As catedrais são verdadeiros relicários da história dos países cristãos. Um exemplo característico disto, o encontramos na de Bogotá.

Erigida em uma meseta encravada nos Andes, a 2.600 metros do nível do mar, ela é sem dúvida um monumento que resume em si quase toda a história da nação colombiana.

Construída por Bispos e monges, destruída por terremotos, reconstruída em várias ocasiões, quase vítima do fogo em revoluções, ela hoje abriga desde tumbas de conquistadores e vice-reis até inestimáveis relíquias, históricas tanto para a Igreja quanto para o mundo.

A fundação de Santa Fé

A fundação da cidade de Santa Fé de Bogotá esteve marcada pelo caráter religioso.

O planalto conhecido como “La Sabana” era um lugar atrativo para fundar um povoado: clima benigno, água abundante, uma grande planície com terra extraordinária para cultivo, altas montanhas como naturais atalaias para uma defesa.

Além disso, se dizia que não longe dali se encontrava o famoso “Eldorado”, legendária cidade dos indígenas, a qual estaria repleta de tesouros fabulosos.

Gonzalo Jiménez de Quezada, o primeiro comandante a chegar, e cujo corpo atualmente repousa num altar lateral da catedral de Bogotá, tomou posse do lugar em nome dos reis de Espanha em 1538.

Como ato principal da fundação, quis ele que fosse celebrado o Santo Sacrifício eucarístico. Mas como fazê-lo, se não tinham cálice nem cibório? A Fé daqueles homens não se detinha diante desse tipo de dificuldades.

Fundiram o chumbo de suas munições e com ele confeccionaram os vasos sagrados, os quais se conservam até hoje nessa catedral.

Frei Domingos de las Casas celebrou essa primeira Missa em 6 de agosto de 1538, numa capela de taipa cercada de doze choças nas quais se abrigavam os conquistadores e seus homens.

Esse fato foi visto pelo piedoso frade como um símbolo de Nosso Senhor Jesus Cristo rodeado pelos seus Apóstolos.

História da catedral

Devido a sua posição estratégica, a cidade de Santa Fé acabou sendo elevada à condição de capital do Novo Reino de Granada, razão pela qual o próprio Imperador Carlos V pediu ao Papa, em 17 de abril de 1553, que para lá fosse mudada a sede episcopal de Santa Marta.

A criação da nova arquidiocese se deu pela bula In suprema dignitatis Apostolicæ specula, de 22 de março de 1564.

Foi nomeado como primeiro Arcebispo Frei Juan de los Barrios, o qual em sua chegada encontrou apenas um templo de taipa coberto de palhas.

Mandou logo derrubar esse precário edifício e o substituiu por um de pedras e telhas. A partir dali se sucedeu uma série de construções, várias das quais, infelizmente, foram destruídas por terremotos.

Finalmente, em princípios do século XIX, um frade capuchinho com fama de santidade, Frei Domingos de Petrés, conseguiu levar a termo a edificação da catedral tal como a conhecemos hoje.

Ele chegou mesmo a trabalhar como simples operário nessa obra. Mais adiante, assumiu as funções de arquiteto, dedicando a esse ofício o dia, e consagrando boa parte da noite à oração e às obras de misericórdia.

O tesouro da catedral

Através dos séculos, a catedral recebeu das mãos de vice-reis, de clérigos, de pessoas de posses, e mesmo do povo fiel, grande número de relíquias de Santos, objetos de culto e peças artísticas, as quais, depois de atravessar as vicissitudes dos tempos, constituem hoje um verdadeiro tesouro.

Entre elas se encontra, por exemplo, uma relíquia do crânio de Santa Isabel da Hungria, presente da rainha Ana d’Áustria, esposa de Felipe II, ao Arcebispo Dom Luís Zapata de Cárdenas, o qual fora seu confessor.

Desde o século XVI, ela permanece num relicário de prata maciça que representa o busto da rainha santa.

Outra valiosa peça muito estimada é a pena com a qual o Beato Pio IX assinou a bula do dogma da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria.

Essa pena foi dada de presente ao Papa pela Casa de França. Por sua vez, ele a deixou como legado ao Cardeal De Lai. Mons. Ricardo Sanz de Samper, Mordomo dos Palácios Apostólicos, a recebeu desse Cardeal e a deixou como herança à “Catedral Primaz de Colômbia”. 

Entre os muitos objetos destinados ao culto divino, destaca-se a custódia chamada “Preciosa”, verdadeira joia feita de 18 libras de ouro fino e adornada com 3.223 pedras preciosas, entre diamantes, esmeraldas e ametistas, além de 272 pérolas.

Ela foi doada pelo 14º Arcebispo da cidade, Dom Antonio Álvarez, o qual, movido pelo desejo de glorificar o Senhor Sacramentado, empregou a maior parte de seus bens pessoais para confeccioná-la. 

A Virgem do Topo

Mas nosso coração voa acima de tantos objetos de valor – como os cálices de Limoges, as “vinajeras” (galhetas) de prata trabalhada, as custódias de ouro maciço, os cibórios incrustados de granadas, as urnas de prata, os báculos de lápis-lazúli e esmalte – e se inclina reverente ante a capela da Padroeira, onde se venera a Santíssima Virgem do Topo.

Situada ao fundo da catedral, essa imagem data de tempos imemoriais, sendo sua origem atribuída à própria Bizâncio. Chegando às terras americanas, ela recebeu o culto dos índios na aldeia do Topo, na região de Muzo, ao norte de Bogotá.

Ali o conquistador García Varela viu no ano de 1616 a imagem lançando de si grandes resplendores. Em decorrência desse fato, o Capítulo da Catedral – que governava na ausência do Arcebispo – a fez trazer em solene procissão à Capital e esta desde então a tomou como Padroeira.

Nesse quadro a Mãe de Deus é representada cheia de sofrimento, com o rosto banhado em lágrimas, o coração traspassado por uma espada de dor e tendo seu Divino Filho no regaço, logo após da descida da cruz.

É sem dúvida graças à maternal intercessão de tal protetora que hoje a Colômbia possui este tesouro maior que qualquer maravilha terrena: a Fé cristã.