O sentido da Solenidade que estamos celebrando encontra-se nos dois títulos conferidos pela Liturgia a São José: esposo da Virgem Maria e Patrono da Igreja universal.

O primeiro recorda que, enquanto esposo de Maria, ele esteve unido de modo único, original, a Jesus Cristo e à sua obra salvadora;

O segundo, que foi o chefe da primeira comunidade cristã. Igreja é a comunidade reunida em torno de Cristo.

Ora, a primeira comunidade que se reuniu em torno de Cristo, foi a família de Nazaré, da qual São José era o chefe. Portanto, ele merece de fato o título de Patrono da Santa Igreja.

As três leituras da Palavra de Deus, aqui proclamadas, nos ajudam a compreender mais profundamente a razão desses dois títulos. 

Um patriarca da estatura de Abraão

A primeira, tirada do Segundo Livro de Samuel (7, 4-5a.12-14a.16), registra a aliança feita por Deus com Davi e sua dinastia. O oráculo do profeta se refere, antes de tudo, a Salomão, que construiu o templo de Jerusalém.

“Um templo dedicado ao meu nome”, disse o próprio Deus. Na realidade, porém, esse oráculo vai muito além de Salomão.

Refere-se a um descendente de Davi, no qual Deus depositará toda a sua afeição: “Eu serei para Ele um pai e Ele será para Mim um filho”. Trata-se do Messias.

E coube a São José, descendente de Davi, construir a casa da Família de Nazaré, para que Cristo, o Salvador, habitasse nesta Terra com rosto humano. 

Mais ainda, como ouvimos pelo relato do Evangelho (Mt 1, 16.18-21.24a), coube-lhe dar nome ao Filho nascido de Maria: “E tu, Lhe porás o nome de Jesus”.

Na Sagrada Escritura, dar nome a alguém é tornar-se pai, ainda que não o seja biologicamente. Portanto, dando nome ao Filho nascido de Maria, São José inseriu Jesus na descendência de Davi, à qual ele mesmo pertencia.

Na segunda leitura desta Missa, tirada da Carta aos Romanos (4, 13.16-18.22), São Paulo se refere a Abraão, o maior de todos os patriarcas. Ao escolher este texto para a Solenidade de São José, quis a Liturgia recordar que ele é um patriarca da estatura de Abraão. 

Na Sagrada Escritura, a palavra patriarca significa “grande pai”.

Ele é pai não só de um indivíduo, mas de todo um povo; é amigo de Deus; é também um homem de Fé, que obedece com fidelidade à palavra do Senhor; finalmente, é um homem de vida interior, curva-se diante do mistério de Deus, caminha sempre na sua presença.

Grande amigo de Deus, homem de profunda vida interior

Ora, São José foi um patriarca, um grande pai, pois está na origem da Igreja, o novo povo de Deus. O verdadeiro descendente de Abraão, segundo São Paulo, para quem a Igreja, povo de Deus, é aquela descendência numerosa, prometida por Deus a Abraão. 

São José foi também um grande amigo de Deus, o qual lhe revelou seus desígnios até mesmo em sonhos.

Num sonho, ele conseguiu compreender que a maternidade de Maria não era fruto do ser humano, mas da ação do Espírito Santo.

Num sonho, recebeu a ordem de fugir para o Egito com sua família, porque Herodes procurava o Menino Jesus para matá-Lo; num sonho Deus o mandou voltar para Nazaré, após a morte de Herodes.

O patriarca São José foi um homem de Fé. Obedecia fielmente à palavra de Deus, mesmo quando devia enfrentar dificuldades, vencer obstáculos para pô-la em prática.

Por fim, ele foi também, como patriarca, um homem de profunda vida interior. O Evangelho não menciona nenhuma palavra de São José, mas registra com frequência o seu silêncio.

O silêncio do homem de vida interior, que está sempre atento para ouvir a palavra de Deus, que está sempre procurando conhecer a vontade de Deus para colocá-la em prática.

O sacerdote: homem “à semelhança de São José”

A existência de São José ilumina a vida de toda a Igreja, especialmente a dos sacerdotes. 

À semelhança de São José, o sacerdote é alguém ligado de modo original, único, à pessoa de Cristo e à sua obra salvífica. Pela ordenação, ele é configurado a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, age na pessoa de Cristo.

Por isso mesmo, pode ele dizer na celebração da Eucaristia: “Isto é o meu corpo. Este é o cálice do meu sangue, por vós derramado”. E no confessionário é o próprio Cristo que, através dele, diz ao pecador: “Eu te absolvo de teus pecados”.

À semelhança de São José, o sacerdote é um patriarca. É o pai espiritual da comunidade cristã. E de fato, o nosso povo quer sempre encontrar no sacerdote um pai: aquele que aconselha e repreende, que compreende e perdoa.

À semelhança de São José, o sacerdote deve ser não apenas um pregador da Palavra, ele precisa ser discípulo da Palavra.

Há alguns anos, o Cardeal Cláudio Hummes pregou para o Papa João Paulo II e a Cúria Romana um retiro cujo tema foi este: Sempre discípulos. Quem não é bom discípulo, não pode ser bom sacerdote, bom pregador da Palavra de Deus.

À semelhança de São José, o sacerdote deve ser homem de vida interior. Precisa fazer silêncio, muito silêncio, para descobrir a vontade de Deus em sua vida e executá-la.

Irmãos e irmãs, há na Liturgia uma expressão que sempre admirei, posso até dizer, amei muito: “São José, servo fiel e prudente”. À semelhança de São José, cada sacerdote precisa ser um servo fiel e prudente.

Sempre fiel à sua vocação, fiel à missão que a Igreja lhe confia, fiel às promessas feitas no dia da ordenação. Ele deve ser prudente, não pode levar uma vida qualquer: deve viver de acordo com sua identidade de sacerdote, onde quer que esteja.

Vamos, pois, nesta solenidade tão cheia de alegria, pedir a intercessão de São José para que cada sacerdote, cada ordenando que agora vai tornar-se sacerdote, seja de fato um servo fiel e prudente. Servo fiel e prudente de Deus, da Igreja e dos irmãos. Amém. 

 

Homilia na Missa de ordenação presbiteral, 19/3/2012.