O Concílio Vaticano II afirmou fortemente a vocação batismal de todos os cristãos, inclusive dos leigos. A propósito dos fiéis leigos, os Padres do Concílio escreveram que são
os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo.1
A vocação dos leigos é concretamente estar no mundo
O Concílio também afirmou, do mesmo modo que documentos posteriores do Magistério, que a vocação dos leigos é concretamente estar no mundo. Diz o Concílio:
Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus.
O Concílio assinala que os leigos vivem no mundo, desempenham profissões e trabalhos seculares e participam nas redes básicas de vida familiar e social.2
Em sua exortação apostólica Ecclesia in America, nosso querido Santo Padre, o falecido Papa João Paulo II, descrevia os âmbitos nos quais os fiéis leigos devem viver sua vocação batismal. Ao segundo âmbito chama “intraeclesial”.
O primeiro deles, ao qual João Paulo II chama “mais próprio de sua condição laical”, é o mesmo que na Lumen Gentium se descreve como “compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus”. […]
Parece-me importante insistir nessa unidade fundamental, já que constitui um elemento essencial dos esforços da Igreja para transformar o mundo.
O modo como muitos leigos destacados parecem ver suas obrigações no mundo tem ocasionado uma falta de unidade entre eles e seus pastores, o que tem sido claramente um obstáculo para nossos esforços por transformar o mundo, segundo os critérios do Evangelho.
A participação dos leigos na própria missão salvadora da Igreja
O primeiro trecho que citei da Lumen Gentium expõe claramente que os leigos participam “a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo”.
Alguns parágrafos mais adiante, o Concílio fala do apostolado dos leigos, que é a “participação na própria missão salvadora da Igreja”.
Os fiéis leigos são os que estão chamados “a tornarem a Igreja presente e ativa naqueles locais e circunstâncias em que só por meio deles ela pode ser o sal da terra”.3 […]
Mas a vocação dos fiéis leigos como transformadores do mundo não foi dada apenas para fazer deste um lugar mais digno e habitável.
Trata-se de uma vocação para proclamar ao nosso mundo que seu destino transcendente é converter-se no reino da verdade e da vida de Deus, da santidade e da graça, da justiça, do amor e da paz.
Se apenas Deus pode alcançar esse destino com o tempo, os fiéis leigos hão de ser a voz que proclama: “Abri no deserto um caminho para o Senhor, traçai reta na estepe uma pista para nosso Deus!” (Is 40, 3). Os fiéis leigos
são chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento.
E deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade.4
Como diz João Paulo II em Christifideles laici, “o estar e o agir no mundo são para os fiéis leigos uma realidade, não só antropológica e sociológica, mas também e especificamente teológica e eclesial”.5
Trabalhar para que o desígnio de salvação atinja cada vez mais os homens
Ao receber o encargo de Cristo para participar de sua missão salvadora, os leigos têm “a magnífica tarefa de trabalhar para que o desígnio de salvação atinja cada vez mais os homens de todos os tempos e lugares”.6
Para isso, se lhes descreve de modo apropriado como partícipes “a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo”. […]
Como pastores, estamos chamados a manter um diálogo sério com esses católicos sobre o que para eles significa o Batismo, sua participação na Eucaristia e sua vocação como fiéis leigos. […]
Como diz o Papa João Paulo II em Ecclesia in America,
a América necessita de cristãos leigos em grau de assumir cargos de dirigentes na sociedade.
É urgente formar homens e mulheres capazes de influir, segundo a própria vocação, na vida pública, orientando-a para o bem comum.7