Cidade do Vaticano (Quarta, 10-12-2008, Gaudium Press) No primeiro evento promovido pelo Vaticano em razão do sexagenário da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, o cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado da Santa Sé e número dois na hierarquia eclesiástica, pediu uma defesa ininterrupta dos direitos humanos. Segundo ele, alguns direitos são primordiais por condicionarem e validarem os demais. "Percebe-se que quando é diminuído o reconhecimento do direito à vida e à liberdade religiosa, também o respeito pelos outros direitos acabam abalados".

Em seu discurso, o secretário de Estado fez questão de enaltecer a "lei natural, antítese do degrado moral em tantas sociedades" e o papel da Igreja como balizadora dos direitos humanos. "A Igreja, junto com o saber político e jurídico, sempre sustentou o princípio da não-divisão dos direitos humanos: cada um dos direitos reflete os demais, como elementos complementares e insubstituíveis de si mesmos".

De acordo com o cardeal, sem um forte chamado à lei natural, os direitos humanos tornam-se apenas instrumentos de uma visão particular na qual prevalece o arbítrio e o abandono da lei moral. Em seu discurso, não faltaram críticas também à política belicista adotada por alguns países: "Respeitar e restabelecer os direitos fundamentais será sempre um modo concreto através do qual devem se contrastar as diferentes e difusas formas de abandono dos bastiões das ordens morais nas relações sociais, desde as interpessoais até as internacionais".

"Valores Primordiais" - Para o cardeal, é necessário que as pessoas se voltem aos "valores primordiais", para "definir a exata natureza da dignidade comum a todo ser humano que se depreende da Declaração sem espalhar a demanda dos direitos em todas as direções". Ele afirma que todas as ações do homem podem e devem passar pelo crivo dos direitos humanos: "É possível reconduzir as novas situações à fundação da Declaração, e este pode ser um caminho para dar novo vigor à causa humana".

Ainda segundo Bertone, uma vez reconhecidos e estabelecidos, em qualquer convenção os direitos humanos serão sempre defendidos. O cardeal pede fidelidade aos direitos para que eles não sejam "perdidos de vista, reinterpretados de maneira restritiva ou francamente negados".

O alerta à violação e o pedido à revalorização dos direitos humanos básicos se somam a uma crítica de Bertone à crescente individualização das sociedades, na opinião do cardeal. "Muitas sociedades têm interesse em pôr em discussão a ética da vida e da procriação, do matrimônio e da vida familiar, e também da educação e da formação das gerações jovens, introduzindo unicamente uma visão individualista sobre a qual se constroem novos direitos, mas não mais precisos no conteúdo e na lógica jurídica".