Meus irmãos e minhas irmãs, saúdo especialmente o querido Pe. João, o Cônego José Adriano, os demais sacerdotes e diáconos dos Arautos do Evangelho.

É com muita alegria que venho hoje aqui, visitar em primeiro lugar a comunidade – é claro, as pessoas são sempre mais importantes – mas também ver todo este conjunto do Seminário São Tomás de Aquino, construído para o serviço dos Arautos, da Igreja e da sociedade.

Realmente, estou muito admirado e feliz de ver todo este progresso de sua Associação e da Sociedade de Vida Apostólica. A forma como estão progredindo é admirável. Estarem atuando em 58 países significa um progresso cada vez maior, e mais rápido.

Aí está a mão de Deus

Tudo isso, certamente, não poderia existir se não fosse a mão de Deus. Eu reconheço aí a mão de Deus. É Ele Quem está aí, fazendo surgir as maravilhas de seu Espírito. E Ele é tão variado!

É tão variado o Espírito que está, de fato, enriquecendo a Igreja de uma diversidade muito grande de novas comunidades, de novas formas de vida consagrada, novas formas associativas dos leigos católicos, das leigas católicas. Há um grande florescimento pelo mundo afora.

E vocês fazem parte desse surto do Espírito Santo, dessa feliz manifestação de seus dons e carismas, que trazem para a Igreja novas espiritualidades, novas metodologias de trabalho, novas formas de convivência em comunidade.

Enfim, é uma riqueza muito grande, que devemos reconhecer e agradecer a Deus. 

A aprovação pontifícia, uma grande responsabilidade

São Paulo já dizia que a Igreja – os Apóstolos e seus sucessores – tem de saber discernir e guardar, ou seja, apoiar aquilo que é bom. Corrigir aquilo que não está bem, mas apoiar aquilo que é bom, santo e justo.

A Igreja já manifestou esse apoio a vocês, aprovando-os em âmbito pontifício. Mundial, portanto. Vocês receberam essa graça da Igreja, que é esse reconhecimento. 

Ao mesmo tempo, é uma grande responsabilidade de serem sempre muito fiéis e saberem interpretar em que direção a Igreja vai, como podem ajudar a Igreja, como podem dar apoio às suas iniciativas, em todo lugar onde estão.

Este é o outro lado da medalha. A Igreja acolhe, reconhece, e espera de vocês essa presença viva, fiel, missionária e evangelizadora dentro da Igreja e – na Igreja e com a Igreja – no mundo de hoje.

Porque ela tem de ter uma presença no mundo de hoje que seja uma luz, como dizia o Concílio: “luz das nações”, lumen gentium. 

A Igreja reflete a luz de Cristo para as nações

Jesus Cristo é a luz das nações, como dizia o velho Simeão. Mas Ele passa essa luz para sua Igreja, e esta é como um espelho que reflete essa luz para as nações.

Nós todos devemos ser essa Igreja que reflete, de fato, Jesus Cristo para o mundo. Nós vivemos no meio do mundo, somos sementes no meio do mundo, sementes de transformação do mundo, para que o Reino de Deus se estabeleça, cresça e possa se manifestar. 

Somos nós que, livremente, deixamos Deus reinar em nós. Isto é o Reino de Deus: deixar Deus reinar em nós! Ele bate em nosso coração, nós abrimos a porta e O deixamos entrar e reinar.

E, assim, devemos ajudar o mundo a abrir as suas portas, para que Deus possa reinar. Deus não força as portas, nem a nossa! Ele nos convida, nos solicita, nos chama. Ele nos importuna, no bom sentido da palavra.

Ele está sempre atrás de nós e, assim, atrás da humanidade toda, porque Ele não quer perder ninguém! A humanidade toda é chamada à santidade, é chamada a se salvar. A vontade de Deus é que todos se salvem.

Portanto, a Igreja é aquela que deve ajudar a humanidade a abrir as portas, como dizia João Paulo II: “Que se abram as portas para Jesus Cristo, que se abram totalmente as portas para Jesus Cristo poder entrar”.

Devemos conduzir o mundo a Jesus Cristo

Nós, que somos seus seguidores, seus discípulos e discípulas – e sobretudo nós, pastores – devemos conduzir o mundo a Jesus Cristo. Não conduzi-lo a nós, mas a Jesus Cristo.

Queremos, é claro, que ele esteja conosco, faça parte de nossa convivência fraterna: nós somos o povo de Deus, o povo de irmãos. Mas nós conduzimos, na verdade, o mundo para Jesus Cristo.

Isso eu gostaria de sublinhar muito. O próprio Evangelho de hoje nos fala a esse respeito, fala de um cego que foi curado. E com tanta alegria e fé, recebeu aquela cura! Ele gritava: “Jesus, filho de David!”

Ele, cego, já tinha certamente ouvido falar de Jesus, tinha chegado à conclusão de que Jesus devia ser o Messias. Porque o Messias devia ser descendente de David.

Por isso, ele grita: “Jesus, filho de David!” Era, portanto, uma manifestação de fé de que esse Jesus era o próprio Messias.

E Jesus, que tinha feito tantos milagres, por que não podia fazer um para ele também? Por isso ele gritava. Depois, muito humildemente, com muita simplicidade, diz a Jesus: “Senhor, faz que eu veja!”

No fundo do coração, toda pessoa humana diz isso. Embora muitas vezes não saiba onde está a luz, ela quer ver, quer chegar até a luz que a ilumine. E Jesus é essa luz. É o único que pode, de fato, iluminar a humanidade. 

E nós temos de levar as pessoas das trevas para a luz. São João fala muito desse contraste das trevas com a luz, como fala muito também da morte e da vida. Jesus é a luz do mundo. Ele mesmo dizia: “Eu sou a luz do mundo. Sejam filhos da luz. Sigam a luz, saiam das trevas!”

Cristo não diz isso Se arrogando a glória, porque São Paulo diz que Jesus até, por assim dizer, Se esqueceu da sua glória divina, para Se tornar um de nós. Humilhou-Se, aniquilou-Se. Mas Ele quer levar-nos à verdadeira luz, que é Ele.

Essa luz, que é Ele e o Pai, um só, com o Espírito, é a única e verdadeira luz. Deus habita na luz inacessível. Ele é a própria luz, na qual nós enxergamos a luz.

Uma ciência sem Deus gera trevas

Temos de levar o mundo a essa luz, pois sabemos que o mundo de hoje ainda tem trevas. E trevas muito especiais, muito específicas. O mundo pós-moderno, científico, de muito progresso da ciência e da tecnologia, no entanto, perdeu a religião.

Sem dúvida, a ciência é uma luz também, tal como a tecnologia. Mas ela pode ser uma luz falsa. Na medida em que ela quer ser a única luz, ela se torna trevas.

Quando ela quer ser a única luz para o mundo, o qual acha que só a ciência vale, assim como a tecnologia, então essa luz se torna trevas. Porque ela se esquece que não existiria sem a Luz e a Verdade, que é Deus. Deus é a Verdade.

Deus é a Luz. E quando se esquece disso, o mundo começa a andar nas trevas, a ciência acaba desviando a humanidade da verdadeira luz.

Duas asas que levam à verdade: fé e razão

É preciso reconhecer a ciência, é preciso reconhecer a tecnologia, é preciso reconhecer a grande capacidade da razão humana. Mas, como dizia João Paulo II, fé e razão têm de ser duas asas que nos levam à verdade plena.

A ciência nos leva à verdade das coisas criadas, ajuda-nos a entendê-las. Mas ela é apenas uma das asas. Sem a outra – que é a principal, a fé – andamos nas trevas. 

É muito importante essa presença que significa também uma presença qualificada. Os papas têm dito isso, ultimamente.

O Papa atual, mais do que nunca, insiste nesse diálogo entre a fé e a racionalidade, descobrindo a racionalidade da fé; reconhecer o progresso da ciência e da tecnologia, mas trazê-la para dentro dessa luz da fé.

Por isso devemos ter também uma qualificação e ser entendidos nas coisas da ciência e da tecnologia. E por isso todos os membros da Igreja – sobretudo os mais qualificados, os seus pastores – devem ser bem preparados para hoje poderem ser uma luz no mundo.

Sinto-me inspirado a falar nisso, vendo aqui tudo o que vocês também estão projetando e realizando em termos de escolarização.

Portanto, de qualificação, não só de vocês mesmos, mas também dos filhos dessa nossa gente, dos jovens, dos adolescentes, das crianças, do nosso povo. 

A educação é indispensável, mesmo para o próprio País. Mas, repito, deve ser uma educação que não seja mero tecnicismo, mero cientificismo, em que só se acredita na ciência, e as pessoas se fascinam de tal forma que se esquecem de sua fé religiosa e da Luz Suprema, que é Deus.

Nesse aspecto da educação religiosa nas escolas, temos de continuar muito fortes, já que a escola pública pouco faz. A escola particular tem de formar, também, religiosamente os seus alunos.

A formação de vocês mesmos, de seus sacerdotes, de seus membros, consagrados ou não, tem de ser muito especial, porque precisam ser capazes de refletir essa luz, que é Jesus, sobre a ciência, sobre a tecnologia, sobre a vida cultural, familiar e social de hoje em dia.

Necessidade de uma seleção rigorosa dos sacerdotes

Sobre a formação dos padres – isso nós procuramos acentuar aqui na Arquidiocese de São Paulo, nos últimos anos, insistindo muito nisso – criar condições significa, claro, em primeiro lugar construir seminários adequados.

Mas também formar os padres, fazer uma boa e rigorosa seleção. E falo de rigorosa seleção! Ela é necessária, porque os padres hoje precisam ser muito qualificados, ter muito boas condições para atuar no mundo, que não lhes dá mais o apoio que antigamente nós tínhamos.

Hoje o padre não tem mais esse apoio. Ele tem de ser muito mais forte, muito mais qualificado, tem de ter muito melhores condições.

Portanto, é preciso uma seleção rigorosa, para ele ter condições de, no mundo, viver com alegria, e feliz levar avante seu ministério. É preciso uma formação, portanto, exigente. Exigente!

A exigência, uma prova de confiança nos jovens

Digo isso também para os jovens que estão aqui. Quando se fala de exigência, o jovem, no primeiro momento, se assusta. Mas, no fundo, o jovem gosta de ser exigido.

Porque, se não se exige nada dele, ele acha que não vale nada, não é capaz de nada. Quer dizer, não se acredita nele. Se exigimos, é porque acreditamos que ele é capaz.

Então, o jovem deve se alegrar quando é exigido, porque isso mostra que se tem confiança nele, de que ele é capaz de crescer, de ser aquilo que se está pedindo que ele seja. 

É de fato assim, porque Deus dá a graça e nós temos muito mais capacidade do que pensamos. Eu sempre digo que nossos limites estão sempre bem mais para lá do que pensamos.

Quando nos empenhamos, vamos descobrindo como Deus nos deu um grande cabedal de capacidades. Nós usamos pouco nossas capacidades. No entanto, deveríamos usá-las muito, para o bem da humanidade e do próximo.

Importância da evangelização das famílias

Que vocês sejam, ao mesmo tempo, missionários lá fora, muito evangelizadores, fazendo de Jesus Cristo uma boa notícia para nossa gente, para nossas famílias. 

Eu insisto muito nas visitas às famílias. Escutamos primeiro as famílias, criamos confiança para que elas falem, rezamos com elas, lemos com elas um trecho do Evangelho, para terem o hábito de um pequeno encontro com Jesus Cristo, e verem que podem ter esse encontro com Ele.

Basta abrir o Evangelho e ler um trecho que você está diante de Jesus Cristo! Ajudar as famílias a entender isso, ensiná-las a encontrar Jesus Cristo, a conversar com Ele, a conviver com Ele, a ter intimidade com Ele. 

Ajudar a realizar o ideal cristão de sociedade

Que Jesus Cristo seja, de fato, uma alegria para as pessoas, sobretudo as mais pobres. Elas precisam de ajuda mais do que nunca, porque são vítimas de uma sociedade injusta, mal-estruturada.

O sonho de Jesus Cristo não era o de uma sociedade na qual uma metade está bem ou muito bem, e outra metade está mal ou muito mal.

Temos, então, de ajudar também as famílias mais desprovidas a encontrar caminhos de se promover, de sair das suas necessidades, da sua pobreza, da sua miséria.

Isso tudo tem de ser vencido, constituindo um processo. Um processo que pede até – eu sempre digo – políticas públicas que temos de exigir do governo, para que, de fato, possamos ser um mundo mais fraterno e mais pacífico.

Tudo isso é missão do padre, dos consagrados, é missão nossa, que nos reunimos para servir a Deus. Também isso é a nossa grande tarefa: conduzir as pessoas a Jesus Cristo e elas sentirem que somos seus irmãos e queremos cuidar também delas, quando são necessitadas.

Desde o doente até o pobre; desde o desesperado, o pecador que não sabe mais o que fazer da vida e perdeu o sentido da existência, até aquele que ainda sabe o sentido da sua vida, mas vive numa pobreza tão grande que a vida acaba sendo muito complicada.

Para com todos temos de ter muito amor, e muita presença junto a eles. Sei que vocês estão sendo orientados para esse objetivo e pondo em prática. Padre João insiste nisso com todos vocês.

Acho que é por aí que temos de caminhar: ser uma presença da Igreja, uma presença viva e evangelizadora, ou seja, que faça de Jesus Cristo uma boa notícia para as pessoas e para a humanidade, que seja solidária com os mais sofridos, pecadores e pobres.

Com os mais sofridos temos de ser solidários, para que eles também sintam o calor de sua Igreja e de seus irmãos.

Eu poderia ficar aqui conversando com vocês não sei quanto tempo…

Na Eucaristia, Jesus morto e ressuscitado, está no meio de nós

Obrigado pela acolhida. Vamos agora celebrar a Eucaristia. Jesus Cristo, morto e ressuscitado, estará no meio de nós. Isso sempre me faz lembrar o trecho do Apocalipse que diz que o Cordeiro está diante do Pai, de pé, como que imolado.

Ele está ressuscitado, mas com todos os sinais de sua Paixão. É assim que Ele está na Eucaristia: de pé, mas como que imolado. Toda a sua morte está ali presente, junto da sua ressurreição.

E nós podemos participar, assim, unindo a Ele a nossa morte de todos os dias, quando morremos para o mal e renascemos para o bem.

Sempre, todos os dias, sua morte e sua ressurreição atuam em nossa vida na medida em que, nós também, nos alimentamos d’Ele mesmo, que Se torna a nossa força nesse constante morrer e ressuscitar, para um dia ressuscitarmos plenamente, no fim dos tempos. Amém.