A Liturgia das Vésperas, no seu desenvolvimento progressivo, apresenta-nos de novo o Salmo 48, do qual agora foi proclamada a segunda parte (v. 14-21).
Como a precedente, sobre a qual já refletimos, também esta parte do Salmo condena a ilusão gerada pela idolatria da riqueza.
Esta é uma das tentações constantes da humanidade: apegando-se ao dinheiro, como se este fosse dotado de uma força invencível, o homem tem a ilusão de poder “comprar também a morte”, afastando-a de si.
Uma meditação realista e benéfica
Na realidade a morte irrompe com sua capacidade de arrasar qualquer ilusão, destruindo todos os obstáculos, humilhando qualquer confiança em si próprio (v. 14) e encaminhando para o além ricos e pobres, soberanos e súditos, estultos e sábios.
Eficaz é a imagem esboçada pelo Salmista, apresentando a morte como um pastor que conduz com mão firme o rebanho das criaturas corruptíveis (v. 15).
Por conseguinte, o Salmo 48 propõe-nos uma meditação realista e severa sobre a morte, meta iniludível e fundamental da existência humana.
Com frequência, nós procuramos ignorar esta realidade, afastando o seu pensamento do nosso horizonte. Mas esta fadiga, além de inútil, é inoportuna.
A reflexão sobre a morte, de fato, revela-se benéfica porque relativiza tantas realidades secundárias que, infelizmente, tomamos como se fossem absolutas, precisamente como a riqueza, o sucesso, o poder…
Por isso, um sábio do Antigo Testamento admoesta: “Em todas as tuas obras, lembra-te do teu fim, e jamais haverás de pecar” (Ecl 7, 40).
Abre-se um horizonte de esperança
Mas eis no nosso Salmo uma mudança decisiva. Se o dinheiro não consegue “resgatar-nos” da morte (v. 8-9), há, contudo, alguém que nos pode redimir daquele horizonte obscuro e dramático. De fato, diz o Salmista: “Deus há de resgatar minha vida, há de arrancar-me ao poder da morte” (v. 16).
Abre-se assim, para o justo, um horizonte de esperança e de imortalidade. […]
O justo, pobre e humilhado na História, quando chega à última fronteira da vida, não possui bens, não tem nada para depositar como “resgate” para deter a morte e subtrair-se ao seu abraço gélido.
Mas eis a grande surpresa: o próprio Deus deposita um resgate e arranca das mãos da morte o seu fiel, porque Ele é o único que pode vencer a morte, inexorável em relação às criaturas humanas.
Por isto o Salmista convida a “não temer” e a não invejar o rico sempre mais arrogante na sua glória porque, quando chegar à morte, será despojado de tudo, não poderá levar consigo nem ouro nem prata, nem fama nem sucesso (v. 18-19).
O fiel, ao contrário, não será abandonado pelo Senhor, que lhe indicará “o caminho da vida, o saciará de alegria na sua presença, e de delícias eternas, à sua direita” (cf. Sl 15, 11).
As riquezas se vão mais depressa do que vieram
Poderíamos citar, como conclusão da meditação sapiencial do Salmo 48, as palavras de Jesus, o qual nos mostra o verdadeiro tesouro que desafia a morte:
Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar.
Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração (Mt 6, 19-21).
Na trilha das palavras de Cristo, Santo Ambrósio, em seu Comentário ao Salmo 48, recorda de maneira clara e firme a inconsistência das riquezas: “Todas elas são coisas passageiras que se vão mais depressa do que vieram. Um tesouro deste tipo não passa de um sonho. Quando acordas já desapareceu” (Comentário a doze salmos, n. 23: SAEMO, VIII, Milão-Roma 1980, p. 275).
Por conseguinte, o Bispo de Milão convida a não se deixar ingenuamente atrair pelas riquezas e pela glória humana:
Não tenhas receio, nem sequer quando perceberes haver crescido de forma desmesurada a glória de alguma família poderosa! Sabe olhar profundamente com atenção, e ela mostrar-se-á vazia se não tiver consigo um mínimo da plenitude da fé.
De fato, antes que Cristo viesse, o homem estava arruinado e vazio: “Ele despojou-se a si mesmo para nos encher e para fazer habitar na carne do homem a plenitude da virtude”.
Santo Ambrósio conclui que, precisamente por isto, podemos exclamar agora, com São João: “Da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça” (Jo 1, 16).
Excerto de Audiência de quarta-feira, 27/10/2004.