Entrega nas mãos do Senhor a tua vida
O sofrimento é um dos grandes mistérios que cerca a existência; ali estaria ele, ainda que na comunidade humana todos fossem bons, justos e santos.
Muitos, além disso, pensam: “Se Deus existisse, Ele não permitiria o sofrimento”, e acabam se afastando da Religião, como se pudesse o homem, usando mal sua liberdade e fazendo péssimas escolhas, tornar ausente o Bem.
E, até para aqueles que têm fé e que procuram ser bons, a cruz se constitui uma lei: quanto maior o chamado, maior a cruz.
Nosso Senhor é a prova disso: ninguém sofreu, sofre ou sofrerá como Ele precisou sofrer.
Então, as perguntas não se calam: por que Deus premia seus justos com sofrimento? Por que ele faz parte da vida humana? De que modo podemos suportá-lo melhor?
O sofrimento e o pecado original
Devido ao fato de nosso primeiro pai ter comido o fruto proibido, a humanidade herdou o pecado original.
Ou seja, recebemos tanto a culpa quanto a consequência dessa falta em nosso nascimento e, mesmo com o Batismo, apesar de não sermos mais réus, ainda sofremos seus efeitos.
O pecado original deixa em nós marcas de degeneração.
Não só nosso corpo sofre com o desgaste do tempo, mas também nossa alma, e de uma maneira peculiar: as nossas potências, que antes eram ordenadas, estão bagunçadas demais e correm o risco de se inflamarem cada vez que não as contemos.
São os sentimentos que escravizam a vontade, e esta que não se liberta, pois o intelecto muito dificilmente a coordena.
Deus, sabendo desta nossa imperfeição, encontrou o meio mais sábio de “polir” nossas arestas; o sofrimento é, pois, a divina lixa, o divino esmeril que corrigirá nossos defeitos.
Essa é uma das razões pelas quais todos temos como que uma “cota” de sofrimento, que pode ser maior ou menor devido ao estado da sociedade: em algumas épocas cristãs encontraremos amparos que farão a vida se tornar mais doce; já onde o vício corre solto, a insegurança, a injustiça e a falta de caridade serão o fruto colhido.
Além disso, o sofrimento serve para nos abrir os olhos. Através dele medimos a fragilidade da vida e a inconstância de nossa vaidade.
Quando percebemos que Deus é nossa única sustentação, pois só Ele é eterno e imutável, caminhamos com mais decisão.
É por isso que o sofrimento é também um ótimo meio de santificação.
Como aguentar melhor as provações?
Visto que necessariamente teremos que sofrer, e considerando que muitas vezes as provações servem para nos aproximar de Deus, como, porém, aguentá-las melhor?
Saber que um remédio faz bem não o torna menos amargo; e com a cruz funciona da mesma forma: seu peso ainda é tal que verga muito nossas costas.
Em primeiro lugar, o conselho mais profundo e salutar é dado pelo próprio Cristo: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Pois meu fardo é leve e meu jugo é suave” (Mt 11, 28-29).
Além disso, Nosso Senhor nos dá um exemplo justo: ao estar em agonia no horto, pede ao Pai que, se puder, acabe com aquele tormento, mas que se faça a sua vontade.
Assim, estes fatos conjugados servem para nos orientar: podemos pedir que este ou aquele sofrimento termine, mas estar com Nosso Senhor é ainda o melhor meio de suportar a cruz.
Exercitar as virtudes
A prática constante da virtude também permite que suportemos o peso do dia melhor.
Como visto anteriormente, é a confiança a primeira guerreira na linha de frente a nos lembrar que, embora haja tantas derrotas, o verdadeiro vitorioso é Deus e os que estiverem alinhados com Ele em seu exército.
A fé, a caridade, a temperança e a modéstia exercem principal papel no apoio à cruz.
A fé nos lembra do Pai amoroso; a caridade muda nossa perspectiva, o que já nos causa muito alívio no sofrimento; a temperança nos aconselha a manter nossas expectativas baixas perante as delícias da vida; e a modéstia nos conduz a uma vida mais voltada aos valores sobrenaturais.
Outra grande virtude que está intimamente ligada ao sofrimento é a paciência.
Por ela, aprendemos que os tempos de Deus não são os nossos, e que é preciso continuar a caminhar, a degustar a vida e a reconhecer em cada pedaço dela a mão do Senhor.
A cruz pode ser escolhida?
Conta-se a história de um singelo sapateiro alemão, há muitos anos, que reclamava demais da cruz que fora destinada por Deus para que carregasse.
Certa noite, foi ele visitado por seu Anjo da Guarda, que lhe disse:
— Deus ouviu tua oração. Caminha comigo.
E o Anjo o levou até um vale enorme, onde havia muitas cruzes de diferentes tamanhos, formatos e espessuras.
— Escolhe a tua cruz. A que preferires será a que carregarás.
Então passou o sapateiro alemão a procurar com afinco uma cruz que lhe servisse bem.
Pegou várias e testou: algumas, muito pequenas, porém, arranhavam-lhe as mãos; outras grandes, bem finas, atrapalhavam-no na hora de as carregar.
E assim foi a noite toda: nada de encontrar a cruz perfeita.
Quando já amanhecia, o sapateiro encontrou no vale das cruzes uma que julgava perfeita: tamanho proporcional para seus ombros, que se encaixava com destreza e não parecia pesar-lhe tanto.
— É esta, achei a cruz perfeita para mim! – exclamou o sapateiro.
— Pois bem, vê o nome de quem a carregava.
E o sapateiro descobriu que era a sua própria e antiga cruz, já que era o seu nome escrito ali.
Lenda ou verdade? A história se perde nas brumas do tempo. Mas serve de lição para nós: a cruz que carregamos é única, personalizada para nossos ombros.
Diz o ditado que Deus nos dá o cobertor proporcional ao frio. Saibamos colocar nossa esperança n’Ele, e peçamos que nos ajude a bem carregar a cruz de cada dia.