“Quem canta, reza duas vezes” – Santo Agostinho. Em nossa Comunidade1 o canto constitui um aspecto central da vida de oração.

Cantamos durante a Missa na manhã, cantamos partes da Liturgia das Horas durante o dia, e cantamos principalmente durante a hora da adoração eucarística que conclui todas as nossas jornadas.

Louvar e glorificar a Deus

O canto expressa a dimensão mais profunda da nossa vocação, ou seja, de louvar e de glorificar o Deus trino e único. O Concílio Vaticano II nos recorda que na Liturgia terrena “com todas as fileiras da milícia celeste, cantamos ao Senhor o hino de glória”.2

O canto nos faz pregustar a glória do Céu, nos ajuda a agradecer a Deus pelas maravilhas que realizou e realiza até agora, nos leva a bendizer o Senhor com a nossa voz, com o nosso coração, com todo o nosso ser. “A nossa vida deve ser um louvor a Deus”, disse Madre Giulia.

O canto destaca ainda a beleza da adoração. A adoração não é somente um dever, mas é, antes de tudo, um privilégio, um dom que nos permite aprofundar a nossa amizade pessoal com Cristo.

A adoração, que pressupõe e favorece a disponibilidade à conversão contínua, enche o nosso coração da verdadeira alegria, a alegria de saber que Deus está tão próximo, a alegria que se expressa no canto. Escreve São Paulo:

A palavra de Cristo habite em vós abundantemente; com toda sabedoria ensinai e exortai-vos uns aos outros e, em ação de graças, entoem vossos corações salmos, hinos e cânticos espirituais (Col 3, 16).

Além disso, o canto sacro é um modo excelente de exprimir o nosso amor e o nosso respeito em relação à majestade de Deus.

Quando nos ajoelhamos diante do Santíssimo, adoramos o próprio Deus que os Serafins aclamam com estas palavras: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos. Toda a terra está cheia de sua glória” (Is 6, 3).

Portanto, convém que também nós glorifiquemos Deus com a nossa voz, reconhecendo a sua santidade e a sua misericórdia, e manifestando juntos a nossa fé na sua presença real.

Unidade na pluralidade

Em nossa Comunidade, cantamos hinos em latim e nas línguas vulgares, cânticos tradicionais e modernos, valorizamos o canto gregoriano e também a polifonia.

Deste modo, manifesta-se uma característica da Igreja Católica, ou seja, a sua unidade na pluralidade. A Fé única se expressa na diversidade dos cantos e das melodias que refletem as riquezas espirituais dos vários povos e épocas da História.

Assim se realiza a palavra de Jesus: “Todo escriba que se tornou discípulo do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que do seu tesouro tira coisas novas e velhas” (Mt 13, 52).

Por fim, o canto é para nós também um modo de exprimir, diante do Senhor Eucarístico, o caráter complementar entre a Comunidade sacerdotal e a Comunidade das consagradas, que compõem o núcleo da nossa Família espiritual.

Às vezes, cantamos juntos; outras, alternamos entre vozes femininas e vozes masculinas.

Deste modo, manifestamos, de um lado, que todos somos chamados a ser um louvor de Deus e, do outro, que temos diversas vocações que tentamos viver com alegria e no complemento recíproco, para se tornar uma bela “sinfonia” para a glória de Deus e pelo bem da Igreja.

A adoração depende, sobretudo, da atitude do coração que se submete livre e humildemente a Deus. Mas, como o Verbo se fez carne, a atitude do nosso coração deve manifestar-se nos nossos gestos, na nossa vida e também no nosso canto.

 


1 Pe. Geissler pertence à Família espiritual L’Opera, fundada pela Madre Giulia Verhaeghe, reconhecida pelo Papa João Paulo II em 2001 como Família de Vida Consagrada e hoje presente e atuante em 13 países.
2 Const. Sacrosanctum Concilium, n. 8.