D. Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém - Portugal

As cartas de São Paulo oferecem uma inspiração fecunda e um oportuno desafio para motivar os católicos a caminhar para uma fé mais esclarecida e para uma participação mais empenhada e mais qualificada na vida e missão da Igreja. Com este apóstolo aprendemos a construir comunidades onde possam desabrochar a riqueza de carismas e ministérios e desenvolver, desta forma, a passagem de uma Igreja demasiado centralizada e dependente do clero para uma Igreja povo de Deus em que todos colaboram em unidade e harmonia como membros de um organismo vivo. Assim alcançaríamos comunidades ao estilo de São Paulo.

Nos últimos cinquenta ou sessenta anos muito se caminhou na participação ativa dos fiéis leigos na missão da Igreja. Antes de meados do século passado, as paróquias mostravam-se como centros de culto a cargo do clero, na altura numeroso, bem preparado e disciplinado. A paróquia era um ofício (e um benefício) do pároco, a quem competia ensinar a doutrina e pregar, celebrar as missas e os sacramentos, sacramentais e devoções. Aos fiéis pertencia assistir, ouvir e pagar. Pelos anos cinquenta, com o crescimento da Ação Católica, afirma-se progressivamente a participação ativa e o estatuto dos leigos na vida e missão da Igreja. Desenvolveu-se, depois, o itinerário de catequese e a necessidade de formação de catequistas. A partir do Concílio Vaticano II, desabrocha uma imagem comunitária da igreja e florescem diversos serviços paroquiais entregues a leigos nos campos da catequese, da liturgia, da caridade, da administração e da presença ativa na sociedade.

Muito avançámos e muito nos falta ainda caminhar. As nossas comunidades parecem-nos distantes da riqueza variada dos carismas ou dons do Espírito Santo concedidos, nas comunidades paulinas, a cada um dos fiéis para o bem de todos. Lendo algumas cartas notamos o entusiasmo dos crentes de então pelas manifestações do Espírito que capacitavam os simples fiéis para o anúncio do evangelho, para o ensino dos irmãos, para servir na caridade fraterna em vários campos da vida humana e cristã. Os carismas não eram ocasião de vaidade ou protagonismo pessoal mas destinavam-se ao crescimento do Corpo de Cristo numa unidade harmoniosa alcançada pelo amor, pela humildade e pela disponibilidade. Os diferentes ministérios eram entendidos como expressão da riqueza divina, tão variada nas suas formas.

Deus ainda hoje chama e, através do Espírito Santo, concede carismas para o desempenho de variadas tarefas necessárias à missão da igreja. Pertence aos pastores, aconselhados e estreitamente apoiados pelos conselhos paroquiais, discernir os carismas, chamar e preparar colaboradores, atribuir-lhes tarefas e responsabilidades definidas.

São Paulo ensina-nos a prestar atenção aos carismas variados, a favorecer o contributo diversificado dos fiéis, a acolher as diferenças, a ir à praça pública e desafiar tantos que estão ainda ociosos por não terem sido chamados. Em vez de nos lamentarmos que somos insuficientes, precisamos de descobrir outros carismas, discernir os sinais de vocação e ser mediadores do chamamento de Deus. Precisamos de descobrir trabalhadores diversos para a messe do Senhor: presbíteros, diáconos permanentes, religiosos (as), catequistas, animadores de grupos de formação cristã de jovens e de adultos, dos serviços litúrgicos, da pastoral familiar, da caridade e da ação social, do testemunho e da missão no mundo: "A cada um de nós foi concedida a graça, na medida em que recebeu o dom de Cristo. Por Ele o Corpo inteiro opera o seu crescimento orgânico segundo a atividade de cada uma das partes a fim de se edificar na caridade" (Ef 4, 7.16).