Em artigo anterior,1 pudemos considerar a heroicidade de virtudes de Santa Joana d’Arc. Foram lembrados seus feitos de armas, seu gênio militar inspirado pelo Céu, sua ousadia guiada pelas “vozes” e sua coragem inquebrantável, vista, aliás, como presunção e temeridade pelos covardes.
Ela desconcertou tanto os mais entendidos na arte da guerra quanto os maiores sábios na ciência teológica. Por curto espaço de tempo, seu trágico fim pareceu asseverar ter sido frustra a sua vida, antes de os fatos atestarem o glorioso êxito de sua missão. Profeta, conselheira, general, harmonizadora, apologeta, guerreira – sempre sublime, seja na vitória ou no fracasso –, ela se tornou um prodigioso modelo para todos os homens de ação.
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Em aparente antagonismo se encontra Santa Teresinha do Menino Jesus, a doce e serena doutora da pequena via, vitimada pela doença na solidão do Carmelo. Salvo o fato de terem sido ambas colhidas em juveníssima idade, tudo nelas parece contrariar-se: a austeridade do claustro, contra o fausto da vida de corte; o silêncio da capela, contra os fragores do campo de batalha; o recolhimento da contemplação de Deus, contra a solércia das providências a tomar; a longa agonia da enfermidade, contra o repentino fulgor do martírio… Nada parece haver de mais oposto do que a Santa de Lisieux e a Santa de Orléans. Sobretudo, nada mais distante que Santa Teresinha do ideal de homem de ação. Mas… será mesmo assim?
Na verdade, não se pode esquecer que a religiosa foi proclamada por Pio XI como padroeira universal das missões. Engano ou arbitrariedade infundada? Com efeito, como pode justificar-se essa patronagem, se Santa Teresinha nunca saiu em missão?
Em primeiro lugar, é sabido que a santa carmelita dirigiu espiritualmente dois missionários e, pelas suas cartas, percebe-se ter ela compreendido as missões melhor do que ambos, e com mais profundidade do que muitos outros ainda. Em segundo lugar, seu amor a Deus e seu ardor pelas almas faziam-na palpitar de desejos apostólicos, que ela convertia em intenções, orações e imolações, as quais se viam recompensadas por abundantes frutos de conversão.
Assim, embora fisicamente cerceada pela clausura religiosa, a veemência de sua alma não conheceu fronteiras nem limites. Como consequência, não existe hoje terra remota na qual não haja uma igreja, um convento, um hospital ou uma escola dedicada a ela.
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Contudo, que relação se pretende estabelecer entre Santa Teresinha e Santa Joana d’Arc?
Assim como Santa Teresinha pode ser considerada, à sua maneira, uma alma de ação, Santa Joana d’Arc deve ser compreendida, também, como uma alma de contemplação. Com efeito, suas vozes provaram nunca terem mentido: eram, pois, sobrenaturais, e o contato místico com o sobrenatural é um fruto característico da contemplação, sem a qual não existe mística autêntica.
A própria flexibilidade de Santa Joana d’Arc às moções oriundas das vozes é uma demonstração, não apenas do vigor de sua fé, mas do seu agudo senso sobrenatural, treinado no relacionamento espiritual constante com Deus, convívio este que conforma a essência da contemplação. Ademais, as respostas cheias de sabedoria que a Pucelle espetou nos seus juízes provinham de um espírito caracteristicamente meditativo.
Podemos encontrar um eloquente sintoma da entranhada relação de afinidade existente entre ambas as Santas, não apenas no papel representado por Santa Teresinha em uma peça teatral feita no Carmelo, mas sobretudo na referência a Santa Joana d’Arc como “minha irmã querida”,2 consignada em seus escritos.
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Cada uma a seu modo, as duas Santas demonstraram que a verdadeira ação nasce da contemplação. Com efeito, considerado de um mirante mais alto, agir consiste em realizar algo planejado por Deus para que fosse realizado por nós. O homem deve, pois, perscrutar esse desígnio divino, e só é capaz de fazê-lo mediante o convívio interior com o Criador, em regime de contemplação. Com razão Dom Chautard3 atribuía todo fruto apostólico ao fervor da vida interior!…
Contudo, muito antes do abade de Sept-Fons, nosso Divino Modelo nos deu o supremo exemplo. Estando para começar sua vida pública, Nosso Senhor Jesus Cristo passou quarenta dias em retiro no deserto; nos três anos que pregou em Israel, previamente a toda grande ação recolhia-Se Ele na solidão dos montes para orar ao Pai; por fim, prestes a iniciar sua Paixão salvadora, dirigiu-Se ao Horto das Oliveiras para meditar e rezar. Ninguém jamais agiu como o Redentor, nem com maiores frutos; ninguém, tampouco, jamais contemplou como Ele.
O homem moderno pensa ser todo feito de ação e para a ação, com muita agitação inclusive. Lembrar-se-á ele de que o êxito da ação depende – como o calor depende do fogo – de ter aprofundado suas raízes na contemplação, na relação de alma com Deus?
Notas:
1 Virtudes antagônicas ou complementares?, publicado na edição de março desta Revista.
2 SANTA TERESA DE LISIEUX. Manuscrit B, 3r.
3 Cf. CHAUTARD, OCR, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. 2.ed. São Paulo: Cultor de Livros, 2015.