A expressão “Nova Evangelização” foi usada, pela primeira vez, pelo Papa João Paulo II. Designa uma característica peculiar de seu pontificado.

Trata-se mais de uma intuição do que de um projeto. É bem verdade que ele falou também de métodos e de novo ardor, mas não explicou em que consistem esses métodos.

Essa expressão tem sido usada também para designar “segunda evangelização”, principalmente com relação aos países de antiga cristandade que sofreram o impacto da cosmovisão da modernidade.

Nem mesmo o texto dos Lineamenta, destinado a promover uma primeira reflexão sobre o tema do Sínodo consegue expor claramente o conceito de “Nova Evangelização”, seus métodos e objetivos.

Neste artigo, desenvolverei o tema, dando os seguintes passos: o que é evangelizar, qual o significado da expressão “Nova Evangelização”, seu contexto e conteúdo.

O que é evangelizar

Paulo VI, na Exortação Apostólica pós-sinodal Evangelii nuntiandi, afirma que evangelizar é anunciar Jesus Cristo: sua vida, sua Palavra, seu Reino, sua Morte e Ressurreição.1

Podemos dizer que ela compreende também o Dom do Espírito Santo, pois

não foi senão depois da vinda do Espírito Santo, no dia do Pentecostes, que os Apóstolos partiram para todas as partes do mundo a fim de começarem a grande obra da evangelização da Igreja.2

Bento XVI, na Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini, afirma que existe um único Verbum que se manifesta numa sinfonia de vozes que vai desde a criação, passando pela Sagrada Escritura, até o silêncio da Cruz. Conclui afirmando que a pessoa de Jesus Cristo é a Boa-nova que anunciamos.3

Mas Cristo, Verbo encarnado, não é só objeto da evangelização. Ele é também o sujeito da evangelização. Esta afirmação tem o seu fundamento na doutrina de Santo Agostinho.

Ao comentar a expressão de João Batista, “Eu sou a voz que clama no deserto” (Jo 1, 23), Agostinho afirma que João Batista é a voz da Palavra.

Continua ele: vozes da Palavra foram os patriarcas, os profetas e os apóstolos.4 E conclui: “É preciso que todas as vozes diminuam para fazer progressos no conhecimento de Cristo”.5 Porque todos aqueles que evangelizam são vozes de uma única Palavra, de um único Verbo.

Como a Igreja é o Corpo de Cristo, a evangelização compreende também as tarefas eclesiais: os Sacramentos, as pastorais, o testemunho cristão, a vida consagrada.

Na Exortação Apostólica pós sinodal Vita consecrata, afirma João Paulo II que a vida consagrada é uma vida em missão.6

Podemos afirmar que também a promoção da dignidade humana e da justiça, realizada como imperativo da fé e do amor ao próximo, é componente da evangelização.

Alguns consideram como evangelização o diálogo da Igreja com as religiões. Contudo, João Paulo II, na Encíclica Redemptoris Missio, afirma que o diálogo com as religiões não substitui o anúncio explícito de Jesus Cristo.

Ao contrário, ele tende a esse anúncio. Além disso, o diálogo com as religiões deve ser conduzido com a consciência de que a Igreja é o caminho ordinário para a salvação e que só ela possui todos os meios salvíficos.7

Nova Evangelização

O termo Nova Evangelização foi usado por João Paulo II por referência à primeira evangelização da América Latina, no sentido de continuá-la, completá-la e renová-la de acordo com as novas condições, necessidades e exigências de nossos povos.

Em seguida, o conceito foi transferido para o caso dos países descristianizados da Europa, envolvidos pela cultura da modernidade.

Finalmente, a expressão se universalizou de modo que atualmente designa, sobretudo, a evangelização da cultura. A cultura é, pois, o centro, o meio e o objetivo da Nova Evangelização.

Nas últimas quatro décadas, se desenvolveu na Igreja uma ampla e profunda reflexão sobre o significado da cultura e sua relação com a mensagem cristã e a missão da Igreja.

Essa reflexão foi motivada, durante o Concílio Vaticano II, pela tomada de consciência dos problemas da evangelização nos países de missão ad gentes.

A preocupação era como adaptar a mensagem cristã às culturas locais. Outro fator foi a crise provocada nos países de antiga cristandade frente à cosmovisão da modernidade.

A cultura compreende o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das faculdades do espírito e do corpo; o conhecimento e o trabalho pelos quais se procura submeter a Terra; a humanização da vida social que se beneficia mediante o progresso dos costumes e instituições.

Compreende as descobertas científicas, valores estéticos, intuições filosóficas, morais e religiosas. Compreende os estilos de vida e as diferentes escalas de valores.

A cultura, pois, expressa a identidade histórica e social dos seres humanos. Ela está marcada pela historicidade. Portanto, existe não só a cultura em geral, mas a diversidade de culturas.

A Gaudium et spes destaca a cultura como dimensão essencial e, portanto, universal do ser humano.8 Por ela, o ser humano se humaniza.

É a cultura que distingue o homem dos animais e das coisas da natureza. Por meio da cultura, o homem se humaniza, humaniza a natureza e o mundo que o rodeia. Humaniza-se porque desenvolve suas potencialidades subjetivas.

O drama do nosso tempo, afirmou o Papa Paulo VI, é a ruptura entre o Evangelho e a cultura.9 Segundo ele, o processo evangelizador da cultura é o seguinte:

a) levar a Boa-nova a todos os ambientes da humanidade e, com seu influxo, transformar, a partir de dentro, a própria humanidade;

b) converter, ao mesmo tempo, a consciência pessoal e coletiva dos homens, sua vida e ambiente concretos;

c) “chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação”.10

A ação evangelizadora da Igreja se exerce no reconhecimento dos autênticos valores culturais e no empenho por sua consolidação e fortalecimento, e, também, pela denúncia e purificação dos contravalores que revelam a presença do pecado.

O discernimento evangélico das culturas é o ponto inicial em todo o processo de inculturação do Evangelho.

Desafios culturais enfrentados pela Nova Evangelização

Um dos desafios mais importantes é a aceitação de Deus como Fundamento, não só do universo e da vida em geral, mas também da reta conduta humana, portanto, da justiça, da fraternidade e da paz.

Existe também a dificuldade de conciliar vivência democrática e respeito aos valores morais. Muitos acham que a legalização do aborto, o reconhecimento jurídico de união de homossexuais, a legalização da eutanásia, fazem parte da vivência democrática.

Existe ainda o desafio de conciliar o respeito pela ecologia ambiental e o respeito pela ecologia humana.

Como afirmou Bento XVI, na Encíclica Caritas in veritate, ambas fazem parte do único livro da natureza. Sem respeito pela ecologia humana, a consciência comum não conseguirá respeitar também a ecologia ambiental.11

Quanto à secularização, como ela não assume publicamente um discurso explícito contra Deus e contra a religião, facilmente penetra na mentalidade das pessoas.

Quando penetra na mentalidade dos cristãos, a consequência é dramática: leva ao esquecimento do primado da graça. Tudo então passa a ser encarado de modo humano.

Até mesmo o pecado passa a ser visto como uma patologia psicológica, política e social, e não como um fato que aliena com relação a Deus e ao próximo.

Além da secularização, que se difunde cada vez mais, é necessário também levar em consideração que existe, hoje, uma sede de espiritualidade, pressuposto para a Nova Evangelização.

Quanto à questão de Deus, ela deve ser tratada, sobretudo, através do diálogo e do testemunho de vida.

O Papa Bento XVI se referiu ao Pátio dos Gentios, lugar reservado, no Templo de Jerusalém, para a adoração de Deus por parte dos pagãos.

Hoje é necessário criar modalidades de espaço de gentios para um diálogo com aqueles que estão insatisfeitos com seus mitos, ritos e deuses; diálogo com aqueles que colocam a questão de Deus.

O simples fato de colocar a questão de Deus talvez já seja sinal de uma busca, de uma ação no Espírito Santo na consciência da pessoa.

Conclusão

O mundo atual está de tal modo envolvido por grandes transformações culturais que muitos chegam a falar de uma mudança de época ou de uma nova época da humanidade.

Por outro lado, ganha mais espaço o secularismo que tenta reduzir Deus a uma hipótese inútil e excluir a religião do âmbito da vida pessoal e social.

Essa postura tem consequências negativas para o sentido da vida, para a reta concepção da conduta humana, para o relacionamento do homem com a natureza, consigo mesmo e com a sociedade.

A Nova Evangelização não é um julgamento da evangelização precedente, como se esta não tivesse sido válida. Trata-se, agora, de enfrentar os novos desafios surgidos das transformações culturais que expressam uma nova época da humanidade.

Trata-se de uma nova necessidade, ou seja, de uma nova expressão do espírito missionário sempre presente na Igreja.

A evangelização, independentemente de ser denominada nova, parte sempre do fato de que o desejo de Deus está radicado na interioridade profunda do ser humano. A evangelização é a resposta a uma busca, a um anseio do coração humano.


Dom Benedito Beni dos Santos é um dos 40 convidados por Bento XVI para participar da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos

 1 Cf. PAULO VI. Evangelii nuntiandi, n. 17; n. 26.
2 Idem, n. 75.
3 Cf. BENTO XVI. Verbum Domini, n. 7.
4 Cf. SANTO AGOSTINHO. Sermo 288, 4: ML 38, 1306.
5 Idem, 288, 5.
6 Cf. JOÃO PAULO II. Vita consecrata, n. 72.
7 Cf. JOÃO PAULO II. Redemptoris missio, n. 55.
8 “É próprio da pessoa humana necessitar da cultura, isto é, de desenvolver os bens e valores da natureza, para chegar a uma autêntica e plena realização” (CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et spes, n. 53).
9 Cf. PAULO VI, op. cit., n. 20.
10 Idem, n. 19.
11 Cf. BENTO XVI. Caritas in veritate, n. 51.