Ao lermos os Santos Evangelhos e nos encantarmos com o que neles é narrado a respeito do Homem-Deus, provavelmente já tenha surgido alguma vez em nosso interior a seguinte exclamação:

“Que graça imensa receberam aqueles que conviveram com Nosso Senhor! O que daríamos nós para estar com Ele, contemplar seu olhar, escutar suas divinas palavras… Se houvesse gravadores naquela época, com que santa avidez registraríamos seus discursos, para nunca mais esquecê-los”.

Pois bem, sabendo Deus quão necessário era que a humanidade inteira ouvisse sua voz ao longo da História, “gravou” sua Palavra num “aparelho” que a reproduziria para todo o sempre e no mundo inteiro: as Sagradas Escrituras.

De fato, quando abrimos a Bíblia e lemos as inspiradas palavras do Espírito Santo, acontece algo a mais do que ao ouvir um som reproduzido num mero gravador. Não apenas escutamos aquilo que Deus disse no passado, mas sua voz ecoa no presente e se ­atualiza. É como se Ele mesmo Se comunicasse conosco, estando diante de cada um. Por isso devemos venerar tanto as Sagradas Escrituras e ler com verdadeiro amor as palavras nelas contidas. Com o mesmo amor que demonstrava a seus Apóstolos, Jesus nos fala agora!

Nem de dia, nem de noite, deve se afastar de nossa boca a Palavra de Deus e, como pondera Santo Atanásio,1 até deveríamos saber de memória alguns trechos, como os Salmos. São Jerônimo2, por sua vez, recomenda a Santa Eustóquia que o sono a encontre com as Escrituras nas mãos e que sobre a página sagrada caia sua cabeça fatigada pelo cansaço.

Com efeito, Nosso Senhor afirmou no Evangelho: “Vinde a Mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e Eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). E também a nós Ele repete esse convite, chamando-nos a repousar nossa fronte extenuada sobre os Livros Santos, assim como o faríamos sobre o seu sagrado peito!

Lancemos sobre o Salvador as nossas preocupações (cf. I Pe 5, 7) e perscrutemos com amor a Divina Revelação pois, como pondera São João Crisóstomo,3 seja qual for a desgraça que pese sobre nós, na Bíblia encontraremos o remédio adequado, que afugenta todo pesar. Então, por mais difícil e tenebrosa que seja nossa situação, poderemos afirmar com Santa Teresinha:

“[Quando tomo a Sagrada Escritura,] então tudo me parece luminoso; uma única palavra descobre à minha alma horizontes infinitos, a perfeição me parece fácil, vejo que basta reconhecer o próprio nada e abandonar-se como uma criança nos braços do Bom Deus”.4 

 


1 Cf. SANTO ATANÁSIO. De virginitate, n. 12: PG 28, 266.
2 Cf. SÃO JERÔNIMO. Epistola XXII, n. 17.
3 Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilias sobre o Gênesis. Homilia XXIX, n. 1.
4 SANTA TERESA DE LISIEUX. Carta 226. Ao Pe. Roulland.