Duas almas extraordinárias foram suscitadas por Deus, no século XVI, para juntas empreenderem a reforma da Ordem do Carmo. Uma delas é a grande Santa Teresa de Jesus; a outra, São João da Cruz, contemplativo insigne, confessor e Doutor da Igreja, cuja festa é celebrada no dia 14 deste mês.
“Uma das almas mais puras que há na Igreja”
Dele sabemos que, assim como Santa Teresa, nasceu na província de Ávila, Espanha, e sua primeira formação se deu em Medina del Campo, onde estudou com os padres jesuítas. Desejava, porém, tornar-se carmelita e nesta Ordem ingressou aos 21 anos, recebendo sua educação teológica em Salamanca.
Em 1567, ordena-se sacerdote e celebra sua primeira Missa.
Chamado a uma austera e sublime vida contemplativa, o jovem religioso logo se decepcionou com o relaxamento monástico dos conventos carmelitas.
Quando tencionava procurar a Ordem dos cartuxos, na qual poderia expandir seus anseios de alma, encontrou-se com Santa Teresa e aceitou dela o desafio de promoverem a reforma do Carmelo.
Como costuma acontecer, o zelo com que trabalhou pela observância religiosa lhe angariou maus tratos e difamações, chegando mesmo a ser encarcerado em Toledo.
Nesse período de duras provações, acendeu-se nele a labareda de sua poesia mística. Datam de então os célebres escritos, como a Subida do Monte Carmelo, Noite escura da alma, Cântico Espiritual, Chama de amor viva, etc.
Por mais de vinte anos, consagrou-se a uma existência semeada de ascese e fecunda contemplação, vindo a falecer aos 49 anos de idade, no dia 14 de dezembro de 1591. Foi canonizado em 1726 e é venerado como patrono dos poetas espanhóis.
Santa Teresa o considerava “uma das almas mais puras que Deus tem em sua Igreja”, e outro de seus contemporâneos assim o descreve:
Homem de estatura mediana, de boa fisionomia, rosto sério e venerável. Seu trato era muito agradável e sua conversa, bastante proveitosa para os que o ouviam. Foi amigo do recolhimento e falava pouco. Quando repreendia como superior, que o foi muitas vezes, agia com doce severidade, exortando com amor paternal.
Quem saboreia ninharias não pode deleitar-se com Deus
Tendo conhecido esses breves traços biográficos e morais de São João da Cruz, analisemos agora algumas de suas máximas espirituais, valiosos ensinamentos que ele nos legou ao lado de seus grandes escritos.
“Não conhecia eu a Vós, meu Senhor, porque queria ainda saber e saborear ninharias. Secou-se meu espírito porque se esqueceu de se apascentar em Vós” – Esta sentença é uma verdadeira maravilha!
De fato, o amor à ninharia é das coisas mais invisceradas no gênero humano. E mesmo quando se trata de assunto sério, este geralmente é considerado sob o ponto de vista da bagatela. E não será exagero afirmar que muitos se comprazem em conversar sobre trivialidades.
Por exemplo, os que se acham num restaurante, numa praça pública, num veículo de transporte coletivo, etc., ou estão quietos, pensando em ninharia, ou conversam sobre a bagatela na qual cogitavam quando em silêncio. Mas, o gosto, o apego é pensar a respeito de ninharias.
Então, diz São João da Cruz com muita propriedade: “Não vos conhecia eu a Vós, meu Senhor, porque ainda queria saber e saborear ninharias”.
Quer dizer, quem degusta ninharias, não pode se deleitar com Deus. Porque não é possível gostar de duas coisas opostas ao mesmo tempo.
Ora, Deus é infinito, altíssimo, insondável, transcendente. A ninharia, pelo contrário, é a insignificância, a bagatelinha. Assim sendo, compreende-se que uma pessoa afeita às trivialidades não tem o espírito voltado para saborear a Deus.
Quem notar em si mesmo esse defeito não deve tomar uma atitude mesquinha, dizendo: “Ah, então não tem remédio, porque gosto tanto de ninharia, que nunca me descolarei dela”.
Importa, sim, fazer uma oração: “Meu Deus, dai-me o vosso espírito, o Espírito Santo, que me fará sentir apetência das coisas grandes e horror da ninharia”.
No Evangelho, Nosso Senhor diz que, de todas as orações, a mais certamente atendida é aquela na qual pedimos o Espírito Santo, o bom espírito. Portanto, o oposto à bagatela e à ninharia. Esta deve ser a nossa súplica.
“Secou-se meu espírito, porque se esqueceu de se apascentar em Vós”.
Qual é o espírito que se apascenta em Deus?
Aquele que se compraz em pensar nas belezas da Igreja Católica, na doutrina e na vida de nosso movimento, que são expressões da Igreja e seus princípios.
Este se apascenta em Deus, ou seja, é como uma ovelha que se nutre da relva divina e das maravilhas do Criador. Ao contrário daquele cujo espírito secou porque não se deteve na contemplação dessas grandezas, preferindo saborear ninharias.
A alma unida a Deus incute temor ao demônio
Outro ditame de São João da Cruz: “Se queres chegar ao santo recolhimento, não hás de ir admitindo, mas negando”.
Frase magnífica! Quer dizer, os espíritos polêmicos, que negam tudo quanto seja revolucionário, isolam-se, rompem com as coisas más e chegam ao recolhimento. Porém, aqueles que aprovam, admiram e se abrem para tudo que é mau, esses são incapazes de recolhimento.
“Sejas avesso a admitir em tua alma coisas destituídas de substância espiritual, para que não te façam perder o gosto da devoção e o recolhimento”. É o mesmo princípio enunciado na sentença anterior.
“A alma que está unida a Deus incute temor ao demônio como o próprio Deus”. Mais uma linda afirmação do Santo carmelita.
Realmente, vê-se que o demônio teme o verdadeiro católico, e o ódio que demonstra contra este último é feito de temor. Ele estremece diante do que pratica a Religião de modo íntegro, pois é uma alma unida a Deus.
Não devemos nos fiar de nós mesmos
Outra extraordinária proposição é esta: “O mais puro padecer traz e produz o mais puro entender”.
Com tal pensamento, São João Cruz nos ensina que só entendem profundamente as coisas aqueles que sabem sofrer até o fim. Aqueles que se aborrecem no sofrimento, não compreendem coisa alguma.
“Quem se fia de si mesmo é pior que o demônio” – uma frase dura aos nossos ouvidos, porém brotada do coração e dos lábios de um Santo, Doutor da Igreja.
“Fiar-se de si mesmo” significa julgar não ser necessário recorrer a Nossa Senhora, porque tudo se consegue pelo próprio esforço.
Por exemplo, quanto à virtude da castidade, a pessoa diz: “Ah, eu consigo praticá-la por mim mesmo. É só uma questão de força de vontade. Diante da ocasião perigosa, eu me transformo num colosso e não preciso pedir auxílio à Virgem Maria. Vocês são um beatério e ficam implorando a ajuda d’Ela. Mas eu, com a minha força de vontade e minha inteligência, não tenho necessidade de pedir. Na hora eu enfrento!”
Na realidade, essa pessoa se estatela no chão; são derrubados cavalo e cavaleiro. E, segundo uma expressão arcaica que conheci, “cai de costas e quebra o nariz”, tão grande é o tombo. Por quê? Porque confiou em si mesma.
Melhor sofrer por Deus do que fazer milagres
“Quem opera com tibieza, perto está da queda”.
É um fato evidente.
Certa vez, alguém me disse (referindo-se a outro, e no fundo fazendo o elogio de si próprio):
— Fulano é tíbio, mas é muito correto.
Retruquei-lhe:
— Sim, muito correto, porém está se desmilinguindo.
Seria uma situação análoga à de quem, considerando um agonizante, afirmasse: “Ele está vivinho e inteiro”. Realmente, o moribundo ainda não faleceu, mas a vida o está abandonando…
Como é possível negar a evidência? Por isso, São João da Cruz adverte os tíbios: estão próximos da queda.
Escreve ainda o Santo: “É melhor vencer-se na língua do que jejuar a pão e água”.
Outra grande verdade. E esta nos leva a perguntar quais vitórias devemos conquistar no uso de nossa língua.
A primeira é não dizer coisas impuras; mas a maior é não falar algo que represente uma fraqueza diante da Revolução. Agrados, gentilezas, atitudes que deem a impressão de sermos filhos deste século, isso é do que se trata de não dizer. E é esta a imensa vitória sobre a utilização da língua que devemos obter.
Por fim, essa bela e não menos verdadeira sentença de São João da Cruz: “É melhor sofrer por Deus do que fazer milagres”.
Pode haver pessoas que realizaram milagres e, após a morte, foram para o inferno. Mas não é possível que alguém sofra a vida inteira por Deus e depois se condene.
E o maior, o mais evidente, é o milagre moral que se opera quando o homem padece de todas as maneiras, mas, por Deus, aceita o sofrimento e não volta atrás. Esse é o milagre por excelência!
Devemos, portanto, ter sempre em vista essa máxima do insigne São João da Cruz, expoente da ascese e da mística católica: é realmente melhor sofrer por Deus do que fazer milagres.