O sacerdócio está intimamente ligado à oferta de toda a Igreja, ao Sacrifício Eucarístico.

Sua razão de ser é, entre outras, o prolongamento no tempo do mistério da salvação contido nela, o oferecimento da única “Vítima pura, santa e imaculada”, e, com ela, a alimentação do povo santo de Deus.

E a grandeza dessa tarefa supõe em cada um de nós, sacerdotes de Cristo, precisamente aquela “imitação do que comemoramos” e a “conformação da própria vida com o mistério da cruz do Senhor” que celebramos.

É por isso que nossa vida deve estar orientada a reproduzir o modelo supremo, que é Jesus Cristo. O sacerdote já não vive em função de si mesmo, nem foi consagrado para realizar sua própria vontade. Está em função desse outro que o chamou, e se faz totalmente disponível para Aquele que o consagrou, e que nos diz à maneira de testamento e programa de vida: “Meu alimento é fazer a vontade do que Me enviou e levar a cabo sua obra” (Jo 4, 34) .

Sacerdote: homem de disponibilidade e obediência

Queridos irmãos sacerdotes, nestas palavras aparece clara uma primeira nota característica de nossa vida: a da obediência.

Se atendermos por um momento às palavras do rito de ordenação, não deixará de nos chamar a atenção o fato de que, com efeito, o sacerdote está chamado a ser um homem de disponibilidade e obediência.

E a verdade é que só assim – fazendo nossa a disposição de obediência de Jesus, mediante a “renúncia a si mesmo, e reafirmando a promessa de cumprir os sagrados deveres que por amor a Cristo aceitamos gozosos no dia de nossa ordenação para servir à Igreja”[1] – seremos autenticamente livres, nosso ministério verdadeiramente fecundo para a Igreja e o Reino, e nossa vida inteiramente feliz e plena.

Obediência não é sinônimo de opressão

Não surpreende que o mundo de hoje, submetido ao secularismo e ao que se chamou a civilização da acédia,[2] não só não seja capaz de assumir essa lógica amorosa e oblativa da obediência, mas se revolte francamente contra ela e veja na obediência um sinônimo de opressão.

Lamentavelmente, o influxo dessa perspectiva mundana e falaz se deixa sentir não poucas vezes dentro do corpo eclesiástico quando em certos âmbitos do mesmo ocorrem o espírito de contestação, a aberta dissensão com relação ao Magistério, a formação de grupos e mecanismos de pressão que buscam encurralar os Bispos, as ações ou organizações à margem dos legítimos pastores, a busca de “consensos débeis” que imprimem um espírito de mediocridade na vida eclesiástica, os projetos pastorais ou eclesiásticos que tentam erigir novas ideologias ou formas mentis totalmente alheias ao Evangelho e ao sentir da Igreja, como ídolos aos quais render culto.

Tudo isso para escândalo e confusão dos fiéis.

É verdade que, de um lado, tais procedimentos revelam naqueles que os propugnam uma assimilação totalmente imatura do Espírito de Cristo e da Igreja.

Por outro lado, são todas essas realidades que parecem manifestar uma vez mais a ação tenebrosa do Maligno, e reeditam o mistério da Paixão do Senhor, agora como Paixão da Igreja, que completa em seu Corpo as dores e sofrimentos de quem é sua Cabeça.[3]

A vida espiritual é fundamental no sacerdote

Quero referir-me a uma segunda nota característica de nossa vida e nosso ministério sacerdotal.

Para nós, sacerdotes, o encontro diário com o Senhor Jesus na oração, na meditação assídua da Palavra de Deus e na celebração e adoração eucarística não é algo opcional.

É ali, na oração sincera e profunda, que se dá a assimilação do autêntico estilo de vida do Senhor Jesus, o amadurecimento do significado de ser sacerdote e o nosso crescimento na amizade com Aquele que nos amou até o extremo. Em síntese, a vida espiritual é fundamental no sacerdote, para sua própria salvação e no que diz respeito a seu ministério e testemunho.

E sua ausência traz gravíssimas consequências, como o vemos muitíssimas vezes. Só ela assegura ao sacerdote um amor fiel e generoso, um coração não dividido, uma entrega total à Igreja.

Um imenso dom para a Igreja

E abordo aqui muito brevemente uma terceira e última característica: a do celibato. O celibato – bem o sabemos – é um imenso dom para a Igreja.

Verdadeiramente, ele torna o sacerdote livre para um serviço universal, abre seu coração às necessidades de todos os fiéis, capacita-o para uma entrega sem cálculos nem medida.

Mas a vivência do mesmo convém relembrar isso supõe também aplicar com responsabilidade os meios que nos permitam amadurecê-lo, e integrar positivamente em nossa vida a renúncia que supõe, assim como desenvolver os bens espirituais e pastorais que traz consigo.

Face ao que temos visto com muita pena e dor nos últimos anos, a Igreja não pode permitir entre seus filhos sacerdotes uma vida dupla que prejudica gravemente o corpo eclesial e tira a credibilidade a seus ministros. Por isso o Santo Padre nos pediu recentemente que contribuamos para reparar os gravíssimos danos causados nessa matéria, orando pelos sacerdotes que caíram em faltas graves, assim como por suas vítimas.

E isto obriga também cada um de nós a nos reexaminarmos seriamente.

Por isso, caros irmãos, esforcemo-nos realmente para ser reconhecidos como verdadeiros sacerdotes, pela integridade de nossos costumes, pelo zelo de nossa caridade pastoral, pelo desejo de amar segundo o coração de Jesus, Bom Pastor, e para deixar transparecer isso em nosso exterior.

E insisto aqui, como fiz saber em minha recente carta pastoral: nós, sacerdotes, por nosso próprio estado de vida, estamos obrigados a usar o distintivo externo que nos corresponde, quer dizer, o traje clerical.

Para terminar, caros irmãos, em retribuição pelo imerecido dom do chamado ao sacerdócio ministerial, não nos pode caber senão uma comovida ação de graças a Deus-Amor por este imenso dom que recebemos: ser “outros Cristos”, fazer as vezes de Cristo Cabeça e representá-Lo no meio da comunidade a nós encomendada.