Desde a Antiga Lei, a pessoa do sacerdote é cercada de uma dignidade que requer vida exemplar. Assim, no Livro do Levítico, encontramos um duplo apelo à santidade.
De um lado, a mando de Deus, Moisés exorta o povo de Israel a buscar a perfeição: “Fala a toda a comunidade dos israelitas e dize-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo’” (Lv 19, 1).
Mas aos sacerdotes a santidade é exigida com mais razão, porque são eles a oferecer os sacrifícios, fazendo o papel de intermediários entre Deus e o povo. Apresentar-se manchado pelo pecado diante do Altíssimo, para exercer o múnus sacerdotal, seria uma afronta ao Criador.
“Os sacerdotes […] serão santos para o seu Deus e não profanarão o seu nome, porque oferecem ao Senhor os sacrifícios consumidos pelo fogo, o pão de seu Deus. Serão santos” (Lv 21, 5-6).
Chamado a ser mediador entre Deus e os homens
E dado que o Antigo Testamento é figura do Novo, compreende-se a necessidade de, na Nova Aliança, a santidade atingir um grau muito maior.
Isto transparece da Teologia tomista, a qual nos apresenta o ministro ordenado como tendo sido elevado a uma dignidade régia, no meio dos outros fiéis de Cristo, pois O representa e, em diversas ocasiões, age in persona Christi. Impossível, portanto, imaginar título superior.
E, como ele é chamado a ser mediador entre Deus e os homens, além de guia destes para as coisas divinas, deve necessariamente ser-lhes superior em santidade, embora todos os batizados sejam também chamados à perfeição.
Santo Afonso de Ligório, em sua obra A selva, fundamentando-se na autoridade de São Tomás, esboça a figura do sacerdote como aquele que, por seu ministério, supera em dignidade os próprios Anjos, e por isso está obrigado a uma maior santidade, dado o seu poder sobre o Corpo de Cristo.
De onde, conclui o fundador dos Redentoristas, a necessidade de uma dedicação integral do sacerdote à glória de Deus, de tal sorte que brilhe aos olhos do Senhor em razão da sua boa consciência e aos olhos do povo por sua boa reputação.[1]
Quanto mais semelhantes, melhor
Sobre isso ainda, recorda a doutrina tomista a necessidade de os ministros do Senhor terem uma vida Santa: “In omnibus ordinibus requiritur sanctitas vitæ”.[2]
Devem, portanto, sobretudo eles, ser o mais possível semelhantes ao próprio Deus: “Sede perfeitos assim como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5, 48).
E prossegue:
Diz Dionísio: “Assim como as mais sutis e mais puras essências, penetradas pelo influxo dos esplendores solares, derramam sobre os outros corpos, à semelhança do Sol, sua luz supereminente, assim também, em todo ministério divino, ninguém pretenda ser guia dos outros sem ser, em toda a sua maneira de comportar-se, muito semelhante a Deus”.
Por isso, a santidade de vida é requerida na Ordem como necessidade de preceito. Mas não para a validade do Sacramento.[3]
Não basta fazer bem feito, é preciso viver o que se instrui
São conhecidas as invectivas de Nosso Senhor contra os escribas e fariseus. O que Jesus recriminava a estes homens, tão conhecedores da Lei, era justamente o fato de não viverem aquilo que ensinavam.
Pretendendo aparecer aos olhos dos outros como exímios cumpridores dos preceitos mosaicos, não tinham reta intenção nem verdadeiro amor a Deus. Seus ritos externos não eram acompanhados pela compunção de coração.
Para que os sacerdotes da Nova Aliança não caiam no mesmo desvio, convém lembrar o Comentário às sentenças de Pedro Lombardo, em que São Tomás afirma: “Aqueles que se entregam aos ministérios divinos obtêm uma dignidade régia e devem ser perfeitos na virtude, conforme se lê no Pontifical”.[4]
Daí que, na homilia sugerida no rito de Ordenação Presbiteral, esteja incluída esta tocante exortação:
Tomai consciência do que fazeis, e ponde em prática o que celebrais, de modo que, ao celebrar o mistério da Morte e Ressurreição do Senhor, vos esforceis por mortificar o vosso corpo, fugindo aos vícios, para viver uma vida nova.[5]
Chamado a um grau especial de santidade
A caridade de Cristo O levou a oferecer a vida em holocausto no patíbulo da Cruz, pela Redenção da humanidade.
Também aqueles que são chamados a ser mediadores entre Deus e os homens devem exercer o seu ministério por amor, como ensina o Aquinate.
Compete aos Prelados da Igreja desejar, no governo dos seus subalternos, servir somente a Cristo, por cujo amor apascentam suas ovelhas, como está no Evangelho de São João: “Se Me amas, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 15).
Cabe-lhes também dispensar ao povo as coisas divinas, conforme se lê em I Cor 9, 17: “É uma missão que me foi imposta”; sob este ponto de vista, são mediadores entre Cristo e o povo.[6]
O sacerdote, portanto, é chamado a um grau de santidade especial: “Pela Ordem sacra, o clérigo é consagrado aos ministérios mais dignos que existem, nos quais ele serve o Cristo no Sacramento do Altar, o que exige uma santidade interior muito maior do que a exigida no estado religioso”.[7]
Crescer no amor de Deus e do próximo
Também no Concílio Vaticano II se adverte que os sacerdotes, “imitando as realidades com que lidam, longe de serem impedidos pelos cuidados, perigos e tribulações do apostolado, devem antes por eles elevar-se a uma santidade mais alta”.[8]
O exercício de seu múnus sacerdotal será, pois, o melhor instrumento de santificação: “Cresçam no amor de Deus e do próximo com o exercício do seu dever cotidiano”.[9]
Para a santificação e eficácia do sacerdote, a graça sacramental tem um papel determinante, pois lhe dá oportunidade de receber auxílios sobrenaturais mais intensos para cumprir sua função de santificar as almas e, ao mesmo tempo, unir-se de forma mais íntima a Cristo Sacerdote.
Essa união não é só instrumental, em decorrência do caráter sacramental, mas o configura a Cristo pela caridade, de modo que ele possa dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 296, Agosto 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 295, Julho 2026
Quem são os Arautos do Evangelho?
Auxílio dos Cristãos
Músicas Natalinas