundamento sobre o qual ela se apóia.

A Fé deles é verdade, é fundamento sobre o qual estamos, é luz através da qual vemos. Eis a nossa Fé. Esta nova igreja que hoje dedicamos é edificada sobre um fundamento seguro: Pedro, os Apóstolos e seus sucessores. E dela Cristo é a pedra angular.

O simbolismo desse ato de acender as doze velas toca de forma especial os Arautos do Evangelho, pois eles levam no coração um amor ardoroso ao Papa e aos sucessores dos Apóstolos, os Bispos em comunhão com ele.

Que essa fidelidade à Cátedra de Pedro não cesse de crescer em vós, todos os dias, e ilumine a vossa vida. É da união com o Sumo Pontífice que decorrem as graças mais intensas e eficazes para o progresso de vossa instituição. 

O templo interior seja tão belo quanto o de pedra

Que esta igreja seja a primeira entre muitas outras que os Arautos devem construir pelo mundo inteiro, a fim de expandir seu carisma e atrair para Deus e para sua Santa Igreja, por meio da beleza, incontáveis homens e mulheres, jovens e adultos, crianças e idosos de todas as nações.

A atividade de todos os que trabalharam para construir este edifício é, certamente, apreciada por Aquele que é celebrado como Deus, mas não tanto quanto o templo animado, que sois todos vós, pois Ele admira de preferência a casa feita de pedras vivas e bem compactas, forte e solidamente estabelecida sobre o fundamento dos Apóstolos e dos profetas, do qual Jesus Cristo mesmo é a pedra angular.8

Concluo com uma oração do século V:

Protege, Senhor, as pessoas aqui reunidas: seus corações haviam preparado um santuário, antes que suas mãos o construíssem para a glória do Teu nome.

O templo interior seja tão belo como o templo de pedras. Digna-te habitar tanto num como no outro.

Nossos corações, como estas pedras, levam impresso o Teu nome.9

Maria, Rainha dos Arautos, interceda por nós. Amém.


1 Dedicazione della Chiesa e dell’Altare, Premissa.
2 Ibidem, nº 85.
3 EUSÉBIO DE CESARÉIA, História eclesiástica, X, IV, 71.
4 Cf. S. WEIL, Pensieri disordinati sull’amore di Dio, Vicenza, 1982, p. 44.
5 H. U. VON BALTHASAR, Gloria, Jaca Book, Milão, 1985, vol. 1, p. 10-12.
6 Bento XVI, Homilia na paróquia romana de Santa Maria Estrela da Nova Evangelização, 10/12/2006.
7 Idem, ibidem.
8 EUSÉBIO DE CESAREIA, ibidem, X, IV, 21, 22.
9 HAMMAN A., Preghiere dei primi cristiani. Vita e Pensiero, Milano 1954, p. 258.