“Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu que vos escolhi” (Jo 15, 16).

Estas palavras dirigidas por Jesus aos Apóstolos, Ele as diz hoje a João, Arnóbio, Caio Newton, Carlos Luis, Edwaldo, Fernando Néstor, José Luis, Julio Cameron, Luiz Henrique, Mariano Antonio, Mario, Maurício, Pedro Paulo, Rafael Ramón, Ricardo Alberto, arautos do Evangelho que estão a ponto de serem ordenados sacerdotes.

O sacerdócio é sempre o resultado de uma assunção: é um acontecimento, uma eleição da graça, uma iniciativa divina que alcança a pessoa de diversos modos e se cumpre através de diferentes manifestações.

Este nosso encontro tem um significado muito especial porque acontece neste ano que nosso amado João Paulo II quis consagrar à Eucaristia, presença misteriosa e real do amor de Cristo entre nós.

Para nos ajudar a venerar e viver esse insondável e inefável mistério, ele nos deu uma magnífica carta apostólica: Mane nobiscum Domine.

No mundo inteiro, enquanto se lembra com imenso afeto a pessoa do Papa Wojtyla e se reza pelo novo Papa, Bento XVI, no mundo inteiro vive-se este ano de graça com os olhos voltados para o Santo Sacramento do Altar, que Jesus entregou ao ministério da Igreja, através dos sacerdotes, quando recomendou aos Apóstolos na Última Ceia: “Fazei isto em memória de Mim”.

Aqui nos reunimos para ordenar sacerdotes quinze irmãos arautos do Evangelho, com o seu responsável internacional, o caríssimo João Scognamiglio Clá – que ama muito esta igreja, porque aqui aconteceu uma coisa extraordinária em sua vida, num dia para ele muito querido porque recorda o dia de seu Batismo – apresentados pelo vivo, atento e disponível Pe. Romolo Mariani, a quem agradeço pelo zelo com o qual ele os preparou espiritualmente para este acontecimento extraordinário da vida deles.

É o primeiro grupo de arautos do Evangelho que recebe o sacerdócio, dom imenso e gratuito de Deus. A Associação Internacional dos Arautos do Evangelho está em festa, mas estamos também em festa todos nós, representantes da Igreja.

Agradeço de coração a gentileza, a ternura, a disponibilidade de Sua Eminência o Cardeal Hummes que me deu a possibilidade de presidir esta solene concelebração na sua benemérita Arquidiocese.

Agradeço aos caríssimos e excelentíssimos confrades no episcopado aqui presentes, aos sacerdotes, às autoridades civis e militares, e a todos vós que hoje estais reunidos nesta igreja.

Um agradecimento particularíssimo e de coração quero fazer a duas pessoas que vieram de Roma para viver junto conosco este momento verdadeiramente extraordinário: Mons. Piero Amenta, da Congregação para o Culto Divino, que tanto tem trabalhado para ajudar no caminho rumo a este dia.

E também a Mons. Di Pasquale, que vemos tão paciente ao pé do altar, com tanta alegria no coração, participando desta nossa celebração.

Deus vos quer Arautos para a Igreja toda

Caríssimos Arautos do Evangelho, caríssimos irmãos, recordai sempre e acolhei com gratidão o dom que a vós, e através de vós, o Senhor faz à Igreja e ao mundo, reunindo-vos como Associação Internacional.

Entre vós Ele escolheu agora alguns como sacerdotes, como fez outrora com muitas ordens religiosas, inclusive a minha – sou carmelita.

Ele tem projetos bem precisos a vosso respeito: quer-vos arautos para a Igreja universal e vos envia, com vosso carisma e vossa identidade, para as Igrejas locais.

Nunca vos descuideis de vosso carisma e, como arautos leigos ou arautos sacerdotes, cuidai sempre, nos vários lugares e em meio ao povo de Deus, da glória do Senhor e da salvação dos irmãos. Atendei ao que vos pedir a Santa Sé.

Escutai vossos irmãos formadores, intermediários do Senhor na admirável obra de preparação para o sacerdócio, se ainda o Senhor quiser chamar outros para este altíssimo ministério.

O sacerdote, veículo do dom de Cristo

Um elemento no qual talvez seja útil fixar a nossa atenção e ancorar a nossa Fé: o Sacramento da Ordem imprime um caráter definitivo e indelével.

Gosto de pensar nesse caráter como uma espécie de garantia, de fonte inextinguível, como um valor não estático, mas dinâmico, evangélico, do sacerdócio ministerial.

De fato, através do caráter, dá-se uma espécie de indefectibilidade que garante a comunhão ministerial com a Pessoa de Jesus e liga a esta a realidade pessoal do sacerdote, fazendo-a disponível a todo o povo de Deus, num ministério e num serviço que se transforma na causa vocacional fundamental da existência consagrada.

O consagrado torna-se criatura capaz de ser dada inesgotavelmente, destinada a tornar-se veículo do dom de Cristo.

Parece-me que nesse sentido o caráter pode de fato ser considerado como o coroamento de todo esse acontecimento de graça característico, típico, que é o Sacerdócio Ministerial.

Caríssimos irmãos, a vocação, o Sacramento, a missão do Espírito Santo, o caráter, são todos realidades ou valores que nos transcendem, que nos tocam, que nos dizem respeito, que nos tomam.

Também nos dão substância a esta nossa pobre realidade pessoal e que nos permitem repetir, com humildade e sinceridade, aquilo que a Tradição Católica sempre repetiu: SACERDOS ALTER CHRISTUS, o sacerdote é um outro Cristo.

Essa “alteridade vicária” tão profunda e verdadeira constitui um acontecimento histórico da Igreja de Deus, destinado a durar e se perpetuar até que o mistério da salvação esteja cumprido.

Podemos nos perguntar neste ponto: que relação existe entre esse valor multiforme de graça e as qualidades humanas exigidas do sacerdote?

O tema é muito vasto e provavelmente pode distrair-nos de nosso recolhimento espiritual.

Deixo-o para a reflexão de cada um, especialmente dos ordenandos, sublinhando somente uma coisa: é evidente que o Criador de todos nós, como pessoas humanas, é coerente com o dom do sacerdócio ministerial, operado por Cristo.

Portanto, a disposição para receber esse dom da graça deve existir como sinal vocacional, no sentido de que o Senhor nos fez homens dotados de uma capacidade específica.

Somos, pois, criaturas humanas chamadas pelo nome, na raiz de nosso ser, na pobreza de nossa humanidade, pela graça de nosso Batismo.

Sede compreensivos e justos

Isso não deve nos impedir de ser cada vez mais humanos, mas sem fazer concessões. Comportemo-nos de modo tal que as pessoas, após um encontro conosco, tenham a impressão de se terem encontrado com Cristo.

Encarreguemo-nos de seus problemas, para poder iluminá-los com a Palavra de Deus, e resolvê-los mostrando as coordenadas da Cruz e da esperança.

Mas, atenção! Talvez as pessoas vos quereriam mais companheiros de viagem. Mais imersos na experiência exodal. Menos burocráticos. Menos detalhistas.

O que não significa pastores acomodados, que aceitam compromissos, que, abaixando os preços estabelecidos nos programas pastorais, compram para si uma popularidade de origem duvidosa.

Sede compreensivos e justos com todo mundo. Não tenhais filhos nem enteados. Distribuí com atenção cargas e honras.

Não vos deixeis amarrar por grupos particulares, ficando sequestrados por alguns, sempre aqueles, que querem vos controlar e não raramente pretendem governar a comunidade inteira.

Sede elementos catalisadores de comunhão. Nunca favoreçais a política de blocos. Libertai-vos da arrogância de quem sabe tudo, decide tudo, dispõe de tudo. Nunca humilheis alguém. (T. Bello)

Assumidos pelo resto de vossas vidas

Quero concluir com uma oração:

Agradeço-Vos, Senhor, porque, pela imposição de minhas mãos, assumis estes irmãos na vossa pessoa pelo resto de suas vidas. Ninguém os amou jamais com um amor infinito, como Vós.

Eles, embora não soubessem aonde os teríeis conduzido, nem o que poderiam esperar de Vós, quiseram depositar em Vós a sua confiança, como resposta ao vosso amor.

Sentiam o dever de Vos deixar fazer e, deste modo, obter as luzes necessárias. Bastava apenas que sua vontade se fundisse intimamente com a vossa, Senhor. No seu caminho de preparação para a ordenação sacerdotal, às vezes entendiam, outras vezes não.

Mas, quanto menos conseguiam entender, mais Vós lhes pedíeis amor a esse Pão frágil, no qual se faz a presença misteriosa por nós.

Compreendiam então que no claro-obscuro da Fé se fazem as escolhas em vosso favor e conquistam-se os méritos dos quais Vós mesmo sois a recompensa. Com Vós, Jesus Eucaristia, eles tinham tudo.

Sua força está contida no vosso Coração Eucarístico

Por Vós eles deixaram a família, a casa, querendo reparar todas as injúrias que recebeis na Santa Hóstia. As suas almas sentiam-se honradas em fazer vigílias ante vossos sacrários.

No vosso Coração Eucarístico está contida toda a sua força, sua luz, sua vida. Eles dão-se conta de que sem Vós seriam somente trevas, fraqueza.

Agora eles não têm outro desejo senão o de Vos dar a própria vida, pela Igreja, e por todos, irmãos e irmãs, que Vós colocareis no seu caminho.

Oh! se muitos outros jovens compreendessem que Vós viveis no íntimo de cada um deles, convidando-os a caminhar pelas vias de um amor humilde e confiante na vossa ternura divina, e que somente por amor associais as criaturas à vossa obra de redenção!

Não vos pertenceis mais a vós mesmos

Vós sabeis, Jesus, que durante estes anos eles procuraram exprimir sentimentos de veneração e de afeto também ao Coração de Maria, refugiando-se n’Ele com frequência para que com sua presença os ajudasse a subir progressivamente, atrás de Vós, o caminho da Cruz.

A casula que hoje eles revestirão apresenta, junto com o símbolo da Eucaristia, também a imagem de Maria.

Eles sabem que, quanto mais reconhecem Maria, Mãe e irmã, mais se aproximam de Vós, ó Jesus. Ela é seu modelo quotidiano, Ela que se deu toda inteira, sem demoras e sem recuos, a Deus, absoluto de sua vida, e ao próximo.

Estes nossos irmãos estão conscientes de que, para poderem se dar ao mundo, devem dar-se inteiramente a Vós, através d’Ela, dama de inefável beleza, Imaculada, Mãe do Carmelo, que disse “sim” à vontade do Pai e vive numa extraordinária intimidade com a Trindade.

Ela conduziu estes vossos escolhidos a Vós, Senhor Jesus, convencidos de não pertencerem mais a si mesmos, porque se dão livremente, de corpo e alma, para sempre a Vós, único e verdadeiro Amor.

E não têm outro desejo senão o de Vos amar, de Vos fazer amar e de serem transformados cada dia em uma pequena hóstia vossa.