O Espírito Santo, que guia a Igreja, fez com que ela optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta de Alexandria, o que vale até hoje para nós católicos.
Estamos no mês da Bíblia. É um momento dedicado mais especialmente a ter as Sagradas Escrituras no centro das cogitações.
É conveniente rezar mais com a Bíblia, conhecê-la mais e utilizá-la não só como uma fonte histórica de estudos, mas tê-la como um meio que nos conduza a viver a Palavra de Deus, aplicando os escritos sagrados à vida diária e assim reverenciarmos, louvarmos, amarmos e servirmos a Deus.
Faz parte do conhecimento bíblico saber a história das Sagradas Escrituras. Saber, por exemplo, por que a Bíblia católica é diferente da protestante.
No ano 100, rabinos definem a bíblia judaica
A Bíblia protestante tem apenas sessenta e seis livros porque Lutero e seus seguidores rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), os dois de Macabeus, além de Ester capítulo 10, versículos 4 a 16 e Daniel capítulo 3, versículos 24 a 20, e os capítulos 13 e 14.
A razão disso vem de longe.
Ainda no século I d.C. os rabinos judeus se reuniram no Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes), no sul da Palestina, a fim de definirem a Bíblia judaica. Isto porque nesta época começava a surgir o Novo Testamento com os Evangelhos e as cartas dos Apóstolos, que os judeus não aceitaram.
Nesse sínodo, os rabinos definiram como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o seguinte:
1. Deveria ter sido escrito na Terra Santa (mas não foi levado em consideração pela unanimidade dos rabinos);
2. Escrito somente em hebraico e, em poucos casos, em aramaico;
3. Escrito antes de Esdras (455-428 a.C.);
4. Sem contradição com a Torá ou Lei de Moisés.
Esses critérios eram nacionalistas, mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio da Babilônia. Por esses critérios, não foram aceitos na Bíblia judaica da Palestina os livros que hoje não constam na Bíblia protestante, citados antes.
A Bíblia dos judeus da Alexandria
Acontece que em Alexandria, no Egito, cerca de duzentos anos antes de Cristo, já havia uma forte colônia de judeus vivendo em terra estrangeira e falando o grego.
Os judeus de Alexandria, através de setenta sábios judeus, traduziram os livros sagrados do hebraico para o grego.
Surgiu assim a versão grega chamada alexandrina ou dos Setenta. E essa versão dos Setenta incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas, rejeitaram.
Das duas Bíblias judaicas, qual tornou-se comum entre os cristãos?
Havia então, no início do Cristianismo, duas Bíblias judaicas: uma da Palestina (restrita) e a alexandrina (completa – versão dos Setenta).
Os Apóstolos e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (alexandrina), considerando canônicos os livros rejeitados em Jâmnia.
Ao escreverem o Novo Testamento, usaram o Antigo Testamento, na forma da tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta era diferente do texto hebraico.
O texto grego dos Setenta tornou-se comum entre os cristãos; e, portanto, o cânon completo, incluindo os sete livros e os fragmentos de Ester e Daniel, passou para o uso dos cristãos.
O Novo Testamento contém numerosas citações do Antigo, cujo número exato varia segundo os critérios dos estudiosos: alguns falam em cerca de trezentas, outros em pouco mais de trezentas e cinquenta. A maioria dessas citações, porém, provém da versão grega dos Setenta (Septuaginta), o que evidencia que os Apóstolos e os primeiros cristãos a utilizavam amplamente como sua Escritura.
Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram.
Por exemplo:
- Romanos 1, 12-32 se refere a Sabedoria 13, 1-9;
- Romanos 13, 1, a Sabedoria 6, 3;
- Mateus 27, 43, a Sabedoria 2, 13.18;
- Tiago 1, 19, a Eclesiástico 5, 11;
- Mateus 11, 29, a Eclesiástico 51, 23-30;
- Apocalipse 8, 2, a Tobias 12, 15.
Os livros “rejeitados”
Nos séculos II a IV, houve dúvidas na Igreja sobre os sete livros por causa da dificuldade do diálogo com os judeus.
Finalmente, a Igreja ficou com a Bíblia completa da versão dos Setenta, incluindo os sete livros.
Por outro lado, é importante saber também que muitos outros livros que todos os cristãos têm como canônicos não são citados nem mesmo implicitamente no Novo Testamento. Por exemplo: Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum, Rute.
Outro fato importantíssimo é que nos mais antigos escritos dos Santos Padres da Igreja (Patrística), os livros rejeitados pelos protestantes (deuterocanônicos) são citados como Sagrada Escritura.
Assim, São Clemente de Roma, o quarto Papa da Igreja, no ano de 95, escreveu a Carta aos Coríntios citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico – livros rejeitados pelos protestantes.
Inspirados pelo Espírito Santo
Ora, será que o Papa São Clemente se enganou, e com ele a Igreja? É claro que não.
Da mesma forma, o conhecido Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso do Eclesiástico e do Segundo Livro dos Macabeus; Santo Hipólito (234), comenta o Livro de Daniel com os fragmentos deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada Escritura: Sabedoria, Baruc, Tobias e os dois livros de Macabeus.
Fica assim, muito claro, que a Sagrada Tradição da Igreja e o Sagrado Magistério sempre confirmaram os Livros Deuterocanônicos como inspirados pelo Espírito Santo.
Vários Concílios confirmaram isto: os Concílios Regionais de Hipona (393); Cartago II (397); Cartago IV (419); Trulos (692). Principalmente os Concílios Ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha.
Lutero adota o cânon da Bíblia palestina
No século XVI, Martinho Lutero (1483-1546), para contestar a Igreja e para facilitar a defesa das suas teses, adotou o cânon da Palestina e deixou de lado os sete livros conhecidos, com os fragmentos de Esdras e Daniel.
Sabemos que é o Espírito Santo quem guia a Igreja e fez com que, na hesitação dos séculos II a IV, a Igreja optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta de Alexandria, o que vale até hoje para nós, católicos.
A Tradição dos Livros Sagrados
Lutero, ao traduzir a Bíblia para o alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de 1534, e as sociedades bíblicas protestantes, até o século XIX, incluíam os sete livros nas edições da Bíblia.
É a Tradição que torna conhecido à Igreja o cânon completo dos Livros Sagrados e as próprias Sagradas Escrituras.
Neste fato fundamental para a vida da Igreja (a Bíblia completa), vemos a importância da Tradição da Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje.
Disse o último Concílio:
Pela Tradição, torna-se conhecido à Igreja o cânon completo dos Livros Sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem, sem cessar, atuantes. Assim, o Deus que outrora falou mantém um permanente diálogo com a Esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e, através da Igreja, no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles copiosamente a Palavra de Cristo.[1]
De geração em geração
Por fim, é preciso compreender que a Bíblia não define, ela mesma, o seu catálogo; isto é, não há um livro da Bíblia que diga qual é o índice dela. Assim, este só pôde ter sido feito pela Tradição apostólica oral que, de geração em geração, chegou até nós.
Se negarmos o valor indispensável da Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia.