Celebramos hoje o 28º Domingo do Tempo Comum, neste mês de outubro, tradicionalmente conhecido como o mês missionário.
A razão de ser da Igreja é continuar Jesus, cumprindo sua última ordem: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15)!
Querida, fundada e organizada por Cristo, ela não vive para si, mas para evangelizar o mundo; para continuar anunciando os valores de Jesus, ou seja, os valores que contam e podem ser resumidos na vida divina, que é graça e dom, e na sua grandeza, portanto, na sua dignidade.
Para ser discípulo e missionário de Jesus, não basta um desejo pessoal, uma iniciativa própria.
É o dom da graça que nos torna possível, sob a luz e na força do Espírito Santo, evangelizar, proporcionar ao nosso mundo um encontro sempre novo com Jesus, convidando para a adesão Àquele que dá o sentido à vida, hoje e sempre. […]
Sem Fé, o mundo afunda-se na mentira e na violência
Nos últimos tempos, a Fé se assemelha a uma chama que não se alimenta mais e vai perdendo o seu brilho. Ora, se a chama da Fé – a qual, em síntese, significa comunhão com Deus – se apagar, como será o nosso mundo?
Como seria um mundo prescindindo do Criador, organizado a partir de ideias e princípios meramente filosóficos ou científicos? O que seria do ser humano sem a dimensão da eternidade?
Estamos correndo o risco de esquecer que o mundo foi criado à imagem e semelhança do Altíssimo.
Hoje há muitos que veem o Cristianismo, a Fé, a Igreja, o próprio Deus, como um impedimento para poder viver a própria maturidade e liberdade.
Ora, se negligenciar o seu Criador, o homem acaba se colocando no lugar d’Ele e buscando relações que se traduzem na mentira, na violência e na morte. Porque sem Deus o homem não pode realizar absolutamente nada.
Sob muitos aspectos já presenciamos isso. É muito interessante considerar como este mundo, o qual se proclama autônomo e afirma já ter conseguido a maioridade, é tão marcado pela miséria material e espiritual.
Nele a vida vale tão pouco, a ponto de ser comum ouvirmos dizer nas grandes cidades: “A gente sai de casa, mas não sabe se volta…”.
Estamos já tão acostumados com a violência, com essa materialidade que transforma o ser humano numa mercadoria, que ficamos anestesiados, à espera de qual será o próximo acontecimento.
Ora, não podemos viver assim! A missão da Igreja é, ancorada sempre na Palavra do Senhor, anunciar este mundo novo que provém de Jesus e a dignidade de filhos e filhas que dimana dessa vida divina.
Jesus olhou com amor para o jovem rico
No Evangelho de hoje ouvimos que “alguém veio correndo” até Jesus. Era uma pessoa que não ficou indiferente diante de sua palavra e veio perguntar-Lhe: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?”.
Esse “alguém” – note-se que o Evangelho não disse aqui se é homem ou mulher – é, em certo sentido, cada um de nós. Representa um ser humano desejoso de uma vida autêntica que realize a pessoa na sua totalidade.
Ora, só Deus pode fazer isto. E, por isso, Cristo dá àquela pessoa uma bela resposta: “Conheces os Mandamentos: não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, não prejudicarás ninguém”. O homem afirmou: “Mestre, faço tudo isso desde a minha juventude”.
Era, portanto, uma pessoa justa, em dia com a Lei, à qual Jesus olhou com amor. “Pois bem, já fazes tudo isso, agora vai, vende tudo quanto tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro nos Céus. Depois vem e segue-Me”. Mas o jovem se retirou cheio de tristeza, porque era muito rico.
Podemos aqui fazer a pergunta que tantos fazem: mas então os ricos não se salvam? Cristo não disse isso no Evangelho; pelo contrário, Ele “olhou com amor” aquela pessoa.
Porque o mal não está em possuir muitos bens, mas em não fazer deles bom uso. A riqueza não pode ser um obstáculo para o meu relacionamento com Deus e com o próximo.
Os bens materiais conseguidos com trabalho e esforço devem me levar à verdadeira liberdade, nutrindo sempre o sentimento de solidariedade e partilha, nunca o de domínio e apego. O desapego, a liberdade, a alegria interior, nos tornam aptos para a vida eterna, que já começa agora. […]
Para ser autêntico cristão, não basta cumprir as normas
Vivemos, infelizmente, num mundo onde muitas vezes o mal se apresenta como bem, a injustiça se tenta transformar em justiça, e a mentira em verdade, usando os argumentos próprios do nosso tempo.
E estamos aqui hoje, nesta igreja, porque temos Fé. Queremos realmente orar, queremos iluminar a nossa vida pela proposta da Palavra, desta Sabedoria que é o próprio Deus.
Queremos realmente abraçar a causa do Evangelho, que é a causa da vida. Queremos fazer um caminho marcado pela dignidade. E é isso que o mundo deseja ver em nós, na nossa Igreja, nas outras igrejas cristãs, em cada um que se diz seguidor de Jesus.
Então, sermos cristãos crismados, ungidos pelo Espírito Santo, deve nos levar a ultrapassar o mero cumprimento das normas piedosas: “Fui à Missa hoje, estou quite com a Lei de Deus”. Isto não basta, é muito pouco!
É preciso ter desprendimento, liberdade e alegria para rejeitar o relativismo e acolher sempre o absoluto, isto é, o amor de Deus, revelado por Jesus e continuado na Igreja, o amor que não passa e dá sentido à nossa existência.
Meus crismandos, minhas crismandas, sob a luz do Espírito Santo, saiam daqui alegres, animados, encorajados: “Agora eu fui ungido pelo Espírito Santo, sou um cristão adulto. Agora, alimentado pela Palavra, pela Eucaristia, vou testemunhar Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida”.