Sabendo-se um dia mais fraco que de costume e considerando que a obediência era a alma e o caráter de sua Ordem, Santo Inácio de Loyola mandou chamar seu secretário.
Depois de lhe ter dito que não poderia viver por muito tempo, acrescentou: “Escrevei. Desejo que a Companhia saiba os meus últimos pensamentos sobre a virtude da obediência”.
Um testamento baseado na virtude da obediência
Assim, o Santo de Loyola ditou-lhe o que se segue:
1°) Desde que eu entrar na religião, meu primeiro cuidado será abandonar-me inteiramente ao governo de meu superior.
2°) Seria de se desejar que eu caísse nas mãos de meu superior que determinasse dominar meu juízo e que se desse todo a isso.
3°) Em todas as coisas em que não há pecado, é preciso que eu siga o juízo de meu superior, e não o meu.
4°) Há três maneiras de obedecer: a primeira, quando fazemos o que nos é mandado em virtude da obediência – essa maneira é boa; a segunda, que é melhor, quando obedecemos a simples ordens; a terceira, e a mais perfeita de todas, quando não esperamos a ordem do superior, mas a prevenimos e adivinhamos sua vontade.
5°) Devo obedecer indiferentemente a toda espécie de superiores, sem distinguir o primeiro do segundo, nem mesmo do último; mas devo considerar em todos igualmente a Nosso Senhor, de quem eles ocupam o lugar, e lembrar-me de que a autoridade se comunica ao último por aqueles que estão acima dele.
6°) Se o superior julga que o que manda é bom e eu creio não poder obedecer sem ofender a Deus, a menos que isso me seja evidente, devo então desobedecer. Se, entretanto, tenho dificuldade, por algum escrúpulo, consultarei duas ou três pessoas de bom senso e ater-me-ei ao que me disserem; e se não me render depois disso, estou muito longe da perfeição que a excelência do estado religioso pede.
7°) Não devo ser para mim mesmo, mas para meu Criador e para aqueles sob cujo governo me pôs. Devo estar nas mãos de meu superior como a cera mole, que toma a forma que se quer e faz tudo o que agrada: escrever cartas ou não escrever, falar a uma pessoa ou não lhe falar, e outras coisas semelhantes.
8°) Devo considerar-me um corpo morto, que, de si mesmo, não tem movimento algum e como o bastão de que um velho se serve, segundo julgar que lhe serei útil.
9°) Não devo rogar ao superior que me ponha neste ou naquele lugar, ou que me dê este ou aquele emprego: posso, no entanto, declarar-lhe meu pensamento e minha inclinação, contanto que eu me entregue a ele de todo e que o que ordena me pareça melhor.
10°) Isso não impede que não se peçam coisas que não têm consequência, como seria visitar igrejas ou fazer outras devoções para se obter de Deus alguma graça. Todavia, com a condição de que estejamos numa igual situação de espírito, seja que o superior nos conceda ou recuse o que lhe tivéssemos pedido.
11°) Devo depender, sobretudo, do superior no que se refere à pobreza, não tendo nada de próprio e usando de tudo, como uma estátua, que se pode despojar sem que ela se oponha nem se queixe.
Este é o testamento de Santo Inácio de Loyola, que morreu na sexta-feira, 31 de julho de 1556, às cinco horas da manhã, pronunciando o nome de Jesus. Tinha sessenta e cinco anos.
Modelo de obediência a todo o exército cristão
Esse era o espírito de Santo Inácio de Loyola: é o modelo de Jesus, que semeia o bom grão, rega-o com seu Sangue e deixa a colheita aos Apóstolos, pois o verdadeiro jesuíta dedica toda sua obra à obediência.
Bendito seja para sempre o cristão, o missionário, a Ordem Religiosa que cuidar e conservar esse espírito de São Paulo e de Santo Inácio!
Jesus, Deus eterno, fez-Se Homem, entregou-Se à morte por amor à sua Igreja, a fim de a santificar e de a apresentar a Si mesmo, como uma Esposa sem mancha; afirma estar com ela todos os dias até à consumação dos séculos, manda-lhe o Espírito Santo, para ficar com ela eternamente.
Jesus, Deus eterno, diz ao Apóstolo que ele chamou de Pedro:
Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e Eu te dei as chaves do Reino dos Céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no Céu, e o que desligares na terra será desligado no Céu.
Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas. Eu desejo somente um rebanho e um só Pastor.
Dizer agora que Jesus, Deus eterno, Jesus, a mesma Verdade, não manteve sua palavra, que abandonou sua Igreja e que o inferno prevaleceu contra ela, é uma mentira dessa velha serpente, que seduziu uma parte dos anjos, que seduziu nossos primeiros pais, que seduziu as nações pagãs nos ídolos: é uma blasfêmia desse rei do orgulho, que, não se tendo podido tornar semelhante ao Altíssimo, quer tornar o Altíssimo semelhante a ele, falso e mentiroso.
Cristãos, soldados de Cristo, alerta! Eis o inimigo!
Para refutar essa mentira do inferno, para destruir seus perniciosos efeitos, deveis trabalhar, a exemplo de Santo Inácio de Loyola.
Deus o suscita com sua Companhia, não para fazer tudo, mas para servir de modelo de obediência a todo o exército cristão, a fim de que todos, homens, mulheres, crianças, façam o mesmo.
Levar Deus a todo o homem e todos os homens à unidade da fé, da esperança e da caridade, sem distinção de grego nem de bárbaro: é esse o desígnio da Igreja Católica, esse é o desígnio da Companhia de Jesus, esse é o voto de todo cristão fiel e obediente ao mandato de Cristo.