Cidade do Vaticano (Segunda, 05-01-2009, Gaudium Press) O ano de 2009 inicia-se sob o estandarte da violência em muitos países: Gaza, Iraque, Afeganistão, Sri Lanka, Congo, Somália, Sudão; territórios onde guerra e pobreza geram um círculo vicioso do qual parece impossível sair. E para duas importantes vozes vindas de Roma, tanto a causa quanto a solução desses conflitos estão nas mãos dos países desenvolvidos.
Mario Marazziti, porta-voz da Comunidade de Santo Egídio, afirma que é antigo na sociedade humana o conceito de guerra como um recurso usual de resolução de um impasse. Para ele, exemplo disso são as guerras mais recentes - Iraque e Faixa de Gaza -, que não resolvem as contendas e produzem mais ódio e impasse.
"Parece-me que há muitos anos se pensa na guerra como uma solução normal, ordinária, ao passo que ela é tão somente uma terrível dispersão de recursos e uma destruição de vidas humanas e de esperança. Isto agora fica claro com as últimas grandes guerras internacionais, ou mesmo nos tantos conflitos locais que se avolumam pelo planeta."
De acordo com ele, é preciso uma maior união dos países, com especial participação daqueles mais ricos, que detêm maiores influência e recursos, para evitar o aumento no número de refugiados e de campos de desabrigados.
"Nós temos uma escassa capacidade imaginativa de paz e de reconciliação por parte das lideranças, assim como dos programas de reequilíbrio mundial. Eu acredito que todo o mundo desenvolvido viveu acima das linhas, dos limites. Precisa deixar de viver assim, precisa se lembrar que ou se sai junto de uma crise ou se cria um mundo feito de bunkers, feito de lugares que se encontrarão cheio de assentamentos de flagelados ao entonro, onde esses flagelados poderão se tornar inimigos, onde cresce o sentido do medo", alertou.
"Precisamos de esperança e o Papa, de forma não ingênua, indica a via: unir o tema da paz ao tema da luta contra a pobreza é uma saída-chave que pode ajudar o mundo a se reequilibrar (...)".
Essa opinião é partilhada pelo cardeal Renato Raffaele Martino, presidente do Pontifício Conselho para a Justiça e a Paz, para quem "atrás de toda guerra há sede por dinheiro e poder, há sempre uma economia de dominação que se mascara de solidária."
Cardeal Martino acredita que é inútil, "esmola", países ricos investirem e injetarem recursos em países pobres e vender para estes, ao mesmo tempo, material bélico e capacidade nuclear.
"A única ânsia do lucro, do dinheiro, não é moral, não é ética, porque o capital, a empresa, deve não só servir para enriquecer, mas deve ter um valor social. Aqui se faz um discurso sobre a indústria das armas, a começar das armas nucleares e das armas convencionais. Aqueles mesmos países que dizem querer ajudar os países em desenvolvimento são os primeiros a vender-lhes armas, porque nos países em desenvolvimento não se produzem armas. Portanto, é preciso não somente ajudar, como uma esmola, mas também compartilhar, coparticipar, para dar a possibilidade aos países em desenvolvimento de serem protagonistas do próprio desenvolvimento, de serem protagonistas do próprio futuro".