Dom Thomas.jpgEntrevista com Dom Thomas Wenski

Excelência, seu ministério pastoral no sul da Flórida deu-lhe grande experiência com as comunidades de imigrantes. Pode dizer-nos qual é a contribuição dessas comunidades para a Igreja local e como essa experiência o enriqueceu pessoalmente?

As comunidades de imigrantes formam de um modo muito real a Igreja local aqui, porque grande parte dos habitantes dos municípios de Broward, Dade e Monroe nasceu fora dos Estados Unidos.

Isso causou forte impacto em minha vida e acho que o fato de ser filho de imigrantes poloneses deu-me especial empatia com os imigrantes. Aprendi espanhol no seminário. Três anos após minha ordenação, comecei a trabalhar em tempo integral com haitianos e permaneci vinte anos nesse ministério, até ser nomeado Bispo Auxiliar.

As várias culturas existentes em Miami mostram que esta é uma grande Igreja e que há diversas maneiras de experimentar a vida na Igreja. Muitas pessoas afirmam que seus horizontes se alargam ao viajar para outro país. Os meus foram alargados no convívio com outras culturas.

O lema de Vossa Excelência: "Para todos eu me fiz tudo" (I Cor 9, 22) parece descrever vosso trabalho com os diversos grupos étnicos. Na vossa opinião, qual será o impacto dos católicos latinos na sociedade americana?

Meu conceito de sacerdócio é o de ser um servidor, daí a minha divisa. O servo deve falar a língua das pessoas às quais serve, por isso aprendi espanhol e crioulo haitiano.

Creio que a contribuição desses povos para a Igreja e para a sociedade norte-americana será de renovação e de revitalização. No momento, presenciamos um amargo debate sobre imigração nos Estados Unidos, país que se defronta com a necessidade de reformar suas normas de imigração e achar um caminho para legalizar a situação de 11 milhões de pessoas. Devemos procurar comunicar aos norte-americanos que essa gente não constitui um risco para a nossa sociedade. Os imigrantes estão aqui porque acreditam naquilo que nós chamamos "o sonho americano": trabalhando duro e aproveitando as oportunidades, cada qual pode fazer algo por si mesmo.

Devido a um forte processo de secularização neste país, muitos católicos norte-americanos - netos ou bisnetos de

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“Meu conceito de sacerdócio é o de ser um servidor,
daí a minha divisa: ‘Para todos eu me fiz tudo’
(I Cor 9, 22)”

imigrantes - perderam, talvez, a noção da importância do entrelaçamento de Fé e cultura. Os hispânicos celebram sua Fé de tal maneira que a cultura se torna Fé, e a Fé se torna cultura. Isso pode ajudar os católicos norte-americanos a encontrarem um meio de adequar a Fé ao contexto da nossa sociedade.

Na Diocese de Orlando, Vossa Excelência favoreceu o uso dos meios de comunicação social pela Igreja, tanto da mídia impressa quanto da rádio e TV. Na Arquidiocese de Miami, qual é o maior desafio nesse campo?

Vim para a Arquidiocese de uma região duramente atingida pela recessão; preciso, portanto, encontrar meios para continuar tornando a Igreja presente na mídia. Por exemplo, tenho escrito editoriais para os jornais locais, e estes têm manifestado interesse em publicá-los. Um dos meus predecessores - Dom Joseph Patrick Hurley, Bispo de Saint Augustine, Flórida - disse há várias décadas que a Igreja deve fazer o bem e precisa ser vista fazendo o bem. A Igreja deve transmitir sua mensagem e encontrar meios de fazê-lo eficazmente, seja pela imprensa, rádio ou televisão, seja via internet.

Fora dos Estados Unidos, Miami é, por vezes, vista como um ícone do consumismo. Qual meio Vossa Excelência considera melhor para difundir o Evangelho na Arquidiocese?

Miami pode ser considerada um ícone do consumismo especialmente se vista sob a perspectiva da América Latina. Mas devemos ter também muito presente a outra história de Miami: a história da imigração. Um dos ensinamentos centrais do Concílio Vaticano II é que o homem só pode realizar-se através de uma sincera entrega de si mesmo. Esta sincera entrega de si é evidente na odisseia de muitos imigrantes que vieram para cá visando o bem de suas famílias, muitas vezes às custas de grandes sacrifícios pessoais. Então, Miami é também um ícone da entrega de si, e encarna de muitas maneiras a Boa Nova.

O Papa Bento XVI nos aponta a "Via Pulchritudinis" e insiste sobre o papel da beleza em geral. Como a beleza pode influenciar a vida católica em Miami e em toda a nação?

Esta é uma bela parte do mundo. Temos belas praias e belas águas. É de se esperar que tanto a beleza natural quanto a produzida pelo homem nos falem da glória de Deus.

Como Igreja, damos especial testemunho da beleza através da Liturgia. Procuramos que nossos atos litúrgicos a reflitam e se desenrolem em lugares bonitos. Pela ars celebrandi - arte da celebração - realçamos a inerente beleza da Liturgia. Ao longo da história da Igreja, há muitos exemplos de pessoas que receberam a graça da conversão ao participar de uma Missa especialmente bela, ou ao ver a Igreja promovendo a beleza nas artes e em outras áreas.

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Dom Thomas Wenski recebeu Pe. Steven Schmieder e
dois arautos em seu escritório em 15 de agosto último

Recentemente, Vossa Excelência deu especial ênfase à importância da esperança em nossos dias. Que papel ocupa a devoção mariana na construção e fortalecimento dessa esperança?

A esperança é um dos principais temas do pontificado de Bento XVI, e foi também muito importante no de João Paulo II. Ambos os Papas perceberam que a crise moderna não é de Fé, mas principalmente de esperança.

A Liturgia é uma celebração de esperança e uma antecipação da realização da esperança; e a devoção mariana faz parte dela. A festa que celebramos em 15 de agosto é exemplo disso, pois a Assunção da Santíssima Virgem mostra que Deus mantém suas promessas: nossas esperanças se realizam na Assunção de Nossa Senhora. Em sua Encíclica, Spe salvi, o Papa Bento XVI pergunta-se: "Quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança?". Através do seu "sim", Maria abriu ao próprio Deus a porta do nosso mundo e, em consequência, Ela abriu a porta do mundo para a esperança

Dom Thomas Wenski.jpgDom Thomas Gerard Wenski nasceu em 1950, em West Palm Beach, Flórida. Graduou-se em Filosofia e fez o Mestrado em Divindade, no Seminário Maior São Vicente de Paulo, em Boynton Beach. Obteve o grau de Mestre na Faculdade de Sociologia da Fordham University, de Nova York.

Ordenado sacerdote em 1976, seu ministério pastoral se desenvolveu com frequência junto aos haitianos, cubanos e outros imigrantes. Recebeu a ordenação episcopal em 1997, como Bispo Auxiliar de Miami. Foi Bispo de Kearney até agosto de 2003 e logo a seguir, Bispo Coadjutor e Bispo Diocesano de Orlando. Em 1º de junho de 2010 tomou possessão da Sé Arquiepiscopal de Miami.