Cidade do Vaticano (Segunda, 09-02-2009, Gaudium Press) O papa Bento XVI recebeu hoje de manhã para uma visita de apresentação de credenciais o diplomata Luiz Felipe de Seixas Corrêa, novo embaixador brasileiro junto a Santa Sé. A apresentação das credenciais é um procedimento de praxe para a apresentação de trabalhos dos novos representantes diplomáticos no Vaticano.

Durante o encontro com o diplomata, Bento XVI disse que aquela era uma oportunidade para reforçar "seu sincero afeto e ampla estima" para com o Brasil. O pontífice recordou a visita pastoral feita ao país em 2007 e os encontros bilaterais com o presidente Lula em São Paulo e em Roma.

Bento XVI falou também sobre a condição socioeconômica brasileira e destacou para o embaixador o que definiu como dois tipos de "pobreza", material e moral, a que se deve manter atenção no país. No que tange à pobreza material, Bento XVI parabenizou o governo brasileiro e encorajou-o a prosseguir na política de redistribuição da renda, "para fortalecer a justiça social para o bem da população."

Sobre a chamada pobreza "moral", o papa alertou para o perigo do consumismo e do hedonismo, que, aliado à "falta de sólidos princípios morais que norteiam a vida do simples cidadão, torna vulnerável a estrutura da sociedade e da família brasileiras. Por isso, nunca é demais insistir na urgência de uma sólida formação moral para todos os níveis, inclusive no âmbito político, face às constantes ameaças geradas pelas ideologias materialistas ainda reinantes e, particularmente, à tentação da corrupção na gestão do dinheiro público e privado" - afirmou.

Para isso, acrescentou o papa, o cristianismo pode proporcionar uma válida contribuição, por ser "uma religião de liberdade e de paz e estar o serviço do verdadeiro bem da humanidade".

Entre os outros tópicos abordados na visita, Bento XVI falou da forte natureza católica do país, da crescente importância geopolítica do Brasil no mundo - em especial no que diz respeito à paz mundial e no seu "fator de estímulo ao desenvolvimento em áreas limítrofes e em vários países do continente africano" - e o recente acordo assinado com a Santa Sé, de definição do caráter jurídico da Igreja no país. (Veja íntegra dos discurso de Bento XVI no fim da matéria)

Biografia

Luiz Felipe de Seixas Corrêa formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, em 1963. No mesmo ano, iniciou o Curso de Preparação à Carreira de Diplomata, pelo Instituto Rio-Branco. Após a conclusão, mudou-se para Boston, onde se graduou Mestre em Economia pela Boston University no ano de 1969.

Foi professor da Universidade de Brasília de 1977 a 1979, do Instituto Rio Branco, em 1978, e da Escola de Políticas Públicas e Governo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de 1996 a 2001. Também lecionou no curso de Mestrado em Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) entre 1997 e 2001 e, de 1999 a 2001, foi coordenador do curso de Pós-Graduação em Comércio Exterior e Câmbio da FGV.

Em 2003, Corrêa assumiu o cargo de secretário-geral das Relações Exteriores do Itamaraty, após ter passado por outros importantes cargos administrativos e representativos dentro do órgão. Desde 2005 era embaixador do Brasil em Berlim.

Discurso do papa Bento XVI ao embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, conforme divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé:

"Excelência

1. É com grata satisfação que dou-lhe as boas-vindas ao acolhê-lo aqui no Vaticano, no ato da apresentação das Cartas Credenciais, como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Federativa do Brasil junto à Santa Sé.

Esta feliz circunstância proporciona-me a oportunidade de verificar uma vez mais os sentimentos de proximidade espiritual que o povo brasileiro nutre para com o Sucessor de Pedro; ao mesmo tempo dá-me o ensejo de reiterar a expressão de meu sincero afeto e a ampla estima pela sua nobre Nação.

Agradeço vivamente as amáveis palavras que Me dirigiu. Em especial, agradeço os pensamentos deferentes e a saudação que o Presidente da República, senhor Luiz Inácio Lula da Silva, quis enviar-Me. Peço a Vossa Excelência a fineza de retribuir de minha parte a saudação, com os melhores votos de felicidades e que lhe transmita a certeza das minhas preces pelo seu País e povo.

É-me grato aproveitar a ocasião para recordar com apreço a Visita Pastoral que a Providência permitiu-me realizar no Brasil em 2007, a fim de presidir a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, bem como os encontros havidos com o mais Alto Mandatário da Nação, tanto em São Paulo, como mais recentemente aqui em Roma. Possam essas circunstâncias testemunhar, uma vez mais, os estreitos laços de amizade e de frutífera colaboração entre o vosso País e a Santa Sé.

2. Os objetivos, o da Igreja, na sua missão de natureza religiosa e espiritual, e o do Estado, apesar de distintos, confluem num ponto de convergência: o bem da pessoa humana e o bem comum da Nação. Mas, como o meu Venerável Predecessor, o Papa João Paulo II, quis referir em certa ocasião "o entendimento respeitoso, a preocupação de independência mútua e o princípio de servir melhor o homem, dentro de uma concepção cristã, serão fatores de concórdia cujo beneficiário será o próprio povo" (Discurso ao Presidente do Brasil, 14 de outubro de 1991, 2). O Brasil é um país que conserva na sua grande maioria a fé cristã legada, desde as origens do seu povo, pela evangelização plantada há mais de 5 séculos.

Desta forma, apraz-me considerar a convergência de princípios, tanto da Sé Apostólica quanto do seu Governo, no que diz respeito às ameaças à Paz mundial, quando esta se vê afetada pela ausência da visão de respeito ao próximo em sua dignidade humana. O recente conflito no Oriente-Médio prova a necessidade de apoiar todas as iniciativas destinadas a resolver pacificamente as divergências havidas, e faço votos por que o vosso Governo prossiga nesta direção. Por outro lado, desejo reiterar aqui a esperança de que, de conformidade com os princípios que zelam pela dignidade humana, dos quais o Brasil sempre se fez paladino, se continuem a fomentar e divulgar os valores humanos fundamentais, sobretudo quando se trata de reconhecer de maneira explícita a santidade da vida familiar e a salvaguarda do nascituro, desde o momento da sua concepção até o seu termo natural. Pari passu, no que diz respeito às experiências biológicas, a Santa Sé vem promovendo incontinenti a defesa de uma ética que não deturpe e proteja a existência do embrião e o seu direito de nascer.

3. Vejo com satisfação que a Nação brasileira vem-se tornando, num clima de acentuada prosperidade, um fator de estímulo ao desenvolvimento em áreas limítrofes e em vários países do Continente africano. Em clima de solidariedade e de mútuo entendimento, o Governo procura apoiar iniciativas destinadas a favorecer a luta contra a pobreza e o despreparo tecnológico, tanto a nível nacional como internacional.

Por outro lado, a política de redistribuição da renda interna tem facilitado um maior bem-estar entre a população; neste sentido, faço votos por que se prossiga estimulando uma melhor distribuição da renda, e se fortaleça uma maior justiça social para o bem da população. Cabe ressaltar, porém, que, para além da pobreza material, incide de maneira relevante a pobreza moral que grassa pelo mundo afora, inclusive ali onde não se carece de bens materiais. De fato, o perigo do consumismo e do hedonismo, aliado à falta de sólidos princípios morais que norteiem a vida do simples cidadão, torna vulnerável a estrutura da sociedade e da família brasileira. Por isso, nunca é demais insistir na urgência de uma sólida formação moral a todos os níveis, inclusive no âmbito político, face às constantes ameaças geradas pelas ideologias materialistas ainda reinantes e, particularmente, à tentação da corrupção na gestão do dinheiro público e privado. A esta finalidade, o cristianismo pode proporcionar uma válida contribuição - como eu quis afirmar recentemente - por ser "uma religião de liberdade e de paz e está ao serviço do verdadeiro bem da humanidade" (Audiência ao Corpo Diplomático, 8 de Janeiro de 2009). É na esteira destes valores que a Igreja continua oferecendo este serviço de profundo valor evangélico que favoreça a consecução da paz e da justiça entre todos os povos.

4. O recente Acordo no qual se define o estatuto jurídico civil da Igreja Católica no Brasil e se regulam as matérias de mútuo interesse entre ambas as Partes são sinais significativos desta sincera colaboração que a Igreja deseja manter, dentro da sua missão própria, com o vosso Governo. Exprimo neste sentido a esperança por que esse Acordo, como já tive ocasião de assinalar "facilite o livre exercício da missão evangelizadora da Igreja e fortaleça ainda mais a sua colaboração com as instituições civis para o desenvolvimento integral da pessoa" (Audiência cit.). A fé e a adesão a Jesus Cristo impõem aos fiéis católicos, também no Brasil, tornarem-se instrumentos de reconciliação e de fraternidade, na verdade, na justiça e no amor. Faço votos, assim sendo, de ver ratificado este Documento solene a fim de que a organização eclesiástica da vida entre os católicos veja-se agilizada e alcance alto grau de eficiência.

Senhor Embaixador,

antes de concluir este encontro, reitero o pedido de transmitir ao Senhor Presidente da República os meus melhores votos de felicidades e de paz. E quero dizer a Vossa Excelência que pode contar com a estima, a boa acolhida e o apoio desta Sé Apostólica no desempenho da sua missão, que lhe desejo feliz e fecunda de frutos e de alegrias. O meu pensamento vai, nesta hora, para todos os brasileiros e para quantos conduzem os seus destinos. A todos desejo felicidades, em crescente progresso e harmonia. Estou certo de que o Senhor se fará intérprete destes meus sentimentos e esperanças junto ao mais Alto Mandatário da Nação. Por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, imploro para a sua pessoa, para seu mandato e para seus familiares, assim como para todos os amados brasileiros, copiosas bênçãos de Deus Todo Poderoso."