“O homem é um lobo para outro homem”. [1]
Esta chocante frase de Plautus talvez não nos cause tanta má impressão quanto a do filósofo Sêneca: “Tornei-me ainda mais cruel e menos homem, porque estive entre os homens”. [2]
Como explicar que possamos ser um lobo para o próximo e tratá-lo com crueldade?
Por que será que presenciamos a crescente falta de respeito ou desprezo, e até mesmo a agressividade no trato com o próximo?
Exemplo perfeitíssimo de equilíbrio de todos os nossos instintos, inclusive o de sociabilidade
Com efeito, está na nossa natureza o desejo de nos relacionarmos.
O trato com o outro nos é necessário, e nosso instinto de sociabilidade reclama o convívio.
Mas esse instinto mal conduzido e desequilibrado degenera num relacionamento não raramente marcado por desastres que nos chocam.
Qual a real causa das crueldades hodiernas existentes no trato humano?
Num sentido oposto, bastará lançarmos nosso olhar em Alguém, em tudo igual a nós, exceto no pecado, cujo Coração “tanto amou os homens”, [3] e encontraremos a resposta à questão levantada.
Conforme ensina Mons. João Clá Dias, EP, este Varão, que por sua vida e ensinamentos nos trouxe a Boa-Nova, ensinou-nos a amar o próximo como Ele nos amou; Ele por sua sociabilidade divinizada, desde o primeiro instante de sua existência desejou reparar os pecados cometidos por seus irmãos e, para salvá-los, entregou-Se à morte de Cruz.
Assim teria procedido se fosse para redimir um só pecado e salvar uma só alma.
E como se isso não bastasse, deixou-Se em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, até o fim do mundo, como alimento nosso sob as Espécies Eucarísticas.
N’Ele encontramos o perfeitíssimo exemplo e, ao mesmo tempo, o próprio equilíbrio de todos os nossos instintos, inclusive o instinto de sociabilidade. [4]
E continua Mons. João:
Foi d’Ele que nasceram os hospitais, os orfanatos, os asilos, as universidades, etc.
Quando os homens se resolvem a colaborar com sua graça, daí nascem os esplendores de realizações capazes de tornar fulgurante toda uma era histórica.
Pelo contrário, ao se fecharem ao seu apelo, os crimes, os roubos, a desonra, a mentira, os suicídios, as calúnias, etc., proliferam como praga por toda parte. [5]
Eis a resposta lúcida que aflora destas considerações: bastará tirar a Nosso Senhor do centro de nossas vidas e de nossos relacionamentos, e veremos a realidade cruel das palavras ditas pelos pensadores registradas no início deste artigo.
Chave do bom convívio e relacionamento com o próximo
De fato, sem a graça de Deus e a visão sobrenaturalizada da vida, sem a fonte de todo o bem, Nosso Cristo Redentor, o homem é mesmo um lobo para o outro homem.
Oh, que maravilha quando as pessoas fazem do eixo de sua existência o amor a Deus sobre todas as coisas e, em função do Salvador, o amor ao próximo"
São os encantos da vida e do convívio que desabrocham no relacionamento humano.
Isto faz lembrar a quem vos escreve, caro leitor, das palavras de uma senhora, no século passado, toda feita de bondade, doçura e suavidade, que compreendeu e tão virtuosamente cultivou esta verdade:
“Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”. [6]
Esta frase, manifestada por Dona Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira em uma “prosinha” com seu filho Plinio, bem apresenta a verdadeira benquerença entre as pessoas.
Qual a fonte, o alicerce deste convívio, vivido por ela?
Mons. João, em sua obra Dona Lucilia, assim comenta: Pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus, Lucilia desenvolveu ainda mais em sua alma o desejo de fazer o bem.
N’Ele estava a fonte do enorme afeto que transbordava no relacionamento dela com os outros.
Afeto composto de alegria, de esperança, que continha em si um grau de amizade, de perdão e de bondade, tão entranhados e generosos como seria difícil imaginar. [7]
Aqui está a verdadeira chave do bom convívio e relacionamento com o próximo: devoção ao Sagrado Coração de Jesus e, como não poderia deixar de ser, a Nossa Senhora, que para esta dama paulista se apresentava especialmente como Nossa Senhora da Penha, sua Madrinha de Batismo.
É para esta forma de existir sobre a face da terra que a vida vale a pena ser vivida: amor a Jesus, a Maria e ao próximo em função deles… o resto é resto.
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