A meditação sobre as obras divinas é necessária para o esclarecimento da fé humana a respeito de Deus.

A Sabedoria divina está como que espelhada nas criaturas

Em primeiro lugar, porque pela meditação sobre as obras podemos admirar de algum modo e considerar a sabedoria divina: as coisas realizadas pela arte são representativas da arte, porque são realizadas à sua semelhança.

Ora, Deus, pela sua sabedoria deu o ser às coisas, razão pela qual é dito: “Tudo fizestes com sabedoria” (Sl 103, 24).

Daí podermos, pela consideração das obras, recolher a sabedoria divina, que está como que espelhada nas criaturas por certa comunicação da sua semelhança.

Assim é dito na Sagrada Escritura: “Difundiu-se a sua sabedoria em todas as suas obras” (Eclo 1, 10). Por isso, quando o salmista diz: “Maravilhosa acima de mim se mostra a vossa ciência; sublime é ela, e não a poderei atingir”.

E quando acrescenta o auxílio da iluminação divina diz: “A noite converteu-se em claridade”, etc., confessa-se auxiliado pelo conhecimento das obras divinas para o conhecimento da sabedoria de Deus, com as palavras: “Maravilhosas são as vossas obras e minha alma bem o sabe” (Sl 138, 6, 11 e 14).

Admirar as obras de Deus produz reverência para com Ele

Em segundo lugar, essa consideração faz-nos admirar a última virtude de Deus e, consequentemente, produz nos corações dos homens a reverência para com Deus. Com efeito, convém que a capacidade do artista seja tida como superior às coisas que ele faz.

Donde ser dito: “Se ficam admirados (os filósofos) da sua potência e das suas obras (isto é, do céu, das estrelas e dos elementos do mundo) compreendam que quem as fez é mais poderoso que elas” (Sb 13, 4).

É dito também pelo apóstolo: “Penetra-se nas realidades invisíveis de Deus por meio do conhecimento das coisas feitas, como o seu poder e a sua divindade” (Rm 1, 20).

Dessa admiração provém o temor de Deus e a reverência. Donde dizer a Sagrada Escritura: “Grande é em poder o vosso nome; quem não vos teme, ó rei dos povos?” (Jr 10, 6-7).

Deleitar-se com as criaturas inflama de amor pela bondade de Deus

Em terceiro lugar, essa consideração inflama os ânimos humanos de amor para com a bondade divina.

Com efeito, tudo aquilo que de bondade e de perfeição está distribuído parcialmente nas diversas criaturas, está em Deus unificado de modo pleno e universal, como na fonte de toda bondade, conforme foi visto (1.I, cc XXVIII e XL).

Se, pois, a bondade, a beleza e a suavidade das criaturas já aliciam de tal modo os ânimos humanos, a bondade fontal de Deus, cuidadosamente comparada com os riachos de bondade encontrados nas criaturas, atrairá para si aqueles ânimos totalmente inflamados.

Donde ser dito: “Deleitastes-me, Senhor, pelas vossas obras e exultarei por causa das obras de vossas mãos” (Sl 91, 5).

E em outro salmo é dito a respeito dos filhos dos homens: “Embriagar-se-ão na abundância da vossa casa” (isto é, de toda criatura) “e os fareis beber na torrente de vossas delícias, porque está em vós a fonte da vida” (Sl 35, 9 10).

No livro da Sabedoria é dito contra alguns: “Pelas coisas boas que veem” (isto é, pelas criaturas, que são boas por certa participação) “não conseguiram conhecer aquele que é” (isto é, o verdadeiramente bom, antes – a própria bondade, como foi dito 1.I, c XX-XVIII) (Sb 13, 1).

Assemelha os homens com a perfeição divina

Em quarto lugar, essa consideração assemelha de certo modo os homens com a perfeição divina. Foi demonstrado (1. I, cc XLIXss) que Deus, ao se conhecer, contempla em si mesmo todas as coisas.

Como a Fé Cristã esclarece o homem principalmente a respeito de Deus e, pela luz da revelação divina, o faz conhecedor das criaturas, realiza-se no homem uma certa semelhança da sabedoria divina.

Sobre isto diz o Apóstolo: “Todos nós, ao contemplarmos com a face descoberta a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem” (2Cor 3, 18).

Assim, pois, evidencia-se que a consideração das criaturas pertence ao esclarecimento da Fé Cristã. E por isso diz a Sagrada Escritura: Lembrar-me-ei das obras do Senhor e anunciarei o que vi, que nas palavras do Senhor estão as suas obras (Eclo 42, 15). 

 

São Tomás de Aquino, Suma contra os Gentios, l. II, c. II.